Se alimentar bem vai ficar mais caro em 2026. É o que indica uma pesquisa realizada pela UFMG em parceria com o Idec (Instituto de Defesa de Consumidores), que mostra que o preço dos alimentos in natura ou minimamente processados vai superar pela primeira vez os preços dos alimentos ultraprocessados. A projeção foi feita com base nos preços de alimentos desde a pandemia de Covid-19, em 2020.
A nutricionista e pesquisadora do Idec, Ana Maria Maya, explica que o preço dos alimentos é definido por uma série de fatores, como transporte, armazenamento, combustível, entre outros. Os alimentos ultraprocessados têm uma logística de distribuição mais fácil, além de serem baseados em commodities, como milho e soja, que têm incentivos fiscais.
“Muitos profissionais de saúde diziam que ter uma alimentação saudável era uma questão de escolha”, diz a nutricionista. “Mas isso não é verdade. Em uma população socioeconomicamente vulnerável, como o Brasil, precisamos considerar que o custo vai ser determinante para as escolhas alimentares“.
O professor de economia e doutor em Desenvolvimento Econômico, Valter Palmieri Jr., diz que o índice de informalidade e instabilidade financeira também são determinantes na dieta. “Quando os preços dos alimentos sobem, famílias mais vulneráveis perdem liberdade de escolha alimentar, o que reduz a variedade da dieta e aumenta a ansiedade em relação à comida, criando um ambiente propício ao sofrimento psíquico associado à alimentação“.
Além disso, o ambiente econômico, cultural e social incentiva o consumo de ultraprocessados, explica Valter. Não apenas pelo preço, mas também pela facilidade de acesso e pelo marketing. Ao mesmo tempo, estimula a busca por um modelo de corpo idealizado e irreal. “São incentivos contraditórios, que ampliam lucros, mas geram custos ocultos e pioram nossa relação e nosso comportamento com a comida”.
A psiquiatra, pesquisadora e colaboradora do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso (PRO-AMITI) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, Nicole Rezende, também lembra que alimentos ultraprocessados têm potencial adictivo: são desenvolvidos para serem hiperpalatáveis; têm alto teor de açúcar, sal, gordura e aditivos químicos, fazendo com que se tornem difíceis de resistir.
“Quanto mais fácil acessar um produto processado, com um ambiente que facilita isso, mais automáticas se tornam essas escolhas e pode-se observar um padrão semelhante ao das dependências químicas, em que a pessoa tenta reduzir o consumo mas não consegue. O cérebro fica muito exposto realmente a pistas que disparam essa vontade o tempo todo”. Isso aumenta o risco de compulsão e a sensação de perda de controle, diz.
Entretanto, é preciso cuidado para não demonizar os alimentos. “Isso pode gerar uma moralização, como se comer fosse errado, em vez de focar os alvos reais, que seriam design do produto, marketing, disponibilidade e custo”, diz Nicole. Esse pensamento de ‘tudo ou nada’ gera sofrimento e alimenta um ciclo de restrição, fissura, perda de controle e mais culpa”.
Para contornar essa situação, a solução seriam políticas públicas de incentivo a alimentos in natura ou minimamente processados, diz Ana Maria. Entretanto, apesar da pressão da sociedade civil e terceiro setor, a recente reforma tributária instituiu o “imposto do pecado” apenas a bebidas adocicadas e alcoólicas, sem estipular incentivos que diminuam o consumo de ultraprocessados.
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