Cada geração tem os filmes de horror que merece.
Na década de 1950, “Invasão dos Usurpadores de Corpos” pulsava com o medo pós-guerra da infiltração comunista. A desconfiança nas instituições americanas gerada pelo Vietnã assombra clássicos dos anos 1970, como “O Massacre da Serra Elétrica” e “O Exorcista“. Filmes slasher dos anos 1980 —populares entre a geração X de crianças deixadas sozinhas em casa— em geral retratam pais ausentes ou monstruosos. E o “torture porn” dos anos 2000, como a franquia “Jogos Mortais“, pode ser lido no contexto de Guantánamo e do escândalo de Abu Ghraib.
“Backrooms“, filme sobre um arquiteto frustrado que vira vendedor de móveis e descobre uma dimensão estranha de quartos (quase) vazios, oferece um vislumbre do pesadelo da geração Z: ficar preso em uma realidade alternativa infinita e mutante. Uma visão aterrorizante de um universo distorcido, gamificado e sem fronteiras entre o pessoal e o profissional, o filme acompanha o profundo desconforto de uma geração com a vida vivida online.
O filme é uma sensação entre a geração Z. Arrecadou US$ 81 milhões só nos Estados Unidos em seu fim de semana de estreia. Cerca de 86% do público tinha menos de 35 anos, segundo a PostTrak, empresa de pesquisa do setor cinematográfico; 44% tinha menos de 21.
Por que esses jovens se identificam tanto com o filme?
Em parte, trata-se de uma questão de representação. Com 20 anos, o diretor Kane Parsons é um filho da internet, com um estilo forjado por mídias digitais e videogames.
Brendan Reynolds, 26, funcionário da Biblioteca Pública de Nova York, disse ter reconhecido no filme a obra de alguém com uma experiência geracional comum. “É o primeiro filme que vi dirigido por alguém que cresceu com vaporwave”, disse Reynolds, referindo-se ao gênero musical online do início dos anos 2010.
Em 2022, usando um software gráfico comum, Parsons —que era anônimo na época— transformou a imagem de um meme inquietante de um escritório dos anos 2000 em um curta. “The Backrooms (Found Footage)” fez tanto sucesso —já foi visto mais de 80 milhões de vezes— que a A24, produtora responsável por um tipo específico de cinema indie refinado nos anos 2020, o contratou para dirigir uma versão longa-metragem.
Muito do debate em torno de “Backrooms” se concentra em sua novidade e sua sensibilidade perturbadora. É a estreia nas telas grandes de uma obsessão da geração Z, que cresceu se assustando com imagens da virada do milênio —shoppings abandonados, por exemplo.
Mas não é o primeiro filme baseado em um meme. E o mito do labirinto é um dos mais duradouros da civilização ocidental, de Cnossos a Florença, passando pelo labirinto de sebes de “O Iluminado”, de Stanley Kubrick. Mesmo assim, o labirinto do filme de Parsons parece chamar a nova geração por outros motivos.
“Os filmes de horror sempre tomam a forma do mundo em que são feitos e canalizam ansiedades e traumas específicos daquela era”, diz Adam Lowenstein, diretor do Centro de Estudos de Horror da Universidade de Pittsburgh.
No filme, Clark tropeça em um portal para os backrooms embaixo de sua loja de móveis. As combinações estranhas e circulares de espaços de escritório que ele encontra sugerem uma espécie de algoritmo demente. Alguns espectadores leram o filme como um comentário sobre inteligência artificial e a proliferação de conteúdo perturbador gerado online.
“Acho que as pessoas estão se sentindo muito perdidas hoje”, diz Sydney Andrews, 23, designer de produção em Nova York. “Nossa geração está muito assustada com a IA.”
Parsons disse que a IA é “genuinamente prejudicial” e que, se pudesse, faria a IA generativa “desaparecer para sempre”. Mas afirma que a inspiração mais importante para seu trabalho é o videogame Portal 2 e que algumas de suas primeiras criações digitais foram no Minecraft. Em “Backrooms”, uma pessoa entra na zona liminar por “clipping”, gíria gamer para atravessar uma parede sólida.
É fácil imaginar por que a ideia de estar preso dentro de um labirinto em proliferação assombraria uma audiência da geração Z. Esses jovens passaram anos presos em casa durante a pandemia de Covid, experimentando o mundo exterior através de espessas camadas de mediação digital.
Enquanto a vida online pode oferecer formas de distração, o trabalho digital —a criação de conteúdo sendo o exemplo mais óbvio— é um campo darwiniano que exige dedicação total e às vezes é a única perspectiva de emprego que a geração Z consegue imaginar.
“É uma geração para quem o próprio trabalho é uma perspectiva muito desconcertante, perturbadora e assustadora”, diz Lowenstein.
Em “Backrooms”, trabalho e casa estão irremediavelmente entrelaçados. Clark dorme em uma cama no chão da loja. Os próprios backrooms lembram escritórios, mas estão cheios de decoração de casa, móveis de jardim e roupa suja.
A visão do filme sobre jovens no trabalho é perturbadora. Enquanto Clark ao menos tem sonhos profissionais, por mais que não sejam realizados, seus dois jovens funcionários —retratados como incompetentes— parecem não ter sonho algum. Clark oferece ao par trabalho por hora, primeiro como produtores de conteúdo, depois como assistentes em sua missão de explorar os backrooms.
A trajetória de Parsons, de criador de conteúdo anônimo a diretor de Hollywood, foi entrelaçada ao próprio marketing do filme. James Francis, professor de inglês que se especializa em filmes de horror, observa que Parsons teve mais destaque na divulgação do que suas duas estrelas indicadas ao Oscar, Chiwetel Ejiofor e Renate Reinsve.
Uma forma de ver a ascensão de Parsons é como uma fuga do labirinto do trabalho digital para o mundo real.
“Esses limiares e backrooms falam sobre desejar poder atravessar uma porta e mudar de vida”, diz Francis. “Existe um medo e uma ansiedade diante da ideia de viver uma vida algorítmica em vez de uma vida individual.”
Autor: Folha








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