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IA amplia endividamento de jovens no Brasil – 01/06/2026 – Tec

O estudante de farmácia Christyan Pereira, 23, deve mais de R$ 4.000 e está impedido de buscar novos empréstimos no sistema financeiro. Aos 18 anos, recebeu limites de crédito quase cinco vezes maiores que a renda mensal que conseguia trabalhando como jovem aprendiz em Florianópolis.

Ferramentas de inteligência artificial contribuem para esse quadro, segundo especialistas. Ao mesmo tempo em que facilitam o acesso a serviços financeiros digitais, as novas tecnologias ampliam o risco de endividamento.

Uma pesquisa realizada pela consultoria PwC com 44 instituições financeiras digitais no ano passado mostrou que o uso da IA cresceu com a expansão de crédito no Brasil: 67% das fintechs usam recursos de inteligência artificial em processos de automação e operações internas, enquanto 52% buscam o desenvolvimento de novos produtos com ela.

Dados do Banco Central (BC) apontam dívidas com bancos e cartões de crédito como os principais motivos pelos quais as pessoas deixam de pagar as contas. O número de jovens entre 18 e 29 anos com acesso a crédito dobrou em oito anos, passando de 13,7 milhões para 27,6 milhões de pessoas.

Como Christyan, há 9,3 milhões de brasileiros endividados e com o nome negativado na Serasa na faixa etária de 18 a 25 anos, em que se encontra a chamada geração Z. Em abril, 83,3 milhões de brasileiros estavam nessa situação.

As taxas de inadimplência entre os jovens são superiores às de outras faixas etárias, de acordo com o Relatório de Cidadania Financeira de 2025, publicado pelo BC. No entanto, o grupo é o que mais busca a plataforma de negociação da Serasa para pagar dívidas.

Dados da Kantar TNS, empresa que monitora hábitos de consumo digital, mostram que a geração Z é também a mais exposta às redes sociais, onde a automação rastreia movimentos para oferecer produtos. “O celular fez o ambiente digital virar o principal canal de exposição ao crédito. A oferta vai bater à sua porta de qualquer jeito”, diz Maria Paula Bertran, professora de direito econômico da USP (Universidade de São Paulo).

Segundo a professora, os sistemas de IA exploram “pontos frágeis” dos usuários, aproveitando momentos em que enfrentam dificuldades financeiras para oferecer crédito por meio de publicidade direcionada.

Foi nesse ambiente que Christyan Pereira se endividou. Ao começar a vida financeira, o catarinense abriu uma conta-salário no banco Santander. Ele ganhava R$ 560 por mês e logo conseguiu limites de R$ 2.000 no cartão de crédito e R$ 500 no cheque especial.

O estudante diz que não entendia o funcionamento das linhas de crédito e as taxas de juros cobradas. “Usava o limite para pagar minhas contas, porque tudo que eu recebia era consumido pelo banco”, afirma. Ele tomou um empréstimo de R$ 800 para cobrir a conta, com pagamento em 36 parcelas de R$ 86, acumulando uma dívida superior a R$ 3.000.

Dois anos depois, já desempregado, não conseguiu mais pagar as dívidas com cartão de crédito e o cheque especial e teve o nome incluído no cadastro de maus pagadores da Serasa. Com isso ficou impedido de tomar novos empréstimos e fazer compras parceladas.

O Santander foi questionado sobre os critérios do banco para liberação de crédito para jovens de baixa renda como o estudante, mas não se pronunciou até a conclusão desta reportagem.

Pereira também relata que, ao navegar nas redes sociais no fim do mês, quando o dinheiro acaba, se depara frequentemente com anúncios de empréstimos e casas de apostas. “Parece que eles sabem quando estou precisando”, observa.

A economista e educadora financeira Nathália Rodrigues explica que a publicidade direcionada permite a veiculação de anúncios personalizados com base no comportamento dos usuários das redes nos meios digitais, o que cria incentivos para o consumo e o endividamento. Nath Finanças, como é conhecida, diz que a inteligência artificial intensifica esse processo.

Na visão dela, esse é “o maior erro das fintechs”, empresas de tecnologia que expandiram a oferta de serviços financeiros digitais nos últimos anos. “Elas disponibilizam crédito de forma rápida e, muitas vezes, sem uma análise mais aprofundada do perfil do consumidor e de sua capacidade de pagamento”, diz a economista.

Fundador da NG Cash, uma fintech voltada para a geração Z, o empresário Mário Augusto Sá afirma que a IA é essencial para aprovação de crédito na instituição. “A ferramenta faz toda a análise e decide se o usuário terá acesso ao crédito e qual será o limite”, diz. Uma vez analisados pela ferramenta, os resultados são submetidos ao crivo de humanos para aprovação final.

O empresário conta que, para conseguir uma aprovação de crédito na instituição, os clientes precisam movimentar a conta por um determinado tempo, aplicando valores e fazendo gastos, para que a IA entenda o comportamento dele.

O analista paralegal Guilherme Alves, 26, contraiu a primeira dívida em 2019, antes da popularização da IA. Ele usou um cartão de crédito para comprar uma geladeira parcelada para a mãe e não conseguiu manter os pagamentos em dia, por causa de outras contas que surgiram. Com o nome negativado, sentiu impactos em diferentes áreas da vida. “Você acaba sem acesso a crédito, não consegue comprar direito e isso é muito incômodo.”

Quando o devedor não paga a fatura total do cartão até o vencimento, o restante entra no crédito rotativo —uma modalidade de empréstimo automática em que juros elevados incidem sobre o valor que ficou em aberto e fazem a dívida crescer como bola de neve. A média das taxas mensais cobradas pelos cartões atingiu 14,9% em maio, segundo o Banco Central.

Para Rafaela Alves, especialista em educação financeira da Serasa, a tecnologia pode aumentar as taxas de inadimplência, porque estimula o fechamento de negócios por impulso, sem que o cliente analise se a dívida cabe no orçamento. “Existem agentes que possibilitam compras com um clique, diretamente pela inteligência artificial. Então, é muito mais fácil para se endividar”, diz.

Mas a especialista observa que, com a IA, os jovens também têm acesso a conteúdos educativos mais fácil do que as gerações anteriores. Segundo ela, a terceira maior causa da inadimplência é a falta de conhecimento financeiro, depois do desemprego e do ato de emprestar o nome para terceiros.

“As gerações mais novas querem e conseguem comprar coisas com mais facilidade por conta da tecnologia, mas não têm todas as informações necessárias para lidar com isso”, diz a economista Katherine Hennings, pesquisadora do FGV-Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas).

Para ela, o problema principal não está na oferta de crédito ou no marketing das empresas, mas nos algoritmos que ajudam a normalizar produtos, preços e hábitos de consumo. “A exposição constante a estímulos de consumo facilita o endividamento entre jovens, que estão hiperconectados”, diz Hennings.

Autor: Folha

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