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Angola chega aos 50 anos com governo desgastado – 11/11/2025 – Mundo

A presença da seleção da Argentina, campeã do mundo, para um amistoso com Angola na próxima sexta-feira (14) promete ser a apoteose de um calendário repleto de celebrações dos 50 anos da independência do país africano.

No poder 100% do tempo desde a separação de Portugal, ocorrida em 11 de novembro de 1975, o partido MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), que há muito abandonou suas raízes marxistas em nome de um capitalismo de compadrio, aposta alto no sentimento patriótico para resgatar algo de sua popularidade, sobretudo entre os mais jovens.

Nem as críticas ao custo exorbitante para receber a equipe de Lionel Messi, que chegaria ao equivalente a R$ 76 milhões, demovem o governo de exaltar a unidade nacional e celebrar mais de duas décadas de paz.

Estão programados nada menos que 126 eventos alusivos ao cinquentenário, com foco na união nacional, além de um hino oficial das celebrações e um videoclipe com artistas se revezando no estilo “We are the World” e refrão que diz “tudo por Angola, ela é minha, ela é tua, ela é nossa Angola”.

O governo também condecorou postumamente todos os líderes de grupos armados que lutaram pela independência contra as forças portuguesas e depois estiveram em lados opostos na guerra civil, incluindo o demonizado Jonas Savimbi, da Unita (União Nacional para a Independência Total de Angola), facção apoiada pelas forças do apartheid sul-africano.

Angola, com 39 milhões de pessoas, foi um dos palcos da Guerra Fria, e o longo conflito civil só se encerrou totalmente em 2002, mas ainda molda a sociedade em diversos aspectos.

“A guerra tornou o sistema político autocrático, e infelizmente Angola não se livrou totalmente deste mal. Eu chamaria o sistema de um autoritarismo eleitoral, que permite a existência de partidos e promove eleições, mas mantém o controle institucional nas mãos do governo”, diz Paulo Inglês, diretor do Departamento de Altos Estudos e Formação Avançada da Universidade Jean Piaget, em Luanda.

As amarras políticas, as frequentes denúncias de corrupção e a economia sujeita à instabilidade do petróleo, responsável por 30% do PIB e 95% das exportações, têm gerado uma panela de pressão sobretudo entre a população jovem. Os recentes protestos da chamada geração Z em locais como Madagascar e Quênia pairam sobre a envelhecida elite política do MPLA.

Em julho, houve atos na capital que se iniciaram como manifestações de motoristas de vans, principal meio de transporte do país, contra o aumento do preço dos combustíveis. Rapidamente transformaram-se em manifestações generalizadas contra o governo, levando à repressão por parte do Estado. Pelo menos 22 pessoas morreram, e 1.200 ficaram feridas antes que a onda fosse controlada.

“O desemprego juvenil é uma bomba-relógio social. A juventude urbana está mais conectada, consciente e exigente. Sem oportunidades tangíveis, a mobilização social é apenas uma questão de tempo”, afirma Carlos Lopes, professor da Escola Nelson Mandela de Governança Pública da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul.

O desemprego na faixa etária de 18 a 24 anos passa de 50%, a informalidade é alta, e 33% vivem abaixo da linha de pobreza. O país deve crescer apenas 2% em 2025, patamar distante da euforia verificada na primeira década deste século. Na época, o bônus econômico trazido pela paz, o impulso das obras de reconstrução de infraestrutura e os preços altos do petróleo levaram a saltos anuais do PIB de até 15%.

Angola viveu uma bolha de grandes obras viárias, construção de arranha-céus e muita corrupção. Empreiteiras brasileiras, com a Odebrecht à frente, se destacavam como parceiras do regime do então presidente, José Eduardo dos Santos.

Durante 38 dos 50 anos de Angola, ou 76% do período de existência como país independente, Dos Santos comandou uma oligarquia apoiada fortemente em uma casta de militares que impedia a renovação política e tinha negócios em diversos setores do Estado.

Em 2017, desgastado pela corrupção e pela estagnação econômica, ele deixou o poder para o atual presidente João Lourenço, que, apesar de ser do mesmo MPLA, prometeu novos ares.

Encorajados, Ministério Público e Judiciário fizeram uma ofensiva contra os negócios do ex-presidente e de sua família, em uma operação com ecos da Lava Jato. Mas, assim como sua congênere brasileira, ela acabou produzindo mais pirotecnia do que mudanças estruturais.

“Houve um combate seletivo à corrupção. Foi muito mais um instrumento de silenciamento dos adversários políticos”, diz Inglês.

Analista portuguesa especializada em Angola, Paula Cristina Roque concorda e diz que a “corrupção apenas mudou de mãos”.

Ela vê como ponto positivo das últimas décadas o surgimento de uma sociedade civil “vibrante e destemida”. “Isso é um avanço enorme. Temos imprensa, jornalistas e plataformas que criam vozes dissidentes de propaganda oficial”, afirma ela, autora do livro “Governando nas Sombras”, sobre o aparato de segurança do país.

O lado inverso da moeda, diz Roque, é que essa opinião pública mais atuante gera um movimento de reação de uma elite que prioriza sua sobrevivência.

“Angola é um país muito militarizado, mesmo que não estejamos mais em guerra. Você percebe o governo com medo de uma sociedade cada vez mais vocal”, afirma a analista, diretora-executiva da Intelwatch, entidade que monitora regimes autocráticos africanos.

Analistas são unânimes em apontar que o país precisa de duas reformas que caminham juntas: descentralização política e diversificação econômica.

“A saída passa por políticas mais consistentes de industrialização, apoio ao agronegócio e às pequenas e micro empresas, melhoria do ambiente de negócios e investimento em capital humano. São áreas em que o país ainda caminha lentamente”, diz Lopes.

Para que isso ocorra, no entanto, o MPLA tem de deixar de ser um “partido-Estado”, em que até governadores provinciais são nomeados pelo comitê central da legenda, já que não há eleições para esta esfera.

“Os governos locais poderiam oferecer um contraponto ao poder central, mas não têm autonomia”, diz Paulo Inglês.

Para os analistas consultados pela Folha, a próxima eleição presidencial, em 2027, será crucial para evitar que o país colapse. O atual presidente não poderá concorrer novamente, e já se veem sinais de divisão entre as diversas facções do MPLA. Será uma rara oportunidade para um candidato de oposição chegar ao poder e completar a transição democrática angolana.

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