Entre 2000 e 2025, o Brasil resgatou quase 20 mil trabalhadores das garras da escravidão contemporânea. No entanto, o verdadeiro escândalo não está apenas nos números das vítimas, mas no desfecho vergonhoso dos processos: apenas 4% dos réus foram condenados por todos os crimes. É sobre essa maquinaria de impunidade, que perpetua o ciclo de degradação, que precisamos falar.
Os dados divulgados pela Clínica de Trabalho Escravo da UFMG são um golpe de realidade. Eles não revelam um sistema de Justiça falho, mas sim um sistema que, na prática, funciona. Funciona para quem? Para a engrenagem que transforma seres humanos em mercadoria descartável. Enquanto celebravamos o Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo, o levantamento nos entregava a dura verdade: combater, de fato, nós não estamos. Estamos apenas administrando uma chaga social com a conivência da morosidade e da interpretação branda da lei.
A matemática da impunidade é cruel em sua simplicidade. De 4.321 pessoas processadas:
- 37% foram absolvidas.
- Apenas 4% foram condenadas por todos os crimes.
- As ações penais levam, em média, mais de sete anos para transitarem em julgado.
Esses não são números burocráticos. São a prova documental de um pacto de inoperância. Enquanto um trabalhador resgatado tenta reconstruir uma vida destruída, o processo contra seu algoz se arrasta por uma década, com uma chance estatisticamente maior de terminar em arquivamento ou absolvição do que em uma condenação integral. Que mensagem isso passa ao criminoso? A de que o risco vale a pena. A de que o sistema judiciário é um adversário lento e ineficaz.
O “Ponto Cego” da Justiça: A Busca pela Cadeia no Século XXI
O juiz federal Carlos Borlido Haddad, que coordena a clínica, apontou o dedo diretamente ao Judiciário: “A legislação é magnífica. O problema é a aplicação”. Esta é a raiz do mal. O Brasil possui uma das legislações mais avançadas do mundo na conceituação do trabalho análogo à escravidão, incluindo condições degradantes e jornadas exaustivas. No entanto, nas salas dos tribunais, essa lei grandiosa esbarra em uma visão arcaica.
O levantamento identificou um obstáculo perverso: a exigência, por parte de muitos juízes, de que a vítima prove que foi impedida fisicamente de sair do local, como se estivesse em um cárcere medieval. Ignora-se a essência da escravidão moderna, que não se sustenta por correntes de ferro, mas por correntes de dívida, de desconhecimento, de vulnerabilidade extrema e de terror psicológico. Como esperar que um trabalhador analfabeto, isolado no interior do Pará ou do Maranhão, “comprove” essa coerção nos moldes que a elite jurídica de Brasília ou São Paulo considera válidos?
Essa distorção foi escancarada em um dos casos analisados, onde o réu foi absolvido sob o argumento de que as condições subumanas oferecidas – alojamentos precários, sem saneamento – simplesmente “refletiam a rusticidade do trabalho rural”. Aqui, a Justiça não falhou. Ela foi cúmplice. Ao naturalizar a violência e chamá-la de “costume”, o sistema judiciário institucionalizou a desumanização. É a senha para que a barbárie continue, agora com um carimbo de “inocente”.
As Perguntas que a Notícia Não Faz (e que Devemos Fazer)
Diante desse cenário, a reportagem cumpre seu papel de expor os números. Cabe a nós, agora, ir além e questionar a estrutura que permite que esses números existam.
- Qual o orçamento e a prioridade real dada às varas e promotorias especializadas em combate ao trabalho escravo no Paraná e no país? A morosidade de sete anos é fruto da complexidade ou do despejo de milhares de processos em um número ínfimo de magistrados?
- O que as Escolas da Magistratura, como a Enfam que apoiou o estudo, estão fazendo para desconstruir a visão retrógrada que ainda exige “cadeias” como prova? A formação dos nossos juízes está à altura da crueldade do crime que devem julgar?
- Onde está a responsabilização da cadeia produtiva? A condenação (quando ocorre) atinge o “gato”, o intermediário. Mas quem compra a madeira, o carvão, a soja ou a costura produzida nessas condições? Quando uma grande marca será efetivamente responsabilizada, com penas exemplares, por se beneficiar dessa exploração?
- O caso da Volkswagen, citado na reportagem, pede R$ 165 milhões em danos morais coletivos. Quantas ações como essa, que atacam o cerne financeiro das empresas cúmplices, estão tramitando? O foco ainda está no indivíduo ou já migrou para o sistema que o financia?
O Veredito: Até Quando a Dignidade Será um “Costume Local”?
A conclusão é inevitável e amarga. O combate ao trabalho escravo no Brasil sofre de uma esquizofrenia institucional: de um lado, um Ministério Público do Trabalho ativo e uma legislação robusta; de outro, um Poder Judiciário que, em parte significativa, age como um freio ao invés de um motor na erradicação do crime.
Enquanto a Justiça Federal levar sete anos para concluir um processo e, ao final, absolver o réu sob a justificativa do “costume”, estaremos apenas colhendo estatísticas, não colhendo Justiça. A ferramenta com inteligência artificial que a clínica da UFMG promete é mais do que um painel de dados. É um espelho. Um espelho que mostra, com clareza crua, quem de fato está sendo punido nessa história: a esperança das vítimas e a credibilidade do Estado.
O desafio agora não é só resgatar mais trabalhadores. É resgatar a própria noção de Justiça. Até que as condenações se tornem a regra e não a exceção ínfima de 4%, todo discurso de combate soará como um eco vazio em um tribunal de exceção – a exceção que se faz para proteger o explorador e ignorar o grito do explorado. A pergunta que fica é: temos juízes à altura da lei, ou a lei continua refém de juízes que não entenderam que a senzala do século XXI não tem paredes, mas tem dono, e esse dono precisa, urgentemente, ir para a cadeia?
Sou Leandro Cazaroto e tenho a convicção de que a informação clara e acessível é a base para uma cidadania ativa e consciente. Quando os cidadãos estão bem informados, tornam-se agentes transformadores de sua própria realidade, capazes de participar de forma qualificada das decisões que moldam nosso futuro. Acredito que é através do conhecimento, da transparência e do diálogo baseado em fatos que construiremos um Paraná mais justo, desenvolvido e com oportunidades para todos. Essa não é apenas uma visão, mas um compromisso diário com a verdade e com o poder que cada pessoa tem de fazer a diferença.
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