
Há uma tristeza específica que não vem da surpresa. Vem do reconhecimento. É a tristeza de quem olha para o Brasil e percebe que o que vê não é uma crise passageira, não é um tropeço de gestão, não é o resultado de uma conjuntura desfavorável. É um padrão. E padrões não mentem.
O Brasil de hoje acumula escândalos como quem acumula dívidas – com a naturalidade de quem já não espera outra coisa. A corrupção deixou de ser notícia e tornou-se paisagem. O que deveria causar indignação coletiva passou a ser consumido como entretenimento, comentado e esquecido no mesmo ciclo de vinte e quatro horas.
E, quando o cidadão, cansado, decide buscar a correção do erro – quando decide que existe um lugar onde a lei vale, onde a constituição respira, onde a justiça ainda tem algum significado –, encontra lá também o mesmo vício, a mesma sede, o mesmo jogo. O lugar onde se busca a cura carrega a mesma doença. Essa é a armadilha mais sofisticada que se pode construir dentro de uma república. Não é a corrupção em si que paralisa uma nação. É a corrupção do remédio.
O brasileiro não perdeu a capacidade de indignação. Perdeu a coragem de expressá-la. E há uma diferença crucial entre esses dois estados – porque o primeiro é da ordem do sentimento, e o segundo é da ordem da escolha. Quando uma sociedade começa a engolir sua própria voz por medo do que pode acontecer a quem fala, algo mais grave do que a injustiça está em curso. Está em curso a domesticação.
Não se pode julgar com dureza quem se cala. Quem observa o destino de quem se levantou – processado, perseguido, preso por narrativas construídas com a precisão de quem sabe exatamente o que está fazendo – aprende rapidamente que o silêncio é uma estratégia de sobrevivência. O problema é que sociedades que sobrevivem caladas não vivem. Vegetam. E a pergunta que fica suspensa no ar, sem resposta confortável, é esta: se cada um protege apenas a si mesmo e à sua família, quem protege o país?
O cidadão comum – aquele que acorda antes do sol, que paga o que deve, que tenta criar filhos com algum sentido de decência – esse cidadão não se sente representado. Sabe disso. Sente isso no bolso, na fila do mercado, na conta de luz, no preço do gás. Mas há, entre ele e a admissão plena dessa verdade, uma camada de resistência psicológica compreensível.
A única bússola que não falha é a mais simples e a mais difícil: faça o melhor que você pode fazer. Não em palavras. Em ações cujos resultados possam ser vistos, tocados, medidos
Acreditar que está abandonado pelo Estado, pela justiça, pela política e pela mídia ao mesmo tempo exige uma coragem que nem sempre se tem energia para sustentar. É mais fácil encontrar um argumento para continuar acreditando. Mesmo que esse argumento não resista a uma tarde de contas a pagar.
Empresas partem. Trabalhadores partem. O capital vai onde é tratado com respeito, e o talento vai onde pode crescer. Quando uma nação começa a exportar não apenas produtos, mas pessoas – sua própria gente em busca de ar –, o diagnóstico já está feito. Falta apenas a coragem de lê-lo em voz alta.
Há décadas o Brasil repete um padrão que só pode ser compreendido se abandonarmos a hipótese da incompetência. Incompetência é aleatória. Incompetência erra para todos os lados, tropeça sem direção, produz resultados imprevisíveis. O que se observa no Brasil não tem nada de aleatório.
Os mesmos setores são sistematicamente enfraquecidos. As mesmas vozes são sistematicamente silenciadas. As mesmas estruturas são sistematicamente aparelhadas. Quando um erro se repete com essa consistência, por esse tempo, através de tantas gestões e circunstâncias diferentes, ele deixa de ser erro. Torna-se método.
As universidades públicas – que deveriam ser o lugar onde o pensamento se expande, onde o jovem aprende a questionar inclusive aquilo que lhe é ensinado, onde convivem ideias contraditórias porque é dessa contradição que nasce o entendimento real – tornaram-se, em larga medida, espaços de confirmação.
Confirma-se o que já se acredita. Pune-se o que diverge. E o jovem que deveria sair da universidade mais livre sai, muitas vezes, apenas mais bem treinado para repetir. Não há registro histórico de um país que tenha prosperado transformando suas instituições de pensamento em instrumentos de doutrina. Nenhum. A história é unânime nesse ponto, e a unanimidade da história raramente mente.
Não espere que o país melhore para começar. Comece, e observe o que acontece ao seu redor quando alguém decide parar de esperar
O período em que o Brasil ensaiou uma direção diferente ficará marcado pelo que revelou mais do que pelo que realizou. Revelou que era possível equilibrar contas sem destruir serviços. Que gestão técnica produz resultados que gestão ideológica não produz. Que havia um Brasil que não se reconhecia no espelho que lhe apresentavam há décadas – e que estava disposto a ir às ruas dizer isso.
Chegou ao poder num país aparelhado com paciência de décadas. Governar contra essa estrutura, a partir de dentro dela, tem um custo alto. Houve avanços reais, erros de comunicação, disputas internas, traições de propósito. Tudo compreensível para quem entende que estava sendo tentado, pela primeira vez de verdade, algo que o Brasil nunca havia tido.
O que veio depois confirmou, por contraste, o que havia sido construído. Em poucos meses, o que levou anos para ser erguido começou a ceder. E hoje até quem nunca admitiu erros de avaliação começa, em silêncio ou em voz alta, a se distanciar do que não consegue mais defender. O Brasil virou tema de conversas constrangidas lá fora. Isso também diz alguma coisa.
Existe uma pergunta que as instituições brasileiras não conseguem responder sem se contradizer. Se a função de quem guarda a lei é garantir que ela valha para todos – e apenas para todos –, como explicar que ela pareça valer mais para alguns do que para outros? Como explicar que o peso da constituição seja distribuído de forma tão irregular, tão previsível, tão conveniente?
A imparcialidade absoluta pode ser, de fato, uma utopia. Somos humanos, e humanos carregam perspectivas. Mas existe uma diferença entre a imperfeição inevitável de quem tenta ser justo e a distorção deliberada de quem usa a aparência da justiça para fins que a justiça não reconheceria. A primeira é uma limitação. A segunda é uma escolha. E escolhas têm consequências morais que nenhum cargo, nenhum título e nenhuma toga conseguem apagar.
O que se instalou em partes do aparato institucional brasileiro não é a humildade de quem sabe que pode errar. É a certeza de quem acredita que não pode ser questionado. Vaidade. Arrogância. A sensação de que se está acima do jogo que todos os outros são obrigados a jogar. Poder – essa palavra que, quando entra pela porta de uma instituição sem os freios certos, expulsa pela janela tudo aquilo que tornava essa instituição necessária.
VEJA TAMBÉM:
- Como o Brasil chegou onde está e o que fazer para dar a volta por cima
O cidadão simples percebe isso. Não precisa de análise técnica. Percebe pelo bolso, pela sensação de que algo está errado sem conseguir nomear exatamente o quê, pela desconfiança crescente de que os tapetes existem para esconder o que as câmeras não filmam. Há uma moral que atravessa o moralismo – uma ética que não precisa ser proclamada para ser reconhecida. E, quando ela falta, sua ausência tem cheiro.
Essa intocabilidade não nasceu hoje. Está presente em toda a história de quem concentra poder sem accountability real. O que muda não é a natureza humana – essa permanece constante, com suas tentações e suas fraquezas. O que muda é o tamanho do espaço que se abre para que essas fraquezas operem livremente.
A deterioração começa sempre pelo que parece pequeno. Uma exceção aqui. Uma concessão ali. Uma regra que se dobra uma única vez porque as circunstâncias, dizem, são excepcionais. Como um organismo que encontra uma brecha numa célula e começa a se multiplicar silenciosamente, o desvio que não é corrigido no início deixa de ser desvio. Torna-se norma.
E, quando se abrem os olhos e se percebe o que foi permitido enquanto se olhava para outro lado, já não é mais possível desfazê-lo com facilidade. Quem entrega o jogo antes de terminá-lo raramente tem a chance de pedir de volta as peças. E, no entanto, o Brasil não está morto.
Existe uma geração que cresceu vendo o que não quer ser. Que aprendeu, pela observação do erro alheio, o que uma vida com propósito significa. São jovens que trabalham, que estudam, que empreendem sem esperar permissão, que não pedem ao Estado o que podem construir com as próprias mãos. Não são ingênuos. Sabem o tamanho do problema. Mas sabem também que o tamanho do problema não os desobriga de fazer a parte que lhes compete.
É neles que reside o contraponto real a tudo que foi descrito aqui. Não numa eleição. Não num salvador. Não numa promessa de palanque. Num modo de viver que recusa a resignação sem cair na ilusão. O Brasil não é o país do futuro. Nunca foi, e essa frase durou tempo demais como desculpa para o presente. O Brasil é o país de agora – com tudo que isso exige e tudo que isso significa.
A única bússola que não falha nesse cenário é a mais simples e a mais difícil: faça o melhor que você pode fazer. Não em palavras. Em ações cujos resultados possam ser vistos, tocados, medidos. Não confie em discursos – confie no que você pode verificar com seus próprios olhos. Não espere que o país melhore para começar. Comece, e observe o que acontece ao seu redor quando alguém decide parar de esperar.
Países não mudam por decreto. Mudam quando pessoas suficientes decidem, uma a uma, que a parte que lhes compete não pode ficar por fazer. Essa é a escolha que ainda está disponível. Por enquanto.
Iares Ibero Sombra é mestre em Educação e jornalista.
Autor: Gazeta do Povo








.gif)












