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Após enganações, recuperei confiança da minha mãe – 09/02/2026 – Vida de Alcoólatra

Durante um bom tempo, sempre que minha mãe falava comigo eu notava certo desgosto. O sentimento não era explícito, as palavras não revelavam o dissabor, mas ele estava no tom de sua voz, na expressão cansada, na maneira como ela bufava antes de me responder. Ou no breve silêncio que precedia sua resposta. A contrariedade era palpável.

Foram tantas enganações, tantos perrengues, acidentes e situações constrangedoras causadas pelo álcool que, aos poucos, a nossa relação foi se desgastando. O olhar dela, muitas vezes carregado de raiva e decepção, me atravessava. Eu ficava dividida entre a culpa e o vazio deixado pela perda simbólica de uma figura que sempre foi fundamental para mim. Às vezes, eu até ensaiava um “eu te amo”, mas ela não dava muita bola, como se as palavras já tivessem esvaziadas de sentido. Alice, teu nome é trucagem — era isso que ela me parecia comunicar.

A casa dela sempre foi um paraíso para mim, com um bar ao lado do sofá. Tendo as garrafas tão disponíveis, era fácil dar um ou outro trago. Eu nem escolhia a bebida, podia ser qualquer uma, o importante era beber. Muitas vezes, eu tinha apenas alguns segundos para virar um gole sem que ninguém notasse. Se me pegassem em flagrante, era uma gritaria. Minha mãe se sentia desautorizada, dizia que eu não tinha um pingo de respeito. E, no fundo, talvez eu até tivesse algum, mas o meu alcoolismo não tinha nenhum caráter. Ele não negociava, não se explicava, não respeitava limites. Sua sanha era beber.

Isso sem falar dos mimos de viagem que eu consumi tanto na casa dela quanto na casa da minha avó. Garrafinhas guardadas como lembrança viravam motivo de tristeza quando eram encontradas vazias. Cada descoberta era mais uma ferida aberta.

Em meio a tudo isso, eu também me encontrava com meu pai. (Se é a primeira vez que você me lê, explico: meus pais se separaram quando eu tinha 17 anos.) Sabendo do que eu aprontava na casa da minha mãe, ele me pedia para não beber escondido. Acho que, no fundo, era uma tentativa desesperada de me fazer parar, de me responsabilizar. Se queria beber, que pedisse, ele dizia. Na primeira vez que ele deu esse conselho, não tive dúvida: pedi uma cerveja na mesma hora. Ele, evidentemente, não me deu.

Tudo isso aconteceu há quase dez anos, mas ainda hoje sonho que minha mãe está brava comigo. É um trauma que segue aqui, quieto mas presente, como é da natureza dos traumas. O passado vivo no presente, arranhando a alma. E assombrando o futuro.

Semana passada, fui almoçar na casa dela e, durante a conversa, ela comentou por acaso que alguém tinha bebido boa parte da pinga que ela guardava no armário do escritório. A garrafa, antes quase cheia, estava pela metade. Por um instante, num relâmpago, pensei que ela estivesse desconfiando de mim. Mas não. Ela disse, com naturalidade, que sabia que não tinha sido eu. “Isso não passa mais pela minha cabeça”, falou, tranquila mas firme.

Naquele momento, quase chorei à mesa. Que alívio, que emoção profunda perceber que, finalmente, eu tinha recuperado algo precioso: a confiança dela.

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Autor: Folha

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