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Agentes do SUS inspiram reforma na Inglaterra – 03/02/2026 – Equilíbrio e Saúde

Um dos pilares da atenção básica no Brasil, os agentes comunitário de saúde (ACS), está ajudando a redesenhar políticas públicas no sistema de saúde da Inglaterra, o NHS (National Health Service), o mesmo que inspirou a criação do SUS (Sistema Único de Saúde) em 1988.

No Brasil, o programa de ACS, profissionais que atuam de forma contínua dentro das comunidades, realizando visitas domiciliares, acompanhando famílias e conectando a população aos serviços de saúde e assistência social, foi criado em 1991 e incorporado à ESF (Estratégia Saúde da Família) em 2006.

A partir de 2023, o modelo passou a inspirar iniciativas do NHS voltadas ao enfrentamento de desigualdades no acesso à prevenção e ao cuidado primário. A iniciativa tem sido promovida e defendida nos últimos 20 anos pelo pesquisador Matthew Harris, professor de saúde pública do Imperial College London, que foi médico de família no SUS entre 1999 e 2003 e desde então pesquisa sobre o assunto.

Um estudo de pesquisadores da Fiocruz e do Imperial College London publicado na revista Nature Health nesta terça-feira (3) mostra que famílias visitadas pelos agentes comunitários ingleses apresentaram aumento de 40% no uso de serviços preventivos, com alta de 47% na vacinação e de 82% na realização de exames de rastreamento e check-ups. Houve queda de 7,4% em atendimentos médicos não programados.

A experiência tem chamado a atenção por inverter a lógica tradicional da cooperação internacional em saúde: em vez de importar soluções de países ricos, o Reino Unido tem buscado aprender com uma política pública de um país de renda média, marcado por profundas desigualdades sociais e territoriais.

A adoção do modelo ocorre em um momento de forte pressão sobre o sistema de saúde inglês. O NHS enfrenta desafios relacionados ao envelhecimento da população, à escassez de profissionais, aos efeitos prolongados da pandemia de Covid-19 e às políticas de austeridade implementadas desde 2008.

Apesar de um orçamento anual de £165,9 bilhões, o equivalente a R$ 1,19 trilhão (quase cinco vezes o orçamento federal para a saúde brasileira), o sistema inglês convive com problemas como longas filas de espera, gargalos na atenção primária e dificuldades para ampliar ações de prevenção. Nos últimos anos, a Inglaterra registrou aumento de doenças evitáveis por vacina, como sarampo e caxumba, além de baixa adesão a programas de rastreamento de câncer.

Para Alessandro Jabotá, primeiro autor do estudo, coordenador-adjunto do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz e responsável pelo braço brasileiro da parceria com o Imperial College, há diferenças importantes entre os dois modelos, como a lógica de acesso ao sistema de saúde.

Hoje, o fluxo assistencial do NHS é muito reativo: a pessoa procura o serviço de saúde quando já está com um problema. Já a Estratégia Saúde da Família funciona de forma pró-ativa, com equipes responsáveis por um território definido, que buscam acompanhar as pessoas antes que a doença se agrave.

“Um desafio que está sendo enfrentado pelo NHS é o de subverter o fluxo assistencial para torná-lo mais parecido ao nosso”, diz Jatobá. Ele afirma que não é só a visita domiciliar do agente comunitário que conta, mas sim todo um modelo de organização do cuidado, que inclui mapeamento do território e compreensão de quais são as barreiras físicas e socioeconômicas de acesso daquela pessoa.

No Brasil, a cobertura dos ACS passou de 3,4 agentes por mil habitantes em 2008 para 13,5 por mil em 2024. Estudos mostram uma associação entre essa expansão e a redução de internações por condições sensíveis à atenção primária, como hipertensão e diabetes. Também há evidências de melhora no acesso ao pré-natal e em indicadores de saúde materna, especialmente em áreas muito vulneráveis.

Embora os pesquisadores ressaltem que essas associações não comprovam causalidade direta, os dados indicam que a presença territorial dos agentes fortalece o SUS ao facilitar o diagnóstico precoce, o acompanhamento de doenças crônicas e a adesão a tratamentos, além de ajudar a superar barreiras geográficas, culturais e sociais.

“Existe uma dimensão muito forte de vínculo”, diz Jabotá. “O agente comunitário conhece o território, entende as barreiras físicas e socioeconômicas que aquela família enfrenta e, a partir dessa relação de confiança, consegue promover saúde de forma contínua.”

O NHS passou a testar equipes de community health workers (CHWs) em regiões vulneráveis, como bairros de Londres e áreas do sul da Inglaterra. Esses profissionais realizam visitas domiciliares mensais, atuam de forma proativa e constroem vínculos contínuos com as famílias.

Sempre que possível, os novos trabalhadores são recrutados nas próprias comunidades. “A ideia é replicar o modelo brasileiro, inclusive contratando pessoas que já vivem nesses territórios, para facilitar o vínculo”, explica Jabotá.

A experiência, segundo o pesquisador, também tem revelado uma demanda reprimida. “Quando você amplia o acesso, aparecem pessoas que o sistema não enxergava. Isso pressiona um sistema que já operava no limite, mas é um passo necessário para reduzir desigualdades”, afirma.

Em 2025, o governo britânico incorporou oficialmente os CHWs —apelidados de “Chewies”— ao Plano Decenal de Saúde, uma estratégia abrangente do governo britânico para reformar o NHS nos próximos dez anos, reconhecendo o papel desses profissionais nas equipes de saúde de bairro.

Especialistas alertam, no entanto, que o sucesso do modelo depende de integração sistêmica. No caso inglês, os agentes ainda não estão formalmente inseridos em equipes de saúde da família, como ocorre no Brasil. Eles se reportam aos GPs (General Practitioners, ou clínicos gerais/médicos de família).

“Hoje eles não fazem parte de um arcabouço estruturado de atenção primária. Para que o impacto seja sustentável, isso precisa virar política de Estado, com financiamento estável”, diz Jabotá.

Ele ressalta que, diferentemente do Brasil, onde os agentes comunitários estão previstos na Política Nacional de Atenção Básica e contam com orçamento próprio, no Reino Unido muitos projetos ainda dependem de arranjos locais e financiamento complementar.

O intercâmbio com os ingleses, segundo Jabotá, também traz lições para o Brasil. “Eles têm sistemas de informação muito mais integrados, fluxos de encaminhamento entre os níveis de atenção mais organizados e maior transparência nas filas de espera. Esse aprendizado é bidirecional.”

O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde

Autor: Folha

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