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Alcoolismo e bipolaridade: não é fácil conviver – 04/05/2026 – Vida de Alcoólatra

Não há dúvida de que é muito difícil para minha família aguentar alguém como eu. Imagina as infindáveis situações que eles já tiveram que aturar porque sou alcoólatra. E ainda por cima bipolar. Já xinguei, já quis fugir e nunca mais ver a cara de nenhum parente. Por quê? Todos queriam meu bem, queriam que eu parasse de beber, tivesse uma vida mais regrada e fosse mais feliz (e eu, obviamente, como boa alcoólatra, só queria beber).

Me culpo de toda vez que menti para poder beber. Só não conseguia enganar minha irmã; ela sempre sabia que eu estava aprontando alguma para ir beber. Nunca entendi bem essa nossa mágica.

Certa vez, eu estava prestando um serviço pontual numa grande empresa. Só que eu ficava bebendo no bar ao lado do prédio. Minha família soube e me trancou no quarto. Na primeira oportunidade, eu inventei que haviam me chamado para um trabalho e eu precisava ir. “Alice, tenho certeza de que você só quer beber”, minha irmã me disse. Ela estava certa e eu sou grata por não ter queimado ainda mais meu filme no mercado de trabalho.

Mas, infelizmente, “justo a mim me coube ser eu”, como diz a Mafalda, personagem do argentino Quino. Não sei por quê, mas aos sete anos eu já sentia pavor do mundo. Não conseguia desgrudar da minha mãe e não foram poucas as vezes que gritei dizendo que estava morrendo. Na adolescência encontrei o álcool e me agarrei a ele até a última dose, até a última dor. No final do alcoolismo ativo, bebi chorando na minha casa. Eu precisava beber. (Tenho a impressão de que talvez apenas os alcoólatras entendam isso.)

Na fase adulta, me vi sozinha, sem álcool, sem ninguém por perto e sem nenhuma bagagem ou coragem. Recebi uma mensagem de uma mulher no Instagram da @alicealcoolatra: “Por que é tão difícil?”. Não sei responder, mas posso contar minha história e dizer que o difícil dura um bom tempo, mas passa. Na verdade, a gente vai aprendendo a conviver com a dificuldade e a desviar das armadilhas.

Ah, então, hoje eu sou superleve, superzen? Nada disso. É um trabalho árduo. Amigos ajudam, coisas de que gostamos também, meu cachorro nem se fala! Além dos médicos e do terapeuta. É como um exército do beeeem que preciso ter comigo para ir me alertando.

Com 40 e lá vai pedrada, sigo não sendo uma pessoa fácil para a minha pequena área de convívio. Principalmente depois que fui diagnosticada com bipolaridade. Não que receber o diagnóstico tenha me deixado “mais” bipolar, não é isso. Devo ser bipolar desde que nasci. Mas dar um nome à coisa, ao comportamento, pesou na família. Eles foram e são um suporte incrível para mim, mas vez ou outra eu xingo e mando um deles catar coquinho. O que me salva é a sorte de ter o amor incondicional de cada um deles. Apesar do que apronto, ainda me acodem quando demonstro fragilidade.

Bem, a quem me escreve, o que posso dizer é que é preciso eliminar culpa, rancor, raiva, mágoa… Se em algum momento isso for muito complicado para mim, pelo menos vou cuidando das minhas plantas e tentando me alimentar direito, sem perder a fé gigantesca de que tudo vai entrar na linha. Se não entrar de imediato, se eu sentir que perdi uma batalha, pelo menos no cômputo geral sei que estou vencendo a guerra.


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Autor: Folha

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