O banner dentro da farmácia em Ciudad del Este, no lado paraguaio da fronteira com o Brasil, já deixa claro como funciona o comércio. Basta comprar uma caneta emagrecedora e marcar o estabelecimento nas redes sociais para ganhar um brinde. Em outro lugar, na compra de três unidades de 15 mg do mesmo medicamento, o cliente ganha uma unidade do remédio em sua versão de entrada, de 2,5 mg.
Ciudad del Este, com cerca de 300 mil habitantes, é o segundo município mais populoso do Paraguai, atrás apenas da capital, Assunção, e funciona como um grande centro de distribuição de produtos para atender principalmente o mercado brasileiro.
Foi o que a reportagem constatou nas farmácias paraguaias em que esteve. Em todas, o movimento em busca de medicamentos emagrecedores era de compradores brasileiros. O Paraguai tem cerca de 7 milhões de habitantes, pouco mais de 3% da população do Brasil.
Proibidas de serem comercializadas no Brasil, canetas emagrecedoras à base de tirzepatida —princípio ativo do Mounjaro— vendidas no Paraguai se espalharam pelo país. Os motivos são os preços baixos, a facilidade de compra no país vizinho e a fiscalização deficiente na principal porta de entrada de produtos contrabandeados.
Entidades médicas apontam riscos à saúde com o uso de medicamentos que não têm aval da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Até mesmo a ainda experimental retatrutida tem sido alvo de crescentes apreensões, assim como peptídeos, e acenderam um sinal vermelho nos órgãos de repressão, que admitem não conseguir fiscalizar a maior parte dos pedestres e veículos que entram no país.
Há duas apresentações do medicamento no Paraguai: em canetas e em ampolas, que ocupam menos espaço e por isso têm a preferência de pequenos e grandes contrabandistas para ingresso no Brasil.
“Não tem [só] aquilo que as pessoas entendem, as canetas emagrecedoras. Aqui faz tempo que isso mudou, são ampolas. É uma caixinha muito pequena com quatro ampolas”, disse Cláudio Roberto Caetano Marques, auditor fiscal da Receita em Foz do Iguaçu. “E agora está vindo a retatrutida, que vai ser outro boom.”
As apreensões em Foz do Iguaçu dão uma dimensão do problema: enquanto no ano passado foram apreendidas 7.479 unidades entre maio —quando iniciou o veto ao ingresso no país— e dezembro, neste ano já foram 71.860 unidades apreendidas, 860,8% mais, segundo a Receita.
De acordo com Marques, o efetivo de fiscalização é insuficiente para cobrir a extensão da fronteira. Ele também diz que a população precisa ter consciência dos riscos de usar esses produtos.
As canetas emagrecedoras são medicamentos agonistas de GLP-1, hormônio produzido naturalmente pelo corpo humano que atua no controle dos níveis de glicose no sangue e nos mecanismos de saciedade.
Medicamentos de pelo menos seis marcas paraguaias de tirzepatida com registro na Dinavisa (Direção Nacional de Vigilância Sanitária), a agência reguladora do país vizinho, são ofertados de forma ostensiva nas farmácias de Ciudad del Este visitadas pela Folha, com preços muito inferiores aos praticados no Brasil e com forte incentivo à compra da dosagem máxima, de 15 mg.
A maioria é vendida em ampolas, e alguns estabelecimentos ensinam em cartazes como fracionar corretamente a medicação.
Adquirido no Brasil, o Mounjaro na dosagem de 15 mg custa R$ 3.499 no ecommerce, com desconto da farmacêutica, enquanto os preços das versões paraguaias de tirzepatida variam de R$ 430 a R$ 438. Já a dosagem de 10 mg é vendida por valores entre R$ 408 e R$ 415, ante os R$ 2.699 do Mounjaro no mercado nacional.
Ao contrário do que ocorre no Brasil, que exige a retenção da receita médica, no Paraguai a venda é livre e há promoções que dão emagrecedores como brinde.
Em um dos comércios, o preço em dólar é de US$ 86 (cerca de R$ 430), mas se o cliente comprar três unidades o valor unitário cai para US$ 84 (R$ 420). Há relatos também de venda do remédio com versão em pó, para diluição.
Em todos os estabelecimentos os funcionários alertam os interessados de que a entrada dos medicamentos no Brasil é ilegal e chegam a dar dicas de onde os produtos podem ser escondido no corpo —bolsos de calças ou casacos, dentro de peças íntimas e nos calçados, por exemplo.
“Há vários problemas, como o fato de não terem liberação da Anvisa. Há um desconhecimento do que se tem ali. O segundo problema é que entra no rol dos produtos muito lucrativos [para o contrabando], e também tem a questão sanitária, já que as canetas precisam de refrigeração e são transportadas em pneus, fundos falsos, ou até mesmo no corpo, que tem temperatura muito acima do indicado para esse tipo de medicamento”, disse Luciano Stremel Barros, presidente do Idesf (Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras), sediado em Foz.
A retatrutida, que pode se tornar o principal foco do contrabando nos próximos meses, não é encontrada livremente nas farmácias, mas aparece cada vez mais nas apreensões na Ponte da Amizade e na BR-277, que liga Foz a Curitiba.
Outras questões também preocupam o mercado interno paraguaio. Na última semana, a Dinavisa emitiu um alerta para a população sobre a venda não autorizada, pela internet e em redes sociais, de quatro marcas (Veltrane, Thera, Tirzegen e Tirzepatide Injection) que alegam conter tirzepatida, mas sem respaldo científico e controle de qualidade no país.
Por meio de quatro resoluções, a Anvisa proíbe a venda, distribuição, fabricação, importação e o uso das tirzepatidas não registradas no Brasil, bem como da retatrutida, além de determinar a apreensão dos produtos.
Fabricante do Mounjaro, a Eli Lilly afirmou que produtos que dizem conter tirzepatida e que não são fabricados por ela não são Mounjaro, tampouco equivalentes a ele, e também não podem ser considerados medicamentos genéricos.
“Pela legislação brasileira, os genéricos devem demonstrar bioequivalência ao produto de referência e obter aprovação formal da Anvisa —nenhum dos dois requisitos foi atendido por qualquer tirzepatida do Paraguai— e classificá-los como ‘genéricos’ é enganoso e perigoso”, afirmou a farmacêutica.
A Lilly disse ainda que esses produtos não foram avaliados nem aprovados pela Anvisa e também não passaram pelos estudos clínicos e controles exigidos pela legislação brasileira para comprovação de eficácia e segurança. “Sua comercialização no Brasil é ilegal e seu uso pode representar um sério risco à saúde dos pacientes.”
Autor: Folha








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