O português Ruben Amorim, de sucesso no Sporting nesta década, é o mais recente treinador guilhotinado pelo Manchester United, o maior ganhador do Campeonato Inglês (20 títulos, empatado com o Liverpool).
Desde a saída do lendário Sir Alex Ferguson, escocês que comandou o clube de 1986 a 2013 e ganhou 38 títulos, incluindo 13 Campeonatos Ingleses (Premier League) e duas Champions League, nenhum técnico trouxe satisfação. Foram seis, além de cinco interinos, incluindo o atual (Darren Fletcher).
Houve nomes de peso, como o holandês Louis van Gaal e o português José Mourinho. Nenhum saiu ao término do contrato. Todos foram demitidos no meio do caminho.
Gary Neville, ex-lateral direito dos Diabos Vermelhos na maior parte (1992-2011) da vitoriosa era Ferguson, atualmente comentarista da Sky Sports, cobrou, assim que Amorim caiu, um técnico “com o DNA do clube”.
Na visão dele, o Man United precisa de um comandante que resgate o futebol “rápido, ofensivo, agressivo e empolgante” dos tempos de glória.
Sendo esse o pensamento de Neville, ele já deveria ter reclamado, troca após troca, diretamente com os dirigentes responsáveis pelas contratações desde que Ferguson –”sir” a partir 1999, quando recebeu da rainha Elizabeth 2ª o título de cavaleiro em reconhecimento aos seus extraordinários serviços ao futebol– aposentou-se.
Poucos treinadores fazem suas equipes atuar dessa forma, à la “rock ‘n’ roll”. Os que mais se aproximam, pelo histórico, são o alemão Jürgen Klopp (ex-Liverpool, afastado, por opção própria, da função) e o argentino Marcelo ‘Loco’ Bielsa (atualmente na seleção uruguaia). Em um degrau abaixo, Julian Nagelsmann (seleção alemã) e Eddie Howe (Newcastle).
O Man United pode até tentar um deles, só que ter alguém com “DNA do clube” não é solução garantida. Prova disso foi a fase com Ole Solskjaer, ex-atacante do time que o dirigiu por quase três anos (2018 a 2021).
O norueguês seguia em boa parte a cartilha apregoada por Neville. Talvez por isso tenha durado tanto. Para ficar esse tempo, o futebol tinha que ser, de alguma forma, agradável aos olhos de dirigentes, comentaristas, torcedores. Faltaram títulos, e a cobrança por eles falou mais alto. Rodou.
O que pouca gente sabe é que Ferguson não teve sucesso imediato. Fracassou por quase três anos e meio antes da conquista inicial com o Man United, a Copa da Inglaterra de 1990. A primeira taça do Campeonato Inglês foi erguida em 1993, mais de seis anos depois de sua efetivação. A ele lhe deram continuidade.
E nem sempre os Diabos de Ferguson ganharam atuando com o DNA que Neville define como sendo o do time.
O maior mérito de Sir Alex era embutir nos jogadores a mentalidade vencedora, e fazê-los adaptarem-se rapidamente às circunstâncias de cada partida. Não havia uma tática fixa, imutável, um jeito único de jogar. Havia atitude e coragem, um jeito único de competir. Era isso que fazia do escocês, hoje com 84 anos, um treinador diferenciado. Os títulos vieram como consequência.
Assim, comentaristas que focam a falta de identidade histórica quando um técnico cai em determinado clube, como fez Neville no caso do Man United, acabam por fazer uma análise vaga e superficial.
Não que o DNA não seja um componente a ser tratado. Cada torcedor sabe o quanto é relevante seu time jogar de acordo com seus princípios –no Corinthians, por exemplo, é imperdoável não haver raça.
Faz-se necessário, porém, olhar para trás para verificar que causas estruturais (planejamento malfeito, contratações contestáveis, ânsia por resultados imediatos, falta de estabilidade) são, na verdade, as responsáveis pela contínua inoperância.
Mais que culpa do DNA (que acaba funcionando como uma desculpa), é governança ruim do clube mesmo.
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