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No Brasil, quem depende sobrevive e quem busca autonomia é punido

O brasileiro conhece o jeitinho: burlar a burocracia, pedir ajuda ao parente servidor, tirar o seu por fora na nota fria. Mas o jeitinho não é o problema do país – é o sintoma mais brando de uma doença que, nos estágios avançados, produz casos como os do INSS e do Banco Master: a dependência. No Brasil, quem depende sobrevive; quem busca autonomia e moralidade é punido.

Nem sempre foi assim. João Camilo de Oliveira Torres demonstrou em A democracia coroada que o Império, com todas as suas contradições, construiu um arranjo liberal funcional que a República desmontou – movida por um desejo iluminista de apagar o passado imperial – e nada pôs no lugar.

O município foi esvaziado pela centralização fiscal. A família foi substituída pelo Bolsa Família como estrutura provedora. A Igreja foi deslocada: por dentro, pela Teologia da Libertação, que trocou evangelização por militância; por fora, pelo espetáculo neopentecostal

O federalismo prometido virou coronelismo; aquilo que deveria ser autonomia local, subsidiariedade, tornou-se um domínio oligárquico sem contrapeso, em que cada unidade federativa tinha os seus donos. O patrimonialismo herdado de certa tradição lusitana, antes domesticado, foi liberado em estado puro.

Escutando recentemente um podcast do psiquiatra Italo Marsili, ouvi-o nomear três estruturas que mantêm o Brasil refém: o crime organizado, a financeirização e o neopentecostalismo político. O problema central do Brasil não é a esquerda ou a direita, são os ventríloquos operando fantoches – que não comungam entre si. Por que esses três fenômenos emergem ao mesmo tempo e operam com a mesma lógica?

Quando Tocqueville estudou a democracia na América, entendeu que a saúde de uma democracia se mede pela densidade de suas associações intermediárias. Sem família, igreja e município, o cidadão fica nu diante do poder. No Brasil republicano, ao longo de ditaduras e populismos, o Estado não apenas enfraqueceu essas mediações, mas as substituiu por completo por algo pior.

O município foi esvaziado pela centralização fiscal. A família foi substituída pelo Bolsa Família como estrutura provedora. A Igreja foi deslocada: por dentro, pela Teologia da Libertação, que trocou evangelização por militância; por fora, pelo espetáculo neopentecostal. O resultado é uma orfandade institucional – e ninguém fica realmente órfão de símbolos. Como espécies invasoras em um ecossistema degradado, os três poderes alternativos ocupam o mesmo vácuo sem precisar cooperar.

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No Brasil, o neopentecostalismo político ocupa o espaço da comunidade moral. O fiel submete-se a um pastor-político que oferece um sentido emocional em troca de lealdade irrestrita. O político “ungido” não deve explicações à lei – como alguém apontado por Deus responderia a qualquer outra autoridade? Criticar o enviado de Deus custa ao opositor não apenas conforto político, mas a própria identidade social.

O crime organizado ocupa o espaço da ordem local em todo Brsil. Onde o Estado se recusa a funcionar – nas favelas criadas por péssimos planos diretores – alguém preenche o papel e cobra por isso. Prospera não apesar do assistencialismo, mas graças a ele. A dependência cria populações imóveis e vulneráveis ao poder armado. E assim o Brasil tem níveis de violência piores que os de países em guerra.

A financeirização ocupa o espaço do mercado produtivo. Sob o peso de taxas de juros elevadas e uma dívida crescente por causa da irresponsabilidade fiscal, o Estado gastou R$ 1 trilhão apenas com o serviço da dívida em 2025 – o que é mais que o dobro de saúde e educação somados. Para sustentar essa rolagem, o governo emite novos títulos que os bancos absorvem, pois o retorno é elevado e o risco é soberano. Cria-se um efeito expulsão: se é possível lucrar com o governo sem risco, por que investir no empreendedor? O capital que financiaria o emprego é drenado para o rentismo estatal, e o crédito para a economia real torna-se escasso.

Não são três crises separadas exigindo três soluções. É uma única doença: a dependência como modo de organização social, legado de uma República que destruiu as mediações que herdou sem construir nada em seu lugar. A alternativa clara é a subsidiariedade: comunidades com propriedade real e associação livre resistem à captura porque não precisam de um senhor para funcionar. O caminho passa por reconstruir o que a Primeira República destruiu – e recusar a tentação de pedir ao mesmo Estado que nos aprisionou a chave da própria cela.

Yuri Quadros é diretor do Instituto Aliança, fellow do Amplifica e conselheiro da Rede Liberdade.

Autor: Gazeta do Povo

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