
Quando o filósofo e escritor Martim Vasques da Cunha publicou no X que “o pior Dostoiévski é melhor do que toda a literatura brasileira”, a reação foi imediata. Em poucas horas, a frase acumulou milhares de interações e arrastou para a arena nomes como Goethe, Guimarães Rosa e Machado de Assis. A provocação cumpriu seu papel: forçou uma conversa sobre literatura que não estava acontecendo. O problema não é a frase em si, mas o formato em que ela circulou. A lógica do X premia a tomada de posição rápida, não a reflexão. O que se tenta aqui é levar o debate adiante com mais calma, a partir de um par específico: Dostoiévski e Machado de Assis.
A escolha de Machado de Assis como contraponto a Dostoiévski não é arbitrária. Os dois são, cada um à sua maneira, exploradores das profundezas humanas. Otto Maria Carpeaux (1900-1978), o crítico austríaco naturalizado brasileiro que conhecia ambas as tradições de dentro, descreveu a psicologia de Machado como “a de La Rochefoucauld”: desconfiança extrema dos motivos humanos, ceticismo niilista, visão negra do mundo. Sobre Dostoiévski, falou em “paisagens da alma” e “psicologia requintada.”
Harold Bloom (1930-2019), em Genius: A Mosaic of One Hundred Exemplary Creative Minds, chamou Machado de “gênio da ironia” e Dostoiévski de gênio da “dramatização de caráter e personalidade.” Ambos escavam o ser humano por dentro, mas por caminhos opostos. Machado opera com bisturi irônico, urbanidade reservada e a frieza de quem disseca a mortalidade sem perder a compostura. Dostoiévski opera por convulsão. Seus personagens gritam, confessam, se contradizem, arrastam o leitor até o abismo.
Poucos entendem essa diferença tão bem quanto Oleg Almeida. Nascido na Bielorrússia em 1971 e radicado no Brasil desde 2005, Almeida é tradutor, poeta e ensaísta responsável por verter diretamente do russo para o português autores como Dostoiévski, Tolstói, Púchkin e Tchékhov, em edições publicadas por editoras como a Martin Claret e a Lume. Em um ensaio sobre o ofício da tradução, ele descreveu a tentação de reescrever o russo “naquele bonito e correto português de Machado de Assis que nós todos apreciamos tanto.” O problema, segundo ele, é que ao fazer isso “a aspereza inimitável de seu estilo truncado, caótico, enervado e enervante haveria de desaparecer na versão portuguesa.” São dois registros que não se convertem um no outro. Para Almeida, em entrevista à Gazeta do Povo, como representantes da vertente realista, os dois “são parecidos em vários sentidos”, da ironia à dimensão fantástica de suas obras. “Pessoalmente, não percebo nenhum quesito estético ou técnico no qual um deles seja pior do que o outro.”
Há, porém, uma distinção que ele faz sem rodeios: “Como estilista da língua portuguesa, Machado é bem melhor do que Dostoiévski em sua qualidade de estilista russo.” Os textos originais do russo, segundo Almeida, “são muito chatos de ler, às vezes intragáveis”, razão pela qual costumam ser traduzidos de modo adaptativo mundo afora, “com o propósito de não afugentar o público inexperiente.” O Dostoiévski que o leitor ocidental conhece, em suma, já chegou filtrado.
O que Carpeaux e Bloom não fizeram
É revelador que os dois críticos que mais poderiam ter autorizado uma comparação direta simplesmente não a fizeram.
Carpeaux chamou Machado de “o maior escritor da literatura brasileira” e Dostoiévski de “se não o maior, decerto o mais poderoso escritor do século XIX.” Mas fez isso em ensaios separados, com critérios distintos, sem jamais colocá-los em uma balança. Mais do que isso, dedicou páginas a situar cada autor no seu contexto civilizacional. Machado é “um grande escritor vitoriano” que emerge de um “Rio de Janeiro semicolonial”; Dostoiévski é um escritor político apaixonado cuja obra se insere no debate entre “ocidentais” e “eslavófilos.” Compará-los exigiria comparar os mundos inteiros que os produziram, algo que um post no X não comporta.
Bloom foi além. Em Genius: A Mosaic of One Hundred Exemplary Creative Minds, organizou seus 100 gênios segundo as Sefirot da Cabala, a tradição mística do judaísmo que descreve dez atributos pelos quais Deus se manifesta no mundo. Cada atributo nomeia um grupo de cinco autores. Dostoiévski aparece em Malkhut, o Reino, ao lado de Dickens, Babel, Celan e Ellison, chamados de “romancistas visionários do grotesco.” Machado aparece em Yesod, o Fundamento, ao lado de Flaubert, Eça de Queiroz, Borges e Calvino, os “mestres da narrativa erótica” no sentido amplo de desejo e jogo formal. São categorias que operam em registros tão diferentes que a pergunta “quem é melhor?” não encontra resposta possível.
Oleg Almeida tem uma formulação mais direta: “Comparar Dostoiévski e Machado de Assis daria, mais ou menos, no mesmo que comparar uma bétula com um coqueiro.”
A assimetria que ninguém menciona
Há, porém, uma distinção que precisa ser feita com honestidade. Dostoiévski é incomparavelmente mais publicado, traduzido e estudado do que Machado no cenário global. E isso não é uma questão de mérito. É uma questão de infraestrutura.
Carpeaux registrou que, em 1870, apareceram as primeiras traduções de Raskólnikov na Europa. De lá em diante, Dostoiévski alimentou o existencialismo francês, a filosofia alemã (Nietzsche o chamou de “um dos maiores psicólogos”), o cinema de autor de Kurosawa e Bergman, o teatro de Stanislavski e Peter Brook. Existe uma Sociedade Dostoiévski no Japão desde 1969. Um volume especial de 2025 da revista acadêmica Studies in East European Thought reuniu pesquisadores de mais de doze países, da Rússia à Turquia, passando por China, Austrália e Quirguistão. Sua editora conclui que os estudos dostoievskianos formam “uma disciplina” que oferece “ao mundo diverso e dividido de hoje uma plataforma estética na qual se unir.”
Machado, por sua vez, só começou a ser traduzido para o inglês nos anos 1950. Em uma entrevista à Folha de S.Paulo, Bloom confessou que só havia lido Brás Cubas no original tardiamente e que ficara “absolutamente em choque.” Um estudo de Bethany Beyer publicado em uma publicação da Universidade de São Paulo, em 2019, mostra que a entrada de Machado no cânone mundial foi filtrada por gênero: o mundo absorveu apenas seus romances. Teatro, poesia, crônicas ficaram de fora.
Almeida conhece esse abismo de perto. Ele conta que tentou, mais de uma vez, traduzir e publicar um romance de Machado no espaço russófono. O resultado foi frustrante: “Nenhum daqueles editores profissionais com quem cheguei a discutir o assunto fazia a menor ideia de quem era Machado nem da própria existência de algum escritor de peso, salvo Jorge Amado e Paulo Coelho, no Brasil.” O tradutor acabou desistindo do projeto. Mas sua convicção permanece intacta: “Se Machado tivesse o mesmo apoio acadêmico e, sobretudo, midiático que Dostoiévski, estaria no mesmo nível do seu colega russo, aqui e na China.”
A diferença entre fama e grandeza, nesse caso, pode ser apenas uma questão de tradução e circunstância.
O lugar do ranking
É possível que o tipo de comparação que viralizou no X tenha pouco a ver com o trabalho que críticos como Carpeaux e Bloom fizeram ao longo de suas carreiras. O primeiro não hierarquizou Machado e Dostoiévski. Bloom tampouco.
Nenhum deles precisou rebaixar uma tradição para exaltar outra. Julgamentos de valor existem na crítica literária e são necessários. Mas costumam operar dentro de tradições, não entre elas como se fossem times de futebol. Dizer que Dostoiévski é um gênio não exige dizer que Machado não é. Ambos estão na lista de Bloom. Ambos foram reconhecidos por Carpeaux.
Almeida, aliás, lembra que o próprio Dostoiévski não é unanimidade nem em casa. “Já encontrei em Moscou, na década de 1990, certas pessoas do meio literário que chamavam Dostoiévski de ‘pálida sombra do grande Paulo Coelho'”, conta. “O que me leva a crer que na casa de ferreiro, o espeto é de pau mesmo, tanto no Brasil como na Rússia.”
O que o debate revela sobre nós
O debate no X diz menos sobre Dostoiévski e Machado do que sobre o estado da conversa literária no Brasil. A provocação de Cunha tocou num nervo real: existe uma insatisfação com o rumo da literatura brasileira contemporânea, que vive uma crise identitária. Mas a resposta a essa insatisfação talvez não passe por medir autores nacionais contra gigantes estrangeiros, e sim por ler ambos com mais atenção.
A resposta, para Almeida, é mais simples do que parece: “Dostoiévski já tem seu lugar de honra na história das letras universais, e Machado de Assis está esperando, humilde e pacientemente, pelo dele. O Brasil deveria divulgar seus melhores artistas lá fora em vez de compará-los aos astros estrangeiros.”
Em outra ocasião, o tradutor deu um conselho aos leitores brasileiros que talvez seja o melhor fecho para a discussão: “Leiam Balzac, Dostoiévski, Machado de Assis e outros autores sérios. Nem que essa leitura pareça chata e cansativa, não lhes ensinará nada que seja prejudicial. E não confiem demais naquelas informações negativas, ambíguas ou sensacionais que circulam pelo espaço virtual: só lendo e refletindo é que terão uma opinião consciente e independente.”
Autor: Gazeta do Povo








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