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a armadilha da esquerda no poder

Ao longo dos últimos 30 anos, Portugal tem experimentado um paradoxo econômico persistente, assinalado pela existência de estabilidade política relativa, forte integração europeia e entrada de volumosos fluxos de fundos comunitários que convivem com trajetória econômica marcada por crescimento baixo, persistência de limitações estruturais e convergência insuficiente com os padrões de prosperidade dos seus parceiros europeus, configurando um dos piores desempenhos da União Europeia.

Embora se possa, em alguma medida, atribuir o desempenho dos indicadores econômicos a fatores externos, como choques globais e crises financeiras, e a fatores endógenos – como tendências demográficas marcadas por baixas taxas de natalidade, aumento da emigração de jovens qualificados e da imigração crescente de oriundos de países de menor desenvolvimento relativo, sobretudo dos países africanos de língua oficial portuguesa (PALOPs) e do sul da Ásia, resultando em redução da força de trabalho qualificada e em maior pressão sobre os sistemas públicos de saúde e previdência –, os dados mais robustos sugerem que as escolhas de política econômica dos governos socialistas que dominaram grande parte desse período contribuíram decisivamente para um crescimento inferior à média europeia, baixa competitividade e estagnação relativa do rendimento per capita.

De fato, no centro dessa trajetória está o fato de que, desde meados da década de 1990, o modelo econômico português tem sido amplamente moldado por governos socialistas ou maiorias parlamentares situadas à esquerda. Entre 1995 e 2025, o Partido Socialista (PS) governou cerca de 24 dos 30 anos, um dado indispensável para qualquer avaliação séria do desempenho do país no período. Não se trata, assim, de uma experiência episódica ou marginal, mas de uma hegemonia política prolongada, com danosos efeitos estruturais cumulativos.

Com o socialista António Guterres, atual Secretário-Geral da enfraquecida, ideologizada e crescentemente ignorada ONU, o PS manteve-se no poder entre 1995 e 2002, após o que se seguiu um curto interregno de governos de coalizão de centro-direita entre abril de 2002 e março de 2005, formados pelos partidos Social-Democrata (PSD) – de centro-direita, apesar do nome – e pelo Partido Popular (CDS-PP), antes do regresso socialista sob José Sócrates, que governou de 2005 a 2011.

Depois do período de ajustamento e austeridade liderado por uma coligação PSD-CDS-PP (2011-2015), o PS voltou ao poder em 2015, permanecendo no governo até junho de 2025, primeiro apoiado por forças da esquerda radical – Bloco de Esquerda (BE) e Partido Comunista Português (PCP) – e, posteriormente, com maioria absoluta.

Esses dados cronológicos não são variáveis de menor importância, mas cruciais para se entender que os resultados observados no período refletem a lógica econômica – ou falta dela – adotada sob governos socialistas, e não exceções pontuais ou ciclos breves.

Os números confirmam essa leitura. Entre 1995 e 2025, o crescimento médio anual do PIB português, de 0,9%, permaneceu persistentemente abaixo da média europeia, ela própria bem modesta, de 1,6%. Mesmo em anos recentes mais favoráveis – como 2023, quando o PIB cresceu cerca de 2,3%, ou 2024-2025, com projeções de 1,9 % – o ritmo permanece insuficiente para permitir convergência real com as economias europeias mais dinâmicas.

É precisamente o PIB per capita que melhor resume o fracasso silencioso do modelo. O PIB per capita português representa apenas cerca de 82% da média da União Europeia (medido em paridade de poder de compra, PPC). Isso coloca Portugal na 18.ª posição entre os 27 Estados-membros. Enquanto outras economias com ponto de partida semelhante aproveitaram a integração europeia para acelerar a convergência, Portugal ficou para trás. O problema não foi a ausência de recursos. Foi, sobretudo, a repetição de escolhas políticas que privilegiaram a gestão do presente em detrimento da construção do futuro.

A comparação com países, sobretudo do Leste europeu e outras economias que eram consideradas estruturalmente ainda menores, é inevitável. Com menos recursos e menos tempo de integração, conseguiram uma convergência real que Portugal não alcançou em quarenta anos, mostrando os benefícios de reformas focadas em aumento de produtividade, competitividade, atração de investimentos externos e fomento ao investimento privado, resultando em crescimentos expressivos em Malta (5,9%), Croácia (3,8%), Polônia (3,7%), Dinamarca (3,6%), Chipre (3,5%), Espanha (3,2%), Bulgária (2,8%) e Lituânia (2,8%) dentre outros.

Os sucessivos governos socialistas optaram por um modelo econômico centrado no consumo interno e na redistribuição, frequentemente antes, e não depois, da criação de riqueza, resultando em uma das cargas tributárias mais elevadas da região. A expansão da despesa pública, o aumento do peso do Estado na economia e a elevação insustentável da carga fiscal, particularmente sobre o trabalho e as empresas, tornaram-se marcas de uma estratégia que via o setor privado menos como motor de crescimento e mais como fonte de financiamento permanente. O resultado foi previsível: investimento frágil, produtividade estagnada e um tecido empresarial incapaz de escalar ou competir em cadeias de valor mais sofisticadas.

A relação do Estado com o risco econômico também se degradou. Em vez de fomentar um ambiente favorável à inovação, à capitalização das empresas e à retenção de talentos, os governos socialistas consolidaram um quadro regulatório denso, fiscalmente instável e juridicamente incerto. Para muitos empreendedores e profissionais qualificados, a escolha tornou-se óbvia: adaptar-se à estagnação ou procurar oportunidades fora do país. A emigração estrutural de jovens altamente qualificados não foi um efeito colateral indesejado, mas um sintoma direto desse modelo.

Nem mesmo a abundância de fundos europeus conseguiu inverter a trajetória. Portugal foi, ao longo de décadas, um dos maiores beneficiários líquidos da União Europeia. Ainda assim, esses recursos foram frequentemente canalizados para projetos de retorno duvidoso, infraestruturas sem efeito multiplicador claro e expansão do setor público e paraestatal. Faltou uma estratégia coerente de transformação produtiva, capaz de ligar investimento à inovação, indústria avançada e exportações de alto valor agregado. 

Este dado desmonta a narrativa de sucesso baseada apenas em estabilidade social: sem crescimento robusto, a redistribuição torna-se um exercício de soma zero, penalizando sobretudo as gerações mais jovens. O legado dos governos socialistas desde 1995 é, portanto, ambíguo apenas à superfície. Entregaram estabilidade política, alguma previsibilidade social e paz distributiva de curto prazo. Mas deixaram um país mais envelhecido, menos produtivo, dependente de transferências externas e incapaz de reter o seu próprio capital humano.

No mercado de trabalho, a leitura exige igualmente cautela. A taxa de desemprego atual, em torno de 7%, é frequentemente apresentada como sinal de sucesso. Contudo, este dado esconde problemas estruturais persistentes: baixa produtividade, salários médios reduzidos e uma elevada proporção de emprego poucos qualificados.

A trajetória da dívida pública reforça esse cenário. Sob governos socialistas, Portugal entrou na crise financeira internacional com déficits elevados e crescimento artificialmente sustentado por endividamento. O resultado foi o pedido de resgate internacional em 2011 e uma dívida que ultrapassou 130 % do PIB em meados da década seguinte. A redução mais recente da dívida – para cerca dos ainda elevadíssimos 95 % do PIB em 2024 – é positiva, mas ocorreu tardiamente e sob forte intervenção do Banco Central Europeu. Não foi o produto de uma estratégia estrutural de crescimento, mas de consolidação defensiva sob pressão externa após uma crise profunda.

Também em termos de competitividade internacional, os resultados ficam aquém do desejável. Portugal continua a apresentar fraca produtividade, excessiva dependência de setores de baixo valor agregado e dificuldade em atrair investimento direto estrangeiro tecnológico em escala comparável a economias europeias que adotaram reformas mais agressivas de orientação liberal. A carga fiscal elevada sobre o trabalho e as empresas, a rigidez regulatória e a instabilidade do enquadramento econômico foram traços recorrentes das políticas implementadas ao longo dos sucessivos governos socialistas.

Nada disso implica negar eventuais avanços sociais ou melhorias pontuais. Mas os dados mostram que a hegemonia socialista produziu estabilidade sem transformação, crescimento sem convergência e redistribuição sem criação suficiente de riqueza. Como analisado, o contraste com países que adotaram políticas mais orientadas para o mercado, com redução do peso do Estado, estímulo ao investimento privado e reformas estruturais profundas, sugere que alternativas mais à direita no espectro político teriam endereçado de forma mais eficaz os problemas estruturais da economia portuguesa.

A questão central já não é ideológica, mas empírica: Portugal ficou para trás não por falta de meios ou por escassez de oportunidades, mas por ter confundido relativa – e reduzida – estabilidade social com projeto de crescimento e gestão com estratégia. A estagnação portuguesa não foi um destino inevitável, mas uma escolha política prolongada, a qual teve um denominador comum claro: o esquerdismo.

Assim como em Portugal, o Brasil também ilustra alarmante padrão de crescimento reduzido combinado com fragilidades persistentes durante longos períodos de governos de esquerda. No caso brasileiro, essa experiência está centrada nas administrações do Partido dos Trabalhadores (PT), sob Lula (2003-2010 e a partir de 2023) e Dilma Rousseff (2011-2016), que governaram o país por 16 dos últimos 22 anos, tendo demonstrado uma incapacidade crônica de transformar potencialidades em progresso real.

Conforme analisei em artigo aqui nesta Gazeta em setembro de 2024, o desempenho econômico brasileiro sob esses governos foi consistentemente fraco em relação às capacidades do país e em comparação com pares emergentes e insuficiente para qualquer possibilidade de convergência com economias mais dinâmicas. O Brasil cresceu, em média, cerca de 1,3 % ao ano entre 2003 e 2023, ritmo que ficou atrás de países como Turquia (4,7 %), Indonésia (5 %), México (2,3 %), Índia (6,2 %) e China (5,5 %).

Mesmo partindo de bases muito amplas (sendo uma das dez maiores economias do mundo em PIB ajustado pelo poder de compra), o país viu sua posição no ranking global de renda per capita cair da 60ª para a 85ª posição entre 2003 e 2023, com projeções de piora até 2026, quando poderá chegar ao 90º lugar.

Talvez ainda mais grave, ou reflexo da falta de planejamento e estratégia, o Brasil manteve níveis de industrialização medíocres, com manufaturados representando menos de 30 % das exportações, enquanto países emergentes similares ultrapassaram 50 %. A economia continuou dependente de commodities e produtos de baixo valor agregado, enquanto barreiras internas, infraestrutura deficiente e os altos custos do chamado “Custo Brasil” encareceram a produção e penalizaram a competitividade internacional. Exportações estratégicas e inovação tecnológica praticamente não avançaram, e a capacidade de gerar empregos de qualidade permaneceu estagnada.

Essa estagnação estrutural revela uma característica central das políticas de esquerda: embora focadas em narrativas de inclusão social e de mitigação da pobreza imediata – atreladas a políticas de perpetuação de dependência estatal, com fins eleitorais –, não promoveram reformas estruturais profundas capazes de impulsionar produtividade, competitividade internacional e desenvolvimento sustentável. A indústria manteve baixa intensidade tecnológica, a produtividade permaneceu estagnada e o país não conseguiu diversificar de forma significativa sua base produtiva. Como resultado, os ganhos sociais alcançados, os quais são em considerável medida devidos a medidas liberalizantes implementadas por governos anteriores, sobretudo os de FHC (1995-2002), foram limitados por um crescimento econômico insuficiente para consolidar avanços duradouros, uma verdadeira “armadilha de pobreza” institucionalizada.

A comparação entre os dois países é inevitável, mas elucidativa, e serve para demonstrar que o tempo para ambiguidades se esgotou. A experiência acumulada em Portugal e no Brasil evidencia que a persistência de projetos de esquerda, centrados em redistribuição sem reformas estruturais profundas, produziu crescimento baixo, perda de competitividade e empobrecimento relativo. Décadas foram consumidas alimentando e administrando a estagnação, bem como expandindo grupos de interesses que dela dependem, e não a superando. O resultado é uma economia presa à armadilha da baixa produtividade, do isolamento comercial, da dependência de setores de baixo valor agregado e da manutenção da pobreza e da dependência deliberadas como projeto de pais.

O resultado das eleições em Portugal

Portugal fez sua escolha nas eleições do último fim de semana ao reafirmar um projeto socialista e, com ele, a aceitação tácita de permanecer na periferia do dinamismo econômico europeu. O Brasil, ao contrário, ainda não decidiu seu destino. Em ano eleitoral, o país tem diante de si uma encruzilhada e uma oportunidade históricas: insistir no anacrônico, corrupto e parasitário modelo lulopetista que normalizou o atraso ou iniciar, finalmente, um ciclo de reformas orientado à produtividade, à integração internacional e à modernização efetiva do Estado.

A eleição de um presidente de direita representa, nesse contexto, mais do que uma alternância ideológica, mas a possibilidade concreta de romper com a lógica do curto prazo, da irresponsabilidade fiscal, do improviso gerencial e do crescimento anêmico, e de recolocar o Brasil na rota do desenvolvimento real, resgatando-o da armadilha da pobreza. Persistir no mesmo modelo é optar conscientemente pela estagnação, pelo empobrecimento relativo e pela irrelevância internacional. Mudar é assumir o risco necessário para avançar, crescer, competir e prosperar.

O Brasil ainda pode escolher sair da periferia do desenvolvimento e recuperar o papel de grandeza que lhe é reservado no sistema internacional de Estados, mas isso exige abandonar modelos que falharam e enfrentar o custo político das reformas. As eleições de outubro não decidirão apenas um governo, mas se o país continuará administrando a pobreza ou se terá a coragem de construir riqueza, futuro e esperança. O tempo da hesitação acabou: ou o Brasil muda agora, ou continuará pagando, por décadas, o preço da covardia. Certamente, não é esse Brasil desorientado de hoje, institucionalmente desarticulado, corrupto, aparelhado e intelectualmente medíocre que queremos para nossos filhos. 

Marcos Degaut é doutor em Segurança Internacional, pesquisador sênior na University of Central Florida (EUA), ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa. 

Autor: Gazeta do Povo

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