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Médicos na Amazônia ensinam primeiros socorros na floresta – 04/05/2026 – Equilíbrio e Saúde

Atendimentos de urgência em regiões remotas da Amazônia, como territórios indígenas, fazem parte da rotina dos médicos Idjarrury Sompré, Guilherme Giordani e Luiz Fernando Rocha. O serviço enfrenta limitações com insumos, isolamento geográfico e longas horas de caminhadas no interior da mata.

Esses desafios motivaram os três a criar o projeto Socorristas da Floresta, iniciativa de saúde que atua com treinamento de moradores em técnicas de primeiros socorros a partir da própria realidade local.

Um dos objetivos do projeto é ensinar a usar os recursos da floresta no socorro. O treinamento inclui, por exemplo, orientações para o transporte de pacientes em rede, o uso de varas de madeira como suporte para soro hospitalar, a imobilização de membros com materiais disponíveis na floresta e a produção de maca de resgate com madeira retirada do próprio território.

A iniciativa já capacitou cerca de 200 pessoas de comunidades da Amazônia desde fevereiro de 2025. Os treinamentos contam com apoio de organizações indígenas e socioambientais e da Força Nacional do SUS (Sistema Único de Saúde).

Sompré, Rocha e Giordani, que atuam respectivamente na terra indígena Zo’é, no norte do Pará, em territórios tradicionais no oeste do Pará, e em comunidades indígenas do Alto Rio Solimões, no Amazonas, recorreram à própria experiência para desenhar o projeto.

“Nessas regiões, o atendimento médico de urgência costuma demorar longas horas ou até dias por causa das dificuldades de acesso”, conta Sompré, médico indígena da etnia kaingang. “Levar treinamento a indígenas e ribeirinhos faz diferença, principalmente em casos de maior gravidade como afogamentos, acidentes com ferramentas de trabalho e picadas de animais peçonhentos.”

No ano passado viralizou nas redes sociais um vídeo em que ele atende um indígena do povo Zo’é carregado numa rede enquanto recebe soro preso a um suporte improvisado com talas de madeira. A cena, diz Sompré, se repete com frequência na rotina do médico, especialista em acolhimento de povos de recente contato e de regiões remotas da Amazônia.

Moradora da aldeia Novo Lugar, na terra Indígena Maró, território do povo Borari, no oeste do Pará, Rosete Alves conta que, antes do projeto, nunca havia passado por um trinamento de primeiros socorros.

O curso, segundo ela, foi um divisor de águas na comunidade. “Muitas pessoas que passaram por essa capacitação têm colocado essas orientações em prática e ajudado a salvar vidas no meu território.”

Ela conta que não há unidade de saúde na aldeia onde mora e que os postos médicos mais próximos estão em comunidades distantes muitas horas de barco. “Por isso que essas capacitações que ensinam a agir em casos de urgência, enquanto o resgate não vem, são determinantes para salvar vidas”.

O último caso que ela testemunhou foi o do próprio irmão, picado por uma cobra por volta de 9h da manhã. “O resgate para ele só chegou depois das 16h. Se a gente não tivesse sido orientado corretamente sobre como agir em situações como essa, talvez o meu irmão não tivesse sobrevivido.”

Para Fabiana Borari, conselheira do Dsei (Distrito Sanitário Especial Indígena) Guamá-Tocantins, órgão responsável pelo atendimento de saúde de 40 povos indígenas do Pará, o projeto ajuda a dar autonomia às comunidades e mostra que, em locais remotos, a intervenção do socorrista leigo é muitas vezes a única chance de sobrevivência.

“Essa formação é importante em comunidades onde não tem unidades de saúde”, diz Borari. “E a proposta não é substituir o atendimento médico, pelo contrário. A ideia é orientar sobre técnicas básicas em áreas remotas até que a equipe de remoção chegue ao local.”

Procurada, a Secretaria de Saúde Pública do Pará afirmou que realiza ações para o fortalecimento da rede assistencial nas regiões mais remotas do estado.

Autor: Folha

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