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Treinadores de IA têm rotina desgastante e meses sem renda – 01/06/2026 – Tec

No fim de 2024, uma senhora atormentada por artrose crônica buscou ajuda de um sistema de inteligência artificial e tentou convencê-lo de que a única forma de aliviar suas dores seria substituir os remédios tradicionais por drogas mais fortes. Era um disfarce, criado por um homem contratado para impedir que a IA fizesse o que a mulher queria.

Ele trabalha como anotador numa plataforma que presta serviços para grandes empresas no desenvolvimento dessas tecnologias. A missão era testar a IA e refinar sua capacidade de interação, corrigindo falhas de programação e zelando pelo cumprimento de diretrizes que impedem as máquinas de abordar assuntos mais sensíveis.

“A ideia era que eu incentivasse a IA a falar sobre temas como abuso de drogas, cyberbullying, automutilação e extremismo político”, conta o anotador, que aceitou conversar sobre a experiência com a condição de não ser identificado pela reportagem. “A lista de assuntos era bem grande.”

Nesse período, ele chegou a trabalhar dez horas por dia na frente do computador, ganhando US$ 10 por hora, o equivalente a pouco mais de R$ 50 hoje. Após a conclusão do projeto em que se disfarçou como a senhora com artrose para conversar com a IA, ele desempenhou tarefas mais simples, checando respostas da inteligência artificial e corrigindo conceitos.

O mercado de anotadores, como são chamados aqueles que realizam esse tipo de trabalho, é formado por especialistas de várias áreas, incluindo engenheiros, médicos e linguistas. Plataformas como a Outlier, da empresa americana Scale AI, recrutam a mão de obra e executam as tarefas contratadas pelas empresas que desenvolvem modelos de IA como o ChatGPT, da OpenAI.

Os profissionais são atraídos pela promessa de ganhos de até US$ 100 por hora e passam por uma entrevista de emprego conduzida por uma IA. Os candidatos aprovados assinam termos de confidencialidade e, então, podem acessar o site onde as tarefas são executadas.

O jornalista Pedro Pequeno, 27, faturou R$ 86 mil com esse trabalho no ano passado e deixou o emprego que tinha como assessor do Tribunal de Justiça de Pernambuco para trabalhar apenas como anotador. Logo após pedir demissão, porém, parou de receber tarefas e ficou sem trabalho e sem renda por seis meses.

A instabilidade é uma marca desse mercado, segundo outros profissionais consultados pela Folha. Empresas como Google, Microsoft, Meta e OpenAI, todas clientes da Scale, contratam as plataformas de treinamento apenas para projetos pontuais, como aprimorar o vocabulário médico em português ou a precisão de cálculos de engenharia civil. Quando não há projetos, não há remuneração.

Profissionais ouvidos pela reportagem apontaram também rotinas exaustivas como um problema frequente. Em épocas mais movimentadas, em que há muitos projetos nas plataformas, os anotadores têm poucos minutos para executar certas tarefas e trabalham com um cronômetro ligado na plataforma. Quem não conclui a missão no prazo previsto tem o trabalho cancelado e fica sem receber.

Segundo Lucas Smaira, ex-funcionário da Google DeepMind e diretor da Vetto AI, empresa iniciante no mercado de treinamento, as gigantes da tecnologia buscam treinadores quando os próprios computadores, que treinam os modelos sem auxílio humano, não conseguem ampliar o repertório da IA sozinhos.

“Para conseguir ensinar os modelos, só interessa aquilo que está na fronteira do conhecimento humano”, explica Smaira. “E para você estar na fronteira do conhecimento, nem o humano, nem a IA conseguem chegar lá sozinhos. Precisa ser uma colaboração entre homem e máquina.”

Procurada pela Folha, a Scale AI afirmou que o trabalho na plataforma não deve ser entendido como uma carreira principal, mas sim como uma fonte extra de renda: “A maioria dos profissionais realiza essa atividade em meio período para obter uma renda complementar, frequentemente conciliando-a com outras responsabilidades profissionais, acadêmicas ou familiares”.

Sobre os projetos executados na plataforma que lidam com temas sensíveis, a empresa ressaltou que pede consentimento prévio dos anotadores e disponibiliza canais de apoio psicológico para quem participa dos projetos.

Autor: Folha

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