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a urgência de resgatar o país da corrupção

É com vergonha e indignação que assistimos, ano após ano, à deterioração ética das instituições públicas. A sensação recorrente é a de que a máquina estatal foi capturada por grupos que não desejam servir ao país, mas servir-se dele. Executivo, Legislativo e Judiciário acumulam escândalos que revelam um sistema estruturalmente permissivo ao uso privado da coisa pública.

A história recente demonstra que a corrupção não é um desvio isolado, mas uma prática que atravessa diferentes esferas do poder. O escândalo do Mensalão evidenciou um esquema de compra de apoio político com recursos desviados. No Judiciário, o caso do juiz “Lalau” mostrou que até mesmo o poder responsável por julgar pode ser contaminado. No Legislativo, os “Anões do Orçamento” revelaram a captura do orçamento público por interesses particulares. Em todos esses episódios houve investigações e punições, mas também morosidade, recursos intermináveis e a persistente sensação de que as consequências jamais foram proporcionais aos danos causados.

Passar o país a limpo não significa negar as instituições, mas resgatá-las. A Constituição estabelece princípios claros de legalidade, moralidade e eficiência administrativa. O desafio é fazer com que esses princípios deixem de ser meras declarações formais

O padrão se repete: escândalos surgem, chocam a sociedade e, pouco depois, diluem-se na burocracia processual. A mensagem implícita é cruel: para quem ocupa posições de poder, o risco compensa. Enquanto o cidadão comum enfrenta a rigidez da lei por infrações mínimas, os que desviam milhões encontram, no labirinto institucional, um ambiente favorável à impunidade.

Os indicadores reforçam essa percepção. O Brasil permanece mal posicionado nos rankings globais de percepção da corrupção, refletindo a imagem de um país em que a desonestidade no poder se tornou frequente. Não se trata apenas de reputação externa; trata-se de confiança interna. Quando a sociedade deixa de acreditar na integridade das instituições, a própria democracia se fragiliza.

Em democracias consolidadas, suspeitas graves costumam gerar afastamentos imediatos, investigações céleres e responsabilização política, independentemente do desfecho criminal. Aqui, frequentemente assistimos à prescrição de processos, a anulações por tecnicalidades ou à proteção oferecida por mecanismos como o foro privilegiado.

O problema, contudo, não reside apenas nos indivíduos, mas na cultura de tolerância ao privilégio. A vida pública, que deveria representar compromisso com o bem comum, tornou-se, para muitos, instrumento de autopromoção e perpetuação de poder. Redes de influência se sobrepõem ao interesse coletivo. Benefícios desproporcionais, verbas pouco transparentes e práticas eleitorais questionáveis passam a ser tratados como parte do “jogo político”.

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O custo dessa imoralidade é concreto. Recursos bilionários deixam de financiar políticas essenciais. Cada desvio significa menos investimentos em educação básica, saúde preventiva, saneamento, segurança e infraestrutura. Enquanto parte da elite política e burocrática mantém privilégios elevados, a população enfrenta serviços públicos precários e carga tributária elevada.

As consequências são visíveis. O sistema educacional apresenta resultados insatisfatórios em avaliações nacionais e internacionais. A saúde sofre com subfinanciamento e gestão ineficiente. A infraestrutura permanece aquém das necessidades de um país continental. Ainda assim, há profissionais competentes e ilhas de excelência que demonstram que o problema não é incapacidade, mas prioridade e integridade.

Outras nações demonstram que mudanças são possíveis. Países que enfrentaram altos níveis de corrupção reformaram suas estruturas com transparência rigorosa, fortalecimento de órgãos de controle e punição efetiva para agentes públicos envolvidos em irregularidades. A diferença fundamental está na mensagem transmitida à sociedade: ninguém está acima da lei.

No Brasil, ao contrário, sucessivos escândalos parecem gerar anestesia coletiva. A indignação transforma-se em ceticismo, e o ceticismo, em resignação. Esse ciclo precisa ser interrompido. Democracia não pode ser confundida com blindagem corporativa. Ela exige responsabilidade, prestação de contas e igualdade perante a lei.

Passar o país a limpo não significa negar as instituições, mas resgatá-las. A Constituição estabelece princípios claros de legalidade, moralidade e eficiência administrativa. O desafio é fazer com que esses princípios deixem de ser meras declarações formais e se tornem prática cotidiana.

A mudança começa com o voto consciente, que rejeita candidatos com histórico de corrupção, independentemente de ideologia. Prossegue com fiscalização permanente dos eleitos e apoio a uma imprensa livre e investigativa. Exige fortalecimento técnico e independência dos órgãos de controle, redução de privilégios incompatíveis com a realidade social e maior transparência no financiamento de campanhas.

Também é necessário enfrentar distorções estruturais, como o excesso de recursos protelatórios e a ampliação indevida de benefícios que criam castas dentro do serviço público. Reformas institucionais profundas não são simples, mas são indispensáveis para restaurar a credibilidade do sistema político.

O dinheiro público tem dono: o povo. Cada privilégio injustificado, cada decisão orientada por interesses particulares representa menos oportunidades para milhões de brasileiros. Quando a corrupção se naturaliza, o desenvolvimento estagna, a inovação perde espaço e a confiança social se dissolve.

Não precisamos de soluções messiânicas nem de salvadores da pátria. Precisamos de instituições que funcionem, lideranças comprometidas com o interesse coletivo e uma sociedade que não tolere desvios éticos como parte inevitável da política. A estabilidade democrática depende da integridade de seus agentes.

O Brasil só avançará de forma consistente quando a ética deixar de ser discurso e se tornar condição inegociável para o exercício do poder. A reconstrução institucional começa quando a sociedade decide que a corrupção não será mais tolerada como traço cultural, mas enfrentada como obstáculo ao futuro.

Renato de Sá Teles é professor universitário na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e doutor em Matemática Aplicada.

Autor: Gazeta do Povo

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