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A rotina do medo que toda mulher conhece – 05/03/2026 – Priscilla Bacalhau

Uma adolescente de 16 anos vai encontrar seu namorado, de 20 anos, em uma comunidade no Rio de Janeiro. Era para ser um encontro consensual, mas o rapaz tinha outros planos. A jovem foi dopada e violentada por diversos homens, que não tiveram vergonha de gravar a menina desacordada e divulgar o vídeo nas redes sociais.

A notícia poderia ser recente, mas esse caso ocorreu em maio de 2016. Talvez você se lembre da frase mais marcante do depoimento da jovem: “Quando acordei, tinha 33 caras em cima de mim”. É perturbador imaginar que algo assim possa acontecer.

Esse estupro coletivo ocupou os noticiários à época e causou imensa comoção, com repercussão nacional e internacional. A ideia de cultura do estupro foi bastante discutida. O entendimento do estupro como um instrumento de poder e controle social, não apenas um crime sexual individual, vem desde teóricas feministas norte-americanas da década de 1970, mas ecoa em nossa sociedade até hoje.

A sociedade permite que a violência sexual seja normalizada e justificada. Normas sociais contribuem para a tolerância da violência. Isso ocorre por meio de práticas culturais, como o mito de que as vítimas provocam o crime, o descrédito das denúncias e a aceitação de comportamentos masculinos agressivos.

Pesquisa do Ipea de 2014 já mostrava que três quintos da população acreditavam que “se as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupros”. Por que então até freiras estão sujeitas a esse tipo de violência?

E é por conta dessa estrutura social que o caso citado acima está longe de ser um evento isolado. Nos últimos dias, outra denúncia ganhou as manchetes, com características semelhantes. Uma adolescente de 16 anos vai encontrar o namorado, de 17 —o caso ocorreu em Copacabana. A jovem foi surpreendida por outros quatro rapazes, todos maiores de idade, que já estão presos e são investigados pelo crime de estupro.

Se uma década atrás situações como essa levavam milhares às ruas para protestar, hoje milhões de pessoas comentam indignadas nas redes sociais. O fortalecimento do debate público sobre violência sexual, divulgação de imagens das vítimas na internet, responsabilização criminal e políticas de proteção é benéfico para a conscientização, mas a indignação ainda não está refletida nos números.

As notificações de estupro coletivo cresceram a cada ano na década passada, segundo dados do Ministério da Saúde. Em 2019, foram ao menos 14 pessoas por dia que buscaram um hospital e relataram terem sido vítimas de estupro por duas ou mais pessoas. Repito: 14 por dia. A vergonha, o medo de julgamento e o trauma tornam difícil estimar o tamanho da subnotificação.

O tempo passa sem que problemas básicos de proteção contra a violência de gênero sejam resolvidos. A solução envolve políticas articuladas, educação de gênero em todas as escolas, legislação, inclusive de redes sociais, e, principalmente, mudanças nas normas sociais.

Encontrar seu namorado não é seguro, ir a uma festa não é seguro, ficar em casa tampouco. Essas adolescentes tiveram que aprender isso cedo. Ser mulher é não estar segura nunca, é andar constantemente vigilante e desconfiar até da própria sombra.

Feliz Dia Internacional da Mulher para quem?

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Autor: Folha

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