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FDA aprova dispositivo elétrico contra depressão – 24/05/2026 – Equilíbrio

Nas três semanas desde o parto, Davies estava em uma espiral descendente. Ela se internou na unidade de mãe e bebê do hospital em East Anglia, na Inglaterra, onde os médicos aumentaram a dose de Prozac que ela tomava para controlar seu transtorno obsessivo-compulsivo.

Mas toda manhã ela acordava em lágrimas, e toda vez que olhava para seu filho, sentia um vazio de culpa. “Nunca vou conseguir ser mãe”, ela lembra ter pensado, “ou se conseguir, não vou ser uma boa mãe”.

Um mês depois, uma funcionária do hospital sugeriu que ela experimentasse um dispositivo que usava corrente elétrica para tratar depressão. A palavra “elétrica” fez Davies, então com 34 anos, hesitar. Parecia eletroconvulsoterapia, ou ECT, o tratamento de nome assustador que provoca convulsões e pode resultar em perda de memória.

Essa terapia era diferente. A estimulação transcraniana por corrente contínua, ou ETCC, usa uma corrente elétrica fraca para estimular o cérebro e não produz convulsões.

Isso está tão longe da ECT quanto um motor a jato está da minha bicicleta”, diz Mark George, da Universidade Médica da Carolina do Sul, onde é um dos principais especialistas em neuromodulação, termo que engloba todas as terapias que usam eletricidade para modificar a função cerebral.

Davies fez uma pesquisa na internet e confirmou que os efeitos colaterais da ETCC —zumbido nos ouvidos, dores de cabeça e queimaduras leves ou irritação onde os eletrodos tocavam a testa— eram geralmente transitórios e não incluíam amnésia. Ela decidiu tentar.

Na Inglaterra, o dispositivo de estimulação cerebral foi aprovado para tratar depressão desde 2019. Pode ser prescrito por um médico ou comprado sem receita, onde é vendido por cerca de US$ 530 (R$ 2.600).

Em dezembro, a FDA, órgão regulador americano, aprovou o mesmo dispositivo, fabricado pela empresa sueca Flow Neuroscience, como tratamento para depressão nos Estados Unidos. Daniel Månsson, diretor científico e fundador da Flow, disse que a empresa ainda estava definindo os preços.

A aprovação da FDA foi um marco para uma tecnologia que existe há 25 anos, mas tem lutado para se provar. “Isso legitima a terapia em si como um tratamento médico, e não apenas algo vendido online para bem-estar ou aprimoramento”, diz Anna Wexler, professora assistente de ética médica na Universidade da Pensilvânia, que estudou a estimulação cerebral caseira.

Também faz parte de um movimento maior para expandir o arsenal de ferramentas da psiquiatria além dos inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRSs), que se tornaram o tratamento padrão de saúde mental para depressão desde que foram introduzidos no final dos anos 1980. Hoje, cerca de 1 em cada 6 americanos toma um ISRS.

“Estamos apenas arranhando a superfície do que será possível”, diz Sarah Holly Lisanby, que é reitora da Escola de Medicina e Engenharia Médica John Shufeldt da Universidade Estadual do Arizona e desenvolveu várias técnicas de neuromodulação para condições psiquiátricas. “É uma forma totalmente nova de intervenção.”

Estimulando neurônios em casa

A ideia básica por trás da neuromodulação é que a depressão é, em parte, uma doença de conectividade neural prejudicada. Acredita-se que estimular o cérebro eletricamente reduz o limiar para os neurônios dispararem sinais, ajudando o cérebro deprimido a funcionar melhor de modo geral.

A ECT, a primeira terapia elétrica, fez mais do que estimular neurônios. Ela fazia os neurônios dispararem em massa, frequentemente traumatizando pacientes e fragmentando suas memórias quando foi introduzida em 1938 (veja o filme de 1975 “Um Estranho no Ninho”). Desde então, os médicos refinaram a tecnologia, que hoje é considerada o padrão-ouro para depressão grave e intratável.

Mais recentemente, uma forma de neuromodulação chamada estimulação magnética transcraniana, ou EMT, tem ganhado espaço. A EMT, que usa pulsos magnéticos para estimular circuitos cerebrais, provou ser segura e eficaz para a maioria das formas de depressão, e agora está aprovada para tratar enxaquecas, transtorno obsessivo-compulsivo e para ajudar a parar de fumar.

Mas criar um campo magnético requer uma máquina cara e volumosa, tornando necessário que os pacientes compareçam a uma clínica várias vezes por semana. Como o design da ETCC é mais simples que o da EMT —essencialmente uma bateria de 9 volts conectada à cabeça— ela há muito tempo promete um tratamento portátil e domiciliar.

Mas após anos e dezenas de ensaios clínicos, os resultados de muitos estudos de ETCC não foram convincentes. “Há alguns positivos, mas não foram esmagadores, não foram um sucesso absoluto”, disse George. Em 2024, uma pesquisa de Andre Brunoni, professor de psiquiatria no Centro Médico Southwestern da Universidade do Texas, que foi membro remunerado do conselho consultivo da Flow até o ano passado, mostrou que o uso domiciliar do dispositivo Flow não era mais eficaz em aliviar a depressão do que um placebo bem conhecido: navegar na internet.

Mais potencial do que provas

O ensaio que levou à aprovação da FDA do dispositivo Flow —chamado estudo Empower— também não foi um sucesso absoluto. Após receberem um dispositivo Flow pelo correio, 174 participantes do estudo com depressão moderada a grave foram supervisionados remotamente enquanto se autoaplicavam estímulos leves cinco dias por semana.

O resultado primário foi uma melhora “menor” na escala de depressão de Hamilton para os participantes que receberam o tratamento ativo, diz Rodrigo Machado-Vieira, autor do estudo e professor de psiquiatria na UT Health, Houston. Além disso, a FDA citou “um nível moderado de incerteza sobre o benefício”, porque muitos participantes conseguiam identificar se estavam recebendo o tratamento real ou um placebo.

Os achados secundários do estudo foram mais promissores. Ao final do ensaio, 58% dos participantes que receberam o tratamento mostraram alguma resposta, comparados com 38% no grupo controle. Quarenta e cinco por cento experimentaram remissão completa, comparados com 22% no grupo controle.

A FDA não aprovou o dispositivo para o terço dos americanos deprimidos que já tentaram múltiplas intervenções consideradas inadequadas ou ineficazes. Em vez disso, a agência aprovou a ETCC como tratamento de primeira linha para depressão, para ser usado sozinho ou em combinação com outro tratamento, como um antidepressivo.

No entanto, essa aprovação pode abrir as comportas para novos dispositivos e estudos mais focados sobre a eficácia da técnica. Pesquisadores agora estão trabalhando para aprimorar a ETCC aumentando a voltagem, combinando a estimulação cerebral com outros tratamentos ou mapeando a anatomia cerebral individual de uma pessoa para personalizar a tecnologia.

“É o fim de um começo”, diz Brunoni, que passou 15 anos investigando o tratamento para várias condições de saúde mental. “Mas não acho que esteja totalmente desenvolvido ainda.”

Pensando além da caixa de remédios

Parte do atrativo da estimulação cerebral em casa é que ela aproxima as terapias elétricas de serem tão acessíveis e difundidas quanto medicamentos como o Prozac, disse George.

“Nossos cérebros são tão farmaceuticamente inclinados”, ele diz. “Isso se encaixa no modelo dos comprimidos.”

Ao mesmo tempo, a ETCC também poderia desafiar o paradigma atual centrado em medicamentos, ao empurrar os psiquiatras a ir além das velhas noções de deficiências de serotonina e desequilíbrios químicos, e a pensar de forma mais ampla sobre como desbloquear o cérebro. Os dois tratamentos juntos, sugerem pesquisas, podem trabalhar em conjunto para empurrar o cérebro em direção a um estado mais plástico e ativado, ajudando as pessoas a superar padrões antigos.

Davies começou a ETCC algumas semanas após aumentar sua dose de Prozac. Quando colocou o dispositivo pela primeira vez por 30 minutos, o intervalo recomendado, ela lembrou ter sentido apenas um leve formigamento —uma “sensação picante”, semelhante a ter o cabelo descolorido, como descreveu um participante de um ensaio clínico.

Mas em poucos dias, algo mudou para Davies. Ela se sentiu mais lúcida, afirma. A voz dura em sua cabeça se aquietou. Era como se o mundo estivesse em cores novamente.

Ela diz que não poderia afirmar com certeza o que fez a diferença —a ETCC, os efeitos tardios do antidepressivo, a passagem do tempo ou alguma combinação— mas “o que quer que tenha sido me ajudou a pensar: ‘Na verdade, talvez eu consiga fazer isso'”, diz. Pela primeira vez, ela ficou animada para dar banho em seu bebê.

Autor: Folha

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