A assinatura do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, formalizada em Assunção, recolocou o Paraguai no centro do noticiário regional e internacional. O gesto diplomático, resultado de mais de duas décadas de negociações, ocorreu na capital paraguaia por um motivo institucional: o país exerce, neste período, a presidência rotativa do bloco. Ainda assim, o evento extrapolou os salões oficiais e ganhou contornos simbólicos nas redes sociais, onde comentários ufanistas e irônicos passaram a circular como se o ato representasse uma virada de protagonismo geopolítico no Cone Sul.
Fora do ambiente virtual, porém, o impacto imediato do acordo é outro. O tratado ainda depende de ratificação pelos parlamentos nacionais dos países envolvidos para entrar em vigor, o que significa que seus efeitos econômicos permanecem no campo das expectativas. Analistas apontam que, quando implementado, o acordo pode ampliar o acesso de produtos agrícolas do Mercosul ao mercado europeu e, ao mesmo tempo, intensificar a concorrência de bens industrializados da União Europeia na América do Sul. Para o Brasil, maior economia do bloco, o saldo tende a ser heterogêneo, variando conforme o setor produtivo. Para o Paraguai, o simbolismo de sediar a assinatura reforça a imagem de inserção internacional, mas não altera, por si só, as condições estruturais da economia.
É justamente nesse ponto que a realidade da fronteira impõe um contraste. Enquanto o discurso da integração ganha fôlego nos fóruns diplomáticos, empresários paraguaios voltaram a cobrar soluções urgentes para um problema cotidiano: o trânsito na Ponte da Amizade, ligação entre Ciudad del Este e Foz do Iguaçu. A principal queixa é a falta de fluidez em uma das travessias internacionais mais movimentadas da América do Sul, onde carros, ônibus de turismo, pedestres e caminhões disputam o mesmo espaço em uma estrutura projetada para um volume de tráfego muito inferior ao atual.
Representantes do comércio e de serviços de Ciudad del Este afirmam que o congestionamento deixou de ser episódico e passou a integrar a rotina da fronteira. Caminhões aguardando liberação aduaneira frequentemente ocupam a ponte ou seus acessos, reduzindo faixas de circulação e provocando filas que se estendem por quilômetros. A situação é agravada pela sobreposição de fiscalizações dos dois países, com paradas sucessivas que ampliam o tempo de travessia e tornam imprevisível o deslocamento diário de trabalhadores, consumidores e turistas.
O impacto econômico é direto. Lojistas relatam perda de vendas diante da desistência de compradores que evitam enfrentar longas filas, operadores de turismo ajustam rotas e horários, e o custo logístico do transporte de mercadorias aumenta com caminhões parados. O efeito se espalha pelos dois lados da fronteira, atingindo também o comércio e a rede de serviços de Foz do Iguaçu, o que reforça o caráter binacional do problema.
Nesse contexto, ganha força a cobrança pelo uso pleno da Ponte da Integração, construída justamente para desafogar a Ponte da Amizade e separar o tráfego pesado do fluxo urbano e turístico. Embora a infraestrutura esteja pronta, empresários apontam entraves operacionais e alfandegários que ainda limitam sua utilização regular, transformando uma solução planejada em um recurso subaproveitado.
A coincidência temporal entre a assinatura do acordo Mercosul–União Europeia e a intensificação das reclamações sobre o trânsito expõe uma contradição recorrente na integração regional. De um lado, discursos e cerimônias projetam um futuro de mercados ampliados e circulação facilitada; de outro, a principal porta terrestre entre Brasil e Paraguai permanece marcada por gargalos logísticos elementares. Para o setor produtivo da fronteira, a equação é simples: sem fluidez no deslocamento de pessoas e mercadorias, a integração permanece mais retórica do que prática.
Assim, enquanto Assunção celebra um acordo de alcance global ainda em fase de tramitação, a Ponte da Amizade segue como termômetro da integração real entre os países. O contraste entre a diplomacia e o cotidiano da fronteira revela que, antes de colher os frutos de tratados internacionais, Brasil e Paraguai ainda precisam resolver problemas básicos de circulação — sob pena de ver a promessa de integração travada, mais uma vez, no congestionamento diário sobre o rio Paraná.
Créditos: Redação
Autor: Agencia Paraná







