Parecia uma segunda-feira aparentemente normal, quando a gaúcha Mari Camardelli, 40, paralisou. “Estava no carro e, de repente, não sabia mais dirigir”, lembra. Pediu ajuda para pessoas na rua e conseguiu chegar em casa.
Ela conta que se assustou, mas pensou que fosse algo passageiro. Dois dias depois, entrou em uma reunião e, ao ver as pessoas na tela, não conseguiu reconhecer alguns rostos.
Preocupada, buscou atendimento médico e recebeu o diagnóstico de burnout. Também chamado de síndrome do esgotamento profissional, o distúrbio decorre de sobrecarga extrema no trabalho. No caso de Mari, questões profissionais se somaram às demandas do trabalho invisível dentro de casa, comum às mulheres, como resolver pendências domésticas e problemas dos filhos e do marido.
“Eu tinha entrado em colapso, o que acontece quando você tenta ligar todos os equipamentos ao mesmo tempo”, diz ela, que é especialista em inteligência emocional, educadora parental e fundadora da comunidade Somos Madrastas.
Questões de saúde mental não eram novidade para Mari, que em 2024 publicou o livro “(Sobre) Carga Mental” (Much Editora). Ela conta que, apesar de conhecer os riscos do esgotamento, não se protegia.
Depois do colapso, passou a se cuidar mais, diz. Se antes não sabia dizer “não”, agora é algo que faz tranquilamente. “Eu me preparei para receber uma amiga às 19h, são quase 21h e ela não chegou. Mesmo não querendo, eu a receberia. Hoje, desmarco.”
São reflexões como esta que ela coloca em seu livro e nos grupos que mantém para ajudar outras mulheres, as principais afetadas por questões ligadas à saúde mental.
De acordo com o relatório “Esgotadas”, publicado em 2023 pela ONG Think Olga, 45% das brasileiras possuem diagnóstico de ansiedade, depressão ou algum outro tipo de transtorno mental. A ansiedade é o transtorno mais comum, atingindo 6 em cada 10 mulheres.
“A mulher que está sempre resolvendo algo fica estressada”, afirma a psicóloga Carla Antloga, professora da UnB (Universidade de Brasília).
“Resolver algo”, ela diz, inclui ações práticas, como varrer o chão, até pensar, planejar e organizar, como programar o que a família vai almoçar e jantar. “Isso gera sobrecarga mental”, afirma. Em um casal heterossexual, o fato de a mulher ser geralmente a responsável pela maioria das tarefas domésticas, sendo solicitada pelo companheiro a todo momento —inclusive com perguntas como “onde está a chave?”—, gera sobrecarga mental e emocional.
A sobrecarga mental, explica a psicóloga, é marcada pela exigência cognitiva —prestar atenção, tomar decisões, executar tarefas. A emocional, como o nome diz, causa impacto nas emoções. Carla explica, contudo, que ambos os fardos coexistem. “Na prática, to da sobrecarga mental gera uma demanda emocional e vice-versa”, diz.
Esse tipo de sobrecarga aparece também quando a mulher é responsável pelo cuidado com os pais, o que acontece na maioria das famílias. Foi o que mostrou a pesquisa “Cuidados no Domicílio”, feita pela Fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados) no estado de São Paulo, em 2021.
De acordo com o estudo, as mulheres são 90% dos cuidadores. Dessas, 90% são parentes ou moram na mesma casa das pessoas que precisam de cuidado. Ou seja, o aumento da presença feminina no mercado de trabalho não alterou as cobranças.
“Muita gente ainda acredita, erroneamente, que a mulher é biologicamente ligada ao cuidar”, afirma Carla, que também lidera o grupo Psitrafem (Pesquisas em Trabalho Feminino). “Falta a compreensão de que isso é tarefa e leva à exaustão.”
Em seu consultório, a ginecologista e pesquisadora Fabiane Berta ouve com frequência queixas relacionadas à sobrecarga. “Mais de 90% das pacientes que estão na perimenopausa, um período de vulnerabilidade, estão cansadas”, diz.
Fabiane explica que as mudanças hormonais podem agravar ainda mais o quadro de estafa. “Não adianta só falar para essa mulher tentar dormir mais e fazer uma atividade. É preciso um olhar integral. Muitas vezes, parte do problema é fisiológico, ligado a questões hormonais.”
Voltando aos homens, a cientista social Carmen Susana Tornquist aponta ainda, como obstáculo, a dificuldade de fazer com que eles se responsabilizem igualmente pelas tarefas domésticas.
“Como escreveu o sociólogo Pierre Bourdieu, quem está em uma posição de conforto vai relutar em abrir mão desse lugar. Não é porque o homem seja menos legal, mas porque há uma determinação social para isso.”
Autor: Folha








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