Quando os dois filhos saíram de casa e o casamento de 32 anos terminou, a psicóloga Thaís Pacheco Maragliano, 51, percebeu que já não sabia responder a uma pergunta simples. “Quem sou eu e o que eu gosto de fazer sem a função da maternidade?” A rotina, antes organizada em torno das necessidades dos filhos, passou a girar apenas em torno dela.
Foi nessa tentativa de reconstruir a própria vida fora do papel diário de mãe que ela voltou a dançar forró, um hobby que havia deixado de lado. A psicóloga, que morava em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, se mudou sozinha para a capital paulista durante o processo de separação. Lá ela faz duas aulas de forró por pelo menos duas vezes por semana, tem planos para retomar a capoeira e planeja viagens em grupo.
O que Thaís vive é realidade para muitas mulheres e tem até um nome: síndrome do ninho vazio. A fase começa quando os filhos saem de casa e a rotina muda completamente. Para muitas mães, é um período de adaptação, redescoberta e reconstrução da própria identidade, e é frequentemente pelos hobbies que essa reconstrução começa.
A psicóloga clínica e especialista em saúde mental feminina Larissa Fonseca explica que o ninho vazio não significa apenas uma casa mais silenciosa, mas uma reorganização profunda da forma como muitas mulheres enxergam a si mesmas.
Durante anos, a maternidade ocupa o centro da rotina, das preocupações e até da identidade. Quando essa função muda, o vazio que fica não se resolve enchendo o tempo, mas voltando a se perguntar o que se quer.
“O objetivo não é preencher cada minuto para não sentir. É olhar para esse tempo e se perguntar: o que eu quero? O que eu gosto? O que é importante para mim?”, diz Fonseca.
Ela diz que esse processo não é simples. A mulher que passa pelo ninho vazio não volta a ser quem era antes dos filhos, nem permanece igual àquela que viveu os anos de cuidado intenso. “Surge uma nova fase, e ela vai ter que se adaptar, como se adaptou a todas as etapas da maternidade”, afirma. Por isso, retomar um hobby antigo, ou descobrir um novo, funciona menos como distração e mais como um gesto simbólico de voltar a existir para si mesma.
No caso de Thaís, o forró cumpre esse papel. Ela conta que foi por meio das aulas que começou a fazer novas amizades em São Paulo, cidade onde chegou sem rede de apoio.
Recentemente, participou de uma viagem em grupo para Paraty, no litoral do Rio de Janeiro, com outras mulheres que não conhecia. A experiência teve um impacto emocional inesperado.
“Percebi a força das mulheres juntas. Quase todas estavam ali tentando reconstruir alguma parte da própria identidade”, diz.
Thaís conta que o casamento não resistiu ao momento em que os filhos saíram de cena. Sem a função diária de mãe, diz ela, se viu invisível dentro do relacionamento. Antes, era mãe acima de tudo, e quando essa função mudou, sentiu que o marido não conseguia enxergá-la como esposa.
Para a psicanalista Silvia Cristina Karacristo, da SBPSP (Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo), isso não é incomum. Segundo ela, a rotina intensa de cuidados muitas vezes encobre conflitos que já existiam no relacionamento. “Quando os filhos saem de casa, o casal é obrigado a se olhar”, afirma.
Em relações saudáveis, esse momento pode significar uma aproximação. Em outras, é quando os problemas se tornam impossíveis de ignorar, aponta a especialista.
Apesar das descobertas, Thaís diz que a mudança ainda é dolorosa. Há dias em que acorda sem saber o que fazer com o silêncio da nova rotina. “É muito difícil. Às vezes eu acordo e penso: quem sou eu? O que eu vou fazer? Como eu vou preencher essa ausência?”
Mesmo assim, percebe que algo está mudando. “Estou procurando coisas que alimentem a minha existência. Quero fazer cursos, viajar, conhecer pessoas, viver experiências. Não quero mais forçar relações. Quero me colocar no mundo.”
Para a supervisora de serviços gerais Lívia Evangelista Bomfim, 50, a saída dos filhos também trouxe uma mistura de saudade e redescoberta. O filho mais velho deixou a casa da família em Salvador há cerca de dez anos. A filha saiu há aproximadamente três anos para morar sozinha, também na cidade, mas em outro bairro.
Foi com a saída dela que Lívia sentiu mais intensamente a mudança na rotina. “Eu tinha aquela obrigação de chegar em casa do trabalho e deixar o almoço dela pronto para o outro dia. Tinha preocupação com comida, roupa, organização. Hoje isso mudou completamente.”
O tempo que antes ia para os filhos passou a ser dela. Apaixonada por praias e ilhas, Lívia começou a viajar quase todos os fins de semana, algo que antes exigia planejamento e sentimento de culpa. “Agora eu posso sair do trabalho e seguir viagem direto. Antes eu precisava passar em casa, deixar tudo organizado para eles.”
O impacto foi além do lazer. “A gente esquece muito da gente quando está focada nos filhos. Hoje eu tenho mais tempo para mim. Minha autoestima melhorou bastante.” Mesmo assim, a liberdade convive com a saudade. “Não tem como não sentir. Tem a liberdade, mas também tem aquela preocupação, aquela saudade.”
A representante comercial Regina Boni, 58, de Bauru, no interior de São Paulo, não esperava a reação que teve quando o filho único saiu de casa neste ano para cursar medicina em Catanduva, também no interior.
Ao contrário do que todos previam, não sentiu tristeza intensa. “As pessoas achavam que eu ia sofrer muito, mas eu fiquei feliz vendo ele conquistar o sonho dele.”
Acostumada a uma rotina rígida e organizada em função do filho, o maior impacto foi uma sensação inesperada de leveza. “Eu sempre fui muito regrada. Tinha horário para tudo, café da manhã, almoço, jantar. Quando isso acabou, eu relaxei.”
Dorme mais tarde, faz caminhadas e alongamentos. Também voltou a dançar, em aulas de dança de salão, algo que não fazia havia anos. Continua entendendo como quer ocupar essa nova fase, mas percebe que existe uma redescoberta silenciosa acontecendo. “Talvez agora eu consiga fazer coisas que gosto só porque eu gosto, não porque sobra tempo. E quero começar a fazer dança do ventre”
Mesmo sem sentir o sofrimento que imaginava, chegou a questionar se era normal estar tão bem. “Eu brinquei com ele e falei: ‘espero que você não fique magoado, mas eu estou bem’. E ele respondeu que ficava feliz de me ver feliz também.”
Para a psicóloga Larissa Fonseca, não existe uma forma certa de viver o ninho vazio. Algumas mães sentem tristeza intensa, outras experimentam alívio, liberdade ou até entusiasmo.
Esse sentimento ambíguo, diz ela, costuma vir acompanhado de culpa, especialmente para mulheres criadas para associar boa maternidade à renúncia constante.
Professora de Psicologia do Ceub (Centro Universitário de Brasília), Ludymila Santana diz que mulheres com vínculos sociais ativos, projetos pessoais e hobbies têm atravessado essa fase de forma mais saudável, o que sugere que cultivar interesses próprios ao longo da vida, e não apenas depois que os filhos vão embora, pode fazer diferença.
Autor: Folha








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