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o inimigo não é o “patriarcado”

Recebi de um amigo alguns recortes do Atlas da Violência 2026. Confesso que, à primeira vista, imaginei encontrar apenas aquilo que se espera de uma publicação dessa natureza: dados, séries históricas, cruzamentos estatísticos, diagnóstico criminal, análise de políticas públicas e o esforço necessário de compreender uma das grandes tragédias nacionais. O Brasil é um país violento demais para que qualquer pessoa séria trate esse tema com leviandade. Homicídios, estupros, feminicídios, agressões contra crianças, idosos e pessoas vulneráveis são realidades dolorosas que precisam ser conhecidas e enfrentadas com seriedade. Fui atrás do documento e me surpreendi – não apenas com os números, mas também com a narrativa.

Logo no início o Atlas afirma que assumiu o compromisso de lançar luz sobre as “dinâmicas da violência estrutural (p. 6)”. Mais adiante, ao tratar da violência contra a mulher, sustenta que a persistência dos feminicídios e da violência sexual faria parte do enredo de uma sociedade que “não superou os valores do patriarcado (p. 10)”. Na mesma seção, o relatório passa a abordar a chamada “cultura red pill”, inserindo-a no universo mais amplo da machosfera, e conclui que “a consolidação do processo civilizatório exige (p. 11)” educação para igualdade de gênero, letramento digital crítico e prevenção da misoginia desde a infância e adolescência.

A escolha das palavras nunca é neutra, na verdade, especialmente em um relatório organizado pelo governo. Quando um relatório público fala em “violência estrutural”, “patriarcado”, “igualdade de gênero”, “misoginia cultural” e “processo civilizatório”, ele não está apenas descrevendo fatos. O que ele está fazendo é ordenar esses fatos dentro de sua ideologia e teoria social. E essa teoria não nasce dos números. Ela antecede os números, que são cuidadosamente encaixados nela com o desiderato único de confirmá-la. É aqui que a discussão precisa ser feita com honestidade.

O menino criado sem referência moral estável, exposto desde cedo ao crime, à pornografia e às drogas, não se torna menos perigoso porque aprendeu slogans sobre igualdade de gênero

Ninguém sério nega a existência da violência contra a mulher. Estupro, agressão, assédio, exploração sexual e feminicídio são crimes gravíssimos e devem ser combatidos com todo o rigor da lei. Não há divergência moral relevante sobre isso. A sociedade brasileira precisa proteger melhor as mulheres, punir criminosos, acolher vítimas, melhorar investigações, reduzir a impunidade e enfrentar ambientes familiares e sociais em que a violência se perpetua. Tudo isso é verdadeiro, urgente e necessário.

O problema começa quando a existência desses crimes é transformada em prova automática de uma tese meramente ideológica. Os dados mostram que existe violência, vítimas e que há padrões preocupantes e fenômenos que precisam ser investigados. Mas os dados, por si mesmos, não demonstram que a causa dessa violência seja o chamado patriarcado, nem provam que a solução passe necessariamente pela imposição de uma determinada agenda de gênero na educação, na cultura e nas políticas públicas.

Essa passagem é decisiva.

Uma coisa é afirmar que 1. há violência contra mulheres. Outra, muito diferente, é afirmar que 2. essa violência decorre de uma estrutura patriarcal, que 3. precisa ser superada por meio de uma reeducação social orientada por teorias de gênero. A primeira afirmação é empírica. A segunda é interpretativa. A terceira é normativa. Misturar essas três camadas – dado, interpretação e prescrição – é uma das formas mais eficientes de transformar estatística em catecismo político.

Os comportamentos que hoje objetificam a mulher não nasceram da moral cristã, mas precisamente da sua rejeição

E não deixa de ser curioso que uma publicação voltada à violência no Brasil, país atravessado por facções criminosas, tráfico de drogas, alcoolismo, desestruturação familiar, ausência paterna, pornografia, hipersexualização precoce, abandono educacional, impunidade, corrupção policial, colapso comunitário e fragilidade institucional, escolha elevar o patriarcado (que por acaso – ou não – tem muito a ver com o cristianismo) à condição de chave explicativa privilegiada. Será mesmo que a violência brasileira pode ser compreendida adequadamente a partir de uma guerra cultural entre homens e mulheres? Será que a tragédia da violência sexual pode ser explicada de forma séria sem considerar crime organizado, pornografia, abuso intrafamiliar, drogas, álcool, abandono familiar e destruição dos vínculos de pertencimento? Aí a realidade, essa quimera, continua na sua teimosia, desmanchando as narrativas ideológicas…

O Brasil não é violento porque conserva virtudes familiares demais. É violento, em grande medida, porque perdeu muitas delas. O menino abandonado pelo pai, criado sem referência moral estável, exposto desde cedo ao crime, à pornografia, às drogas e à cultura da força não se torna menos perigoso porque aprendeu slogans sobre igualdade de gênero. A menina vulnerável, exposta a ambientes desestruturados, relacionamentos abusivos e ausência de proteção comunitária, não será protegida por cartilhas ideológicas se a sociedade já perdeu a capacidade de formar homens responsáveis, famílias estáveis e comunidades vigilantes.

É evidente que existem homens violentos e comportamentos masculinos degradados. É evidente que mulheres sofrem agressões covardes e injustificáveis. Mas talvez justamente por isso devêssemos perguntar com mais coragem de onde vem essa masculinidade deformada. Ela vem da ética cristã histórica, que ensinou o homem a amar sacrificialmente (Efésios 5,25), cuidar de sua casa (1 Timóteo 3,4-5), honrar sua esposa (1 Pedro 3,7), proteger os vulneráveis (Tiago 1,27), conter seus impulsos (1 Tessalonicenses 4,3-5) e responder moralmente diante de Deus (Romanos 14,12)? Ou vem de uma cultura cada vez mais marcada pela pornografia, pela irresponsabilidade afetiva, pela relativização de tudo, pela dissolução dos compromissos, pelo consumo do corpo e pela banalização do sexo? A resposta parece incômoda demais para caber na narrativa dominante.

Os comportamentos que hoje objetificam a mulher não nasceram da moral cristã, mas precisamente da sua rejeição. A pornografia em escala industrial, os relacionamentos descartáveis, a mercantilização do corpo, a erotização precoce, a dissolução da família e a ideia de que liberdade sexual significa ausência de qualquer vínculo moral são frutos da revolução sexual contemporânea do que da tradição cristã. Culpar a ética cristã pela objetificação da mulher é como acusar o bombeiro pelo incêndio que ele tentou apagar.

A própria história exige mais prudência. Foi no interior da civilização ocidental, moldada durante séculos por pressupostos cristãos e frequentemente chamada de “patriarcal” por seus críticos, que a mulher alcançou os maiores níveis de proteção jurídica da história da humanidade já registrados, incluindo reconhecimento social, dignidade pessoal e segurança institucional. O cristianismo afirmou a igual dignidade espiritual e material entre homem e mulher, protegeu viúvas, valorizou o matrimônio, condenou o abandono familiar, limitou o poder masculino arbitrário e atribuiu ao homem deveres severos de cuidado, fidelidade, provisão e responsabilidade. Isso não significa que sociedades cristãs tenham sido perfeitas, porque a história do ser humano é marcada por altos e baixos – graças aos nossos erros, não à vontade perfeita dEle. Significa apenas que a caricatura segundo a qual a matriz cristã seria a grande fonte histórica da degradação feminina não resiste a um exame honesto.

Também é preciso notar que a narrativa de gênero costuma simplificar a própria condição masculina. Os homens são, em larga medida, a maioria das vítimas de homicídio, dos mortos em confrontos armados, dos suicídios consumados, dos acidentes de trabalho fatais, dos moradores em situação de rua e da população carcerária. Isso não diminui em nada o sofrimento das mulheres vítimas de violência. Apenas mostra que a realidade humana não cabe no esquema raso de opressores e oprimidos. Há mulheres vítimas de homens violentos, mas há também milhões de homens destruídos por abandono, criminalidade, vício, solidão, guerra, trabalho degradante, cárcere e morte precoce. A condição humana é trágica demais para ser reduzida a um panfleto ideológico.

A caricatura segundo a qual a matriz cristã seria a grande fonte histórica da degradação feminina não resiste a um exame honesto.

A esquerda identitária transformou o sofrimento real em matéria-prima para uma política de ressentimento. O crime deixa de ser apenas crime, a vítima deixa de ser apenas vítima, o agressor deixa de ser apenas agressor, e tudo passa a ser reinterpretado como capítulo de uma guerra estrutural entre identidades. Como a tal narrativa da luta de classes não deu certo, agora a batalha é das identidades. O resultado é previsível: em vez de combater a violência com instrumentos concretos, a sociedade passa a discutir categorias ideológicas; em vez de reconstruir famílias, comunidades e responsabilidades, passa a multiplicar campanhas; em vez de formar caráter, passa a administrar linguagem.

Mas civilização não se constrói apenas com repressão penal, muito menos com engenharia vocabular identitária. Civilização se constrói com famílias estáveis, pais presentes, mães protegidas, crianças amadas, comunidades fortes, escolas que formam o caráter, igrejas vivas, leis justas, punição proporcional e uma cultura moral capaz de ensinar o homem a dominar a própria força em vez de usá-la contra o mais fraco.

É claro que o Estado deve punir criminosos e proteger as vítimas. É claro que deve produzir dados. Mas, quando o Estado ou instituições públicas passam a apresentar uma teoria ideológica como se fosse conclusão científica inevitável, algo se desloca perigosamente. A estatística deixa de servir à verdade e passa a servir à narrativa. O relatório deixa de iluminar a realidade e passa a conduzir o leitor para uma determinada visão de mundo. No fim, parece que tudo se resume a isto: proselitismo ideológico.

Mulheres não precisam de slogans; o que elas precisam é de proteção real

O combate à violência contra a mulher é dever de todos nós. Mas justamente por ser uma causa séria demais, ela não deveria ser sequestrada por uma leitura ideológica estreita. Mulheres não precisam de slogans; o que elas precisam é de proteção real. Crianças não precisam de militância travestida de educação; o que elas precisam é de famílias estruturadas, segurança, inocência preservada e adultos responsáveis. Homens não precisam ser tratados como suspeitos universais; precisam ser chamados à responsabilidade, ao autocontrole, à honra, à paternidade e ao serviço.

A pergunta final, portanto, não é se devemos enfrentar a violência contra a mulher. Porque isto é óbvio! A pergunta é se faremos isso reconstruindo os fundamentos morais que protegem os vulneráveis, ou destruindo justamente as fontes civilizacionais que ensinaram o Ocidente a reconhecer a dignidade humana para todos.

Uma sociedade que confunde estatística com catecismo ideológico pode até produzir relatórios sofisticados e bons slogans para serem usados em campanhas. Mas dificilmente produzirá homens melhores, famílias mais fortes e mulheres mais protegidas. E, no fim, é disso que se trata. Não de vencer uma disputa ideológica, mas de recuperar as virtudes sem as quais nenhuma civilização permanece de pé.

Autor: Gazeta do Povo

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