Ferramentas de inteligência artificial têm acelerado as chamadas contas de “achadinhos”, perfis que promovem ofertas de produtos nas redes sociais em troca de comissões oferecidas por grandes grupos de varejo. Esse mercado de afiliados atrai pessoas comuns e influenciadores profissionais com promessas de ganhos elevados.
Nesse modelo, os vendedores cadastrados pelas empresas divulgam os produtos das lojas parceiras por meio de links exclusivos gerados dentro das plataformas de vendas na internet, que assim ampliam seu alcance, atingindo consumidores que seguem os agentes nas redes.
O setor tem crescido rapidamente com a mudança na relação entre o varejo e os consumidores, que passaram a priorizar a comodidade de receber compras em casa. A eMarketer, empresa global de pesquisa e inteligência de mercado, calcula que o sistema de afiliados gera vendas anuais de US$ 18 bilhões no mundo.
Agentes que administram essas contas sozinhos incorporaram à rotina de trabalho o uso de ferramentas de IA para geração de imagens de vitrines virtuais e chatbots personalizados que automatizam a criação dos links exclusivos. Qualquer um pode entrar nos programas de afiliados, mas só quem tiver alcance e convencer as pessoas a comprar consegue faturar.
Depois de se formar em gestão de negócios, a estudante Patrícia Novais, 29, ficou um tempo desempregada, em busca de uma oportunidade de empreender sem grandes investimentos. A solução veio em 2021, com uma conta de afiliados que hoje, cinco anos depois, rende R$ 4.000 por mês, em média.
“Ser afiliado não é só compartilhar links”, ela explica. “É muito trabalhoso, porque é necessário ter uma estratégia bem feita e leva tempo para que os links se convertam em vendas de maneira consistente.”
Destacar-se diante da alta concorrência é essencial. Após tentativas frustradas, Patrícia desenvolveu o próprio método de atração de clientes: ela rastreia campanhas de marcas que oferecem brindes e avisa com antecedência nas redes sociais onde, quando e como participar. O objetivo final é direcionar os usuários para grupos que ela administra no WhatsApp, por onde são enviadas ofertas exclusivas.
Patrícia gerencia dez grupos de ofertas no WhatsApp, cada um com cerca de mil participantes, e dispara sete links promocionais por hora em cada grupo. Para lidar com esse volume de trabalho, utiliza ferramentas de automação de mensagens, como o ManyChat.
O marido de Patrícia, que é programador, trabalha no desenvolvimento da própria ferramenta de IA para auxiliar na rotina de curadoria —como os afiliados chamam o processo de seleção de links de ofertas.
As comissões por venda giram entre 3% e 20% do valor do produto. Segundo o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), um afiliado fatura, em média, cerca de R$ 2.400 por mês, mas o valor varia bastante.
A mineira Renara Nogueira, 30, começou como sacoleira antes de conhecer o modelo de afiliação. Ela viajava a São Paulo para comprar produtos destinados à revenda em sua cidade, no interior de Minas Gerais. Como muitos comerciantes, precisou fechar as portas durante a pandemia e, para garantir renda, abriu uma conta como afiliada de uma grande rede.
Renara vive exclusivamente da renda obtida com o comércio digital e afirma faturar R$ 200 mil em meses movimentados. Ela administra 250 grupos de WhatsApp, além das três contas que mantém no Instagram, sua principal vitrine. Juntos, os perfis somam mais de 1 milhão de seguidores.
Segundo ela, a IA é usada em todas as etapas da gestão das contas, desde a criação de conteúdo digital até o disparo dos links. “As pessoas costumam dizer que o mercado de afiliados é muito difícil. O que elas não sabem é que esse processo já foi muito mais trabalhoso”, diz Renara. No início, ela enviava links manualmente, um por um.
A vendedora emprega 11 pessoas, incluindo designers, especialistas em tráfego pago e gestores de contas nas redes sociais. Segundo ela, crescer na área exige constância no cronograma de postagens e de pesquisas de ofertas.
“No início, eu começava a trabalhar às 6h e só parava depois da meia-noite, sem pausa. Com a ajuda de ferramentas de automação, o processo se tornou muito mais prático.”
O crescimento do setor também impulsionou a criação de cursos e mentorias que aproveitam a popularidade dos programas de afiliados para vender promessas de ganhos rápidos, muitas vezes incompatíveis com a realidade. Esse movimento criou novos riscos tanto para as plataformas de varejo quanto para os vendedores afiliados.
A influenciadora mineira Cecília Mauad, 30, afirma que seu primeiro contato com esse universo ocorreu por meio de cursos que, segundo ela, pouco agregavam à prática profissional. “Comprei um curso que não me trouxe nada que eu já não soubesse, porque no fim era um curso de vender curso, quase um esquema de pirâmide”, diz.
De acordo com Cecília, a exibição de resultados manipulados, a falta de transparência e a ausência de suporte estavam entre os problemas mais recorrentes encontrados nesse tipo de produto. “Desconfie de quem diz que o trabalho é simples ou não exige esforço. E de pessoas que afirmam faturar alto apenas mexendo no celular sentadas no sofá.” Para ela, que hoje também é afiliada, o mercado oferece flexibilidade, mas isso não significa menos trabalho.
Segundo a especialista em finanças Carolina Mendes, as redes sociais têm “romantizado o conceito de empreender”, ao destacar as vantagens do modelo e deixar em segundo plano seus desafios. “Empreender pressupõe inovação e gestão de recursos. O que vemos em grande escala no mercado de afiliados é, muitas vezes, o empreendedorismo por necessidade”, afirma.
Uma pesquisa feita pela Shopee com seus afiliados no Brasil indica que 40% dos participantes do programa pretendem transformar os ganhos obtidos na principal fonte de renda. Mais da metade dos entrevistados afirma que as vendas representam até 20% da renda mensal.
Renata Gerez, diretora do Mercado Livre, diz que a plataforma não é contra a oferta de cursos específicos sobre afiliação, mas monitora comportamentos que violem os termos do programa. Segundo ela, avaliações de consumidores ajudam a reduzir a disseminação de ofertas fraudulentas.
A Magalu, uma das primeiras a ter contas de afiliados no país, afirma que também acompanha iniciativas de cursos voltados ao segmento. Vendedores bem-sucedidos, selecionados pela empresa a partir de resultados comprovados de conversão de vendas, podem atuar também como mentores de novatos no programa.
As três plataformas também mantêm centros de capacitação com orientações sobre boas práticas para afiliados, como evitar o uso de imagens que não representem fielmente os produtos anunciados e não copiar conteúdos de outros criadores.
“Para quem está começando, a recomendação é evitar atalhos. O sucesso como afiliado exige dedicação, consistência e, acima de tudo, manutenção da confiança e autenticidade diante da audiência”, afirma Renata Gerez.
Entre as estratégias apontadas por especialistas para evitar investimentos sem garantia estão a construção de uma comunidade própria e a diversificação de canais de divulgação. Ferramentas de IA generativa já se tornaram habituais desses trabalhadores, mas a migração integral para esse tipo de renda ainda exige planejamento e reservas financeiras.
“Um negócio digital envolve a construção de uma base de clientes, uma proposta de valor clara e uma estrutura operacional capaz de sobreviver às mudanças de algoritmo”, afirma Carolina Mendes.
Autor: Folha








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