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a guerra que nunca acabou

Poucas disputas no mundo carregam tanto peso histórico e ameaça contemporânea quanto a que envolve China e Taiwan. O que começou como uma guerra civil no século XX transformou-se em uma ferida aberta que, mais de sete décadas depois, ainda pulsa e ameaça explodir em escala global.

A crise tem raízes na Guerra Civil Chinesa (1927–1949). De um lado estava o Partido Comunista, liderado por Mao Tsé-Tung; do outro, o Kuomintang, sob comando de Chiang Kai-shek, sucessor de Sun Yat-sen e figura central na tentativa de unificação da China republicana.

A República da China, proclamada em 1º de janeiro de 1912 após a abdicação do último imperador, Pu-Yi, sobreviveu no continente até a vitória comunista em 1949. Derrotado, Chiang recuou para Taiwan – ilha que havia sido colônia japonesa entre 1895 e 1945 e retornara ao controle chinês apenas quatro anos antes – levando consigo cerca de dois milhões de seguidores.

A população continental, exausta pela guerra e sob rígido controle comunista, não reagiu à cisão, enquanto Pequim, sem capacidade naval imediata, adiou a retomada da ilha. Essa ruptura política e territorial permanece como o ponto de partida da dissidência que marca até hoje as relações entre Pequim e Taipé.

Apesar de sua autonomia política e econômica, Taiwan é reconhecida oficialmente por apenas 12 países e pela Santa Sé, mantendo com o restante do mundo relações não oficiais por meio de escritórios de representação. Os Estados Unidos, embora não reconheçam formalmente a independência da ilha, tratam-na como parceira estratégica: compartilham laços comerciais, tecnológicos e de defesa e garantem sua proteção militar por meio do Taiwan Relations Act. Essa ambiguidade diplomática reforça tanto a vulnerabilidade quanto a relevância global de Taiwan.

Desde então, Pequim jamais renunciou à ideia de reunificação. Para o regime comunista, Taiwan não é um Estado independente, mas uma província rebelde que deve, em algum momento, retornar ao seio da pátria. Essa convicção moldou toda a política externa chinesa nas décadas seguintes, transformando a ilha em símbolo da incompletude da revolução de 1949 e em objetivo estratégico permanente.

Se antes a reunificação era apenas uma promessa distante, hoje ela se tornou uma sombra palpável: os exercícios militares de Pequim transformaram a expectativa mundial em vigilância constante, como se a invasão pudesse acontecer a qualquer momento.

A ilha tornou-se, nas últimas décadas, o pulso invisível da modernidade. É ali que se fabricam os semicondutores mais avançados, minúsculos fragmentos de silício que carregam em si a capacidade de mover economias inteiras. Eles são o cérebro oculto da vida contemporânea: sustentam a comunicação que nos conecta, a mobilidade que transforma máquinas em inteligências sobre rodas, a defesa que garante soberania às nações e os cálculos que permitem à ciência e à inteligência artificial expandirem fronteiras.

Por isso, qualquer ameaça à estabilidade da ilha não se limitaria ao estreito de Taiwan. Um bloqueio ou ataque militar seria como desligar, de súbito, a energia de uma cidade global. As cadeias de suprimento se romperiam em cascata, fábricas parariam e produtos antes triviais se tornariam raros. A escassez de chips provocaria uma inflação tecnológica, elevando o custo de tudo que depende deles – dos aparelhos mais simples às máquinas mais sofisticadas.

O impacto não seria apenas econômico. A interrupção da produção taiwanesa comprometeria sistemas de defesa e comunicação, gerando um abalo na segurança internacional. Nações inteiras veriam sua capacidade estratégica enfraquecida, em um mundo cada vez mais dependente da precisão microscópica desses componentes.

E, como consequência inevitável, o planeta poderia mergulhar em uma recessão global, comparável às grandes crises energéticas do século passado, mas desta vez centrada não no petróleo, e sim no coração tecnológico que pulsa em Taiwan. O futuro de Taiwan e da relação com a China se desenha como um tabuleiro de possibilidades, cada uma carregada de riscos e consequências.

No primeiro cenário, o status quo se prolonga. Pequim intensifica sua pressão diplomática e militar, mas evita o confronto direto. A ilha continua a viver sob constante vigilância, como se fosse um navio cercado por águas turbulentas, navegando sem jamais poder baixar a guarda. Esse equilíbrio instável, embora frágil, é o que tem permitido ao mundo respirar sem o temor imediato de uma guerra.

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No segundo cenário, surge o conflito limitado. Pequim poderia recorrer a bloqueios navais, incursões aéreas ou ataques cibernéticos, sem declarar uma invasão aberta. Seria uma guerra de nervos, capaz de paralisar rotas comerciais e provocar choques econômicos globais. O mundo sentiria o impacto como ondas que se espalham após uma pedra lançada ao mar: fábricas paradas, mercados em pânico, governos pressionados por escassez e inflação.

O terceiro cenário é o mais sombrio: o conflito aberto. Uma invasão de Taiwan não seria apenas uma disputa territorial, mas o estopim de uma crise internacional de proporções inéditas. Os Estados Unidos e seus aliados dificilmente permaneceriam inertes, e o planeta poderia assistir ao choque direto entre duas potências nucleares. O resultado seria devastador: além da tragédia humana, o colapso econômico e tecnológico mergulharia o mundo em uma era de incerteza e recessão prolongada. Entre promessas de paz e ensaios de guerra, o mistério chinês paira como uma incógnita sobre o amanhã, mantendo o mundo em suspense diante de um futuro que pode mudar a qualquer instante.

Manoel Augusto do Rêgo Barros de Lima, advogado, coronel da reserva da PMPE, é professor de Direito Constitucional, Internacional e Militar e mestre em Segurança, Paz e Conflitos Internacionais pela USC – Universidade de Santiago de Compostela.

Autor: Gazeta do Povo

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