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Algo de podre no reino da Dinamarca – 24/01/2026 – Antonio Prata

Desde que o Trump resolveu afanar a Groenlândia, venho tendo sonhos intranquilos. Em meus pesadelos não vejo só as bombas derretendo o gelo, as relações multilaterais e minha esperança no futuro da humanidade. Vejo, principalmente, no meio da ilha, coberto de neve e incrustrado nas tais famigeradas terras raras, um enorme “N” de cuja existência jamais desconfiei. Explico: por mais de quatro décadas eu disse, escrevi e pensei “Groelândia”. Quase meio século de ignorância —e para piorar a constatação, não menos dolorosa, de que aprendi algo com Donald Trump.

Uma rapidíssima pesquisa e aprendo que o nome Groenlândia (“Greenland”, terra verde) veio de um mega golpe imobiliário dado há mais de um milênio. Em 985 DC, um assassino chamado “Erick, o vermelho” foi expulso da Islândia (“Iceland”, terra do gelo) e exilou-se na região que agora um assassino chamado “Donald, o laranja”, quer conquistar. Ao voltar pra casa, tempos depois, Erick decidiu pegar mais leve no crime e —como quem troca o destilado pelo fermentado— deixou o homicídio para abraçar o estelionato. Erick provavelmente havia adquirido uns lotes naquela imensidão gelada e tentou convencer o pessoal a mudar de ilha dizendo que lá a “land’ era todinha “green”. Uma espécie de “em se plantando, tudo dá”, 500 anos antes do Pero Vaz. Isso tudo, porém, não tem a menor importância. Importa é que, já tendo ultrapassado o equador de minha vida, descobri este insuspeito N perdido no círculo polar ártico.

Choque parecido (foneticamente, inclusive) tive anos atrás ao me dar conta de que não era “chipanzé” que se chamava o primata, mas “chimpanzé”. Se a Groenlândia ocultava um N no meio da ilha, o macaco tinha um M no fundo do umbigo. “Chimpanzé”: conheço poucas palavras mais destrambelhadas. (Leio no dicionário que “chipanzé” também está correto, mas que bonito, chique mesmo é “chimpanzé”.)

Anteontem, após muita reflexão, descobri a razão de me faltarem este N e este M em “Groelândia” e “Chipanzé”: eu os havia gastado em “abdômen” e “sombrancelha”. Sempre falei, escrevi e pensei abdômen. Aí, do dia pra noite, todo mundo começou a falar abdome. Abdome parece um erro, tipo “Lobisome”. (Novamente, contudo, o dicionário afirma que as duas grafias são aceitas, mas que bonito, chique mesmo é “abdome”).

Chegamos, então, à “sombrancelha”. A constatação de que eu não trazia esse M sobre os olhos foi a mais dolorosa das revelações ortográficas. Afinal, não foi apenas a letra que despencou pela pálpebra, resvalou nos cílios, quicou na maçã do rosto e estatelou-se no chão: toda a sombra que a “sombrancelha” proporcionava desapareceu e a luz do conhecimento cegou-me a vista. Então as “sombrancelhas” não eram tipo umas viseirinhas perfeitamente desenvolvidas pela seleção natural para nos dar o conforto de um Ray Ban? Não, não eram. Têm esse nome por estarem “sobre” os “cílios”, explicação tão plausível quanto sem graça.

Agora mesmo, enquanto soldados dinamarqueses caminham atentos pela Groenlândia, eu piso em ovos na última flor do Lácio. Falo “semblante” e logo penso: e se for “seblante”? Lembro da Rapunzel e me questiono: e se for “Rampunzel”?

Nem sei por que ainda me impressiono com essas coisas. Devia ter aprendido que a vida nos guarda surpresas quando, lá pelos sete anos, descobri que não era “célebro” nem “pírula”.

Quer saber? Se um dia eu for ditador não vou invadir a terra de ninguém, mas promover uma ampla migração ortográfica. Pílula vai ser “pírula”, cérebro vai ser “célebro” e imprimirei milhões de bonés com a frase “Make sombrancelha com M again”. É isso aí, sem sombra (nem sobra) de dúvidas.

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Autor: Folha

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