Durante anos, os grandes pensadores do Vale do Silício disseram que muitas indústrias seriam permanentemente alteradas pela inteligência artificial. Radiologistas ficariam sem emprego. Advogados deixariam de redigir petições e contratos. E Wall Street não precisaria de tantos banqueiros.
Não está claro se essas previsões de destruição de empregos vão se concretizar. O desemprego entre jovens que estão entrando no mercado de trabalho aumentou, mas o quadro geral de emprego não mudou muito. Radiologistas ainda estão trabalhando. Advogados ainda escrevem contratos — ou pelo menos é o que dizem. Os bônus em Wall Street estão atingindo níveis recordes.
Mas, quase quatro anos depois que a OpenAI deu início ao boom da IA com seu chatbot ChatGPT, o único setor que está indiscutivelmente sendo transformado por essa mudança tecnológica é a própria indústria de tecnologia.
Está ficando claro que os trabalhadores de tecnologia têm construído seus próprios substitutos em IA. Os modelos de negócios lucrativos das empresas de software também estão ameaçados pela IA. Até a forma como as empresas são criadas está sendo virada do avesso, à medida que pequenas equipes usam IA para desenvolver aplicativos e softwares que, há poucos anos, exigiriam dezenas de programadores qualificados.
“O Vale do Silício é, neste momento, uma espécie de laboratório fascinante de todas essas mudanças e transformações”, disse Aaron Levie, CEO da Box, uma empresa que desenvolve software para armazenamento e gerenciamento de dados.
A IA generativa criada por empresas como OpenAI, Anthropic e Google pode fazer muitas coisas. A tarefa em que ela se tornou particularmente boa é a programação de computadores. Isso deu a muitas empresas de tecnologia a oportunidade de começar a “enxugar a casa”, mesmo que os executivos evitem dizer isso explicitamente.
“Se você acha que a IA é essa pílula incrível de produtividade, então simplesmente use a pílula, não demita ninguém e dobre sua receita”, disse Ted Egan, economista-chefe da cidade e do condado de San Francisco. “Mas definitivamente não é isso que eles estão fazendo.”
Até agora neste ano, mais de 70 empresas de tecnologia eliminaram pelo menos 40 mil empregos, segundo o Layoffs.fyi, que acompanha cortes de pessoal no setor. A Block, empresa de serviços financeiros dona do Square, Cash App e Tidal, demitiu 40% de sua força de trabalho em fevereiro —cerca de 4.000 funcionários.
“Já estamos vendo que as ferramentas de inteligência que estamos criando e usando, combinadas com equipes menores e mais enxutas, estão possibilitando uma nova forma de trabalhar que muda fundamentalmente o que significa construir e administrar uma empresa”, escreveu Jack Dorsey, principal executivo da Block, em uma postagem nas redes sociais.
Outras empresas disseram que estão demitindo trabalhadores para financiar seus esforços em IA, à medida que o custo de desenvolver e operar essa tecnologia continua aumentando. Em março, a Atlassian, que produz software de colaboração no trabalho, cortou 10% de sua equipe —cerca de 1.600 funcionários— “para financiar internamente mais investimentos em IA”.
“Nossa abordagem não é ‘a IA substitui pessoas’”, escreveu Mike Cannon-Brookes, CEO da Atlassian, em um post de blog. “Mas seria desonesto fingir que a IA não muda o conjunto de habilidades de que precisamos ou o número de funções necessárias em certas áreas. Ela muda.”
Os líderes das maiores empresas de tecnologia também disseram que a IA vai remodelar suas forças de trabalho. Em junho, o CEO da Amazon, Andy Jassy, afirmou que a empresa operará com menos funcionários corporativos ao longo do tempo. Em janeiro, Mark Zuckerberg, CEO da Meta, disse: “Estamos começando a ver projetos que antes exigiam grandes equipes sendo realizados por uma única pessoa muito talentosa.” Isso deixou muitos funcionários preocupados com demissões.
As demissões também contribuíram para que polos de tecnologia como San Francisco —sede da OpenAI e da Anthropic— não estejam registrando o crescimento de empregos típico de ciclos anteriores, disse Egan. De 2022 a 2025, segundo os dados mais recentes disponíveis, o condado de San Francisco perdeu cerca de 30 mil empregos em tecnologia, de acordo com o Census Bureau. Esse número é semelhante ao total de empregos que foram criados durante a era das empresas ponto-com e a onda de investimentos em startups entre 2020 e 2022.
Esse declínio também é visível no restante dos Estados Unidos. A nível nacional, os empregos em tecnologia caíram cerca de 150 mil entre 2022 e 2025.
“A força de trabalho e o pool de talentos em tecnologia estão definitivamente se reorganizando”, disse Egan. “A IA é uma grande razão para isso.”
Mas Levie disse que o impacto da IA na tecnologia pode não servir de modelo para o que acontecerá em outras indústrias. Um desenvolvedor de software sabe rapidamente se um código gerado por IA funciona, enquanto a eficácia das criações de IA em outros setores, como o jurídico, pode ser muito mais subjetiva.
Parte dessa reorganização da tecnologia está acontecendo nas startups. Ficou para trás o processo tradicional de captar grandes volumes de capital de risco, não se preocupar com receita ou lucro e contratar em massa. As startups atuais estão recorrendo a ferramentas de IA, como agentes —assistentes pessoais capazes de agir de forma autônoma— para gerar receita e crescer com menos funcionários.
Agora, “uma empresa de software pode lançar vários agentes, e cada um pode fazer o trabalho de 10 a 20 funcionários”, disse Priya Saiprasad, investidora da Touring Capital.
Também está em declínio o modelo de negócios que se tornou a base de um setor chamado “software como serviço” (SaaS), no qual os clientes pagam assinatura para usar aplicativos pela internet, em vez de comprá-los e instalá-los em seus próprios computadores.
Nas últimas três décadas, fornecedores de software cobraram das empresas com base no número de funcionários que usavam seus programas —e desfrutaram de crescimento constante de receita à medida que essas empresas cresciam. Esse modelo, conhecido como cobrança “por usuário”, foi central para gigantes de tecnologia como Salesforce, que produz software de vendas e marketing, e ServiceNow, que automatiza processos corporativos.
Mas esse modelo está ameaçado pela IA. Ele “se baseia na ideia de que, se uma empresa vai bem, precisa de mais funcionários”, disse Saiprasad. “A ironia é que, neste mundo de IA, isso não significa necessariamente sucesso”, já que empresas de crescimento rápido podem expandir adicionando agentes de IA em vez de contratar pessoas.
Alguns fornecedores de software já preveem que a IA automatizará certos trabalhos, o que reduzirá o número de funcionários de seus clientes —e, portanto, de usuários de seus produtos. Outros estão adicionando recursos de IA que exigem mais capacidade computacional e são mais caros de oferecer. E todos enfrentam concorrência de ferramentas de IA de código aberto, gratuitas, que podem substituir seus produtos.
“No momento, com a IA, estamos no Velho Oeste”, disse Alex Zukin, analista de software da Wolfe Research. Fornecedores de software e seus clientes estão “em um estado de experimentação massiva e simultânea”.
Um modelo de negócios em teste, chamado de cobrança “por uso” (ou “por consumo”), cobra dos clientes com base na quantidade de uso do software. Outro modelo, conhecido como cobrança “por resultado”, cobra apenas quando o software conclui uma tarefa.
Mas nenhum modelo emergiu como vencedor claro. Isso se deve, em parte, a uma questão ainda sem resposta: “Como definir um resultado?”, disse Akash Bhatia, responsável pelo setor de tecnologia do Boston Consulting Group. “Isso é muito complicado.”
Essa mudança assustou Wall Street. Desde outubro, preocupações com a IA apagaram cerca de US$ 3 trilhões em valor de mercado de empresas de software —cerca de um terço do valor do setor de software do índice S&P 500. Neste ano, as ações da Salesforce e da ServiceNow já caíram cerca de 30%.
“Este era um setor que as pessoas acreditavam ser extremamente durável e que, uma vez conquistado um cliente, esse relacionamento duraria um, três, cinco, dez anos”, disse Zukin. “Agora, com as mudanças acontecendo, você nem sabe o que vai acontecer em dois meses.”
Autor: Folha








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