Em 25 anos, apenas 16 companhias figuraram entre as 5 maiores do Ibovespa. No grupo estão empresas dos setores de energia, indústria, telecomunicações e financeiro, refletindo a concentração do principal índice acionário do país em poucos segmentos da economia.
Criado em 1968, o Ibovespa é uma carteira teórica de ações listadas na B3 que correspondem a cerca de 80% do número de negócios e do volume financeiro do mercado de capitais brasileiro. Para fazer parte do índice, que é atualizado a quatro meses, é preciso também não ser uma “penny stock”, ou seja, o papel deve valer mais que R$ 1.
Em 2001, três das maiores empresas do índice eram de telecomunicações, precedendo o boom dos telefones móveis. Faziam parte do topo do Ibovespa Bradesco, Petrobras e empresas frutos de privatizações feitas nos anos 1990. A maior expoente era a Tele Norte Leste, com 16% do índice. A empresa foi uma das derivadas da privatização da Telebrás, que posteriormente deu origem à Oi.
Também compunham o índice a Brasil Telecom Participações —outro espólio da Telebrás posteriormente adquirido pela Oi— e a Embratel, também originalmente uma estatal (Empresa Brasileira de Telecomunicações) que foi posteriormente adquirida pela Claro, do grupo mexicano América Móvil. Atualmente a única representante do setor no índice é a Vivo.
“É característico do Brasil ser forte em commodities, utilities [como saneamento, energia e telecom] e bancos. Temos poucas teses de crescimento ótimo no Brasil, como acontece nos Estados Unidos com tecnologia, por exemplo”, diz Matheus Amaral, analista de renda variável do Inter.
Em 25 anos, nenhuma empresa de tecnologia entrou para o topo do índice, que contou com Ambev, Gerdau, Usiminas e OGX, de Eike Batista.
Nos Estados Unidos, por outro lado, tecnologia domina o principal índice acionário, o S&P 500. Atualmente, as maiores participações são: Nvidia, Apple, Microsoft, Amazon e Broadcom, de semicondutores.
As maiores representantes, porém, são do setor financeiro. BM&FBovespa fez parte do topo do índice por seis anos neste século. Bradesco esteve em 20 dos 25 anos, enquanto Itaú Unibanco está desde 2007. Banco do Brasil e Itaúsa também fizeram parte brevemente.
“O setor bancário sempre foi muito forte no Brasil, muito rentável, e deve continuar sendo. Os bancos conseguem surfar os ciclos econômicos, sejam eles positivos, sejam negativos. Eles vão muito bem em qualquer momento, em razão do spread financeiro”, diz João Daronco, analista da Suno Research
Ao fim de 2025, as maiores participações eram de Vale, Petrobras, Itaú, Bradesco e Eletrobras (atual Axia Energia), nesta ordem.
Segundo analistas, há espaço no topo da Bolsa de Valores para empresas do agronegócio que ainda não abriram capital.
“Se você pega o lado agro mesmo, de soja e grãos, temos pouquíssimas empresas na Bolsa e são empresas de valor de mercado muito baixo. As maiores empresas fechadas desse segmento poderiam virar nomes importantes na Bolsa”, diz Amaral.
No entanto, a Bolsa de Valores brasileira tem encolhido nos últimos anos, com fechamentos de capital e sem IPOs (oferta pública inicial, na sigla em inglês). Nesse meio-tempo, outras empresas escolheram se listar no exterior, como Nubank e Inter.
“É uma questão de conta. O controlador vai querer emitir capital a valores mais atrativos para ele, o que não significa que vá ser atrativo para o investidor. Como estamos com o mercado descontado, não é o momento ideal para fazer um IPO. Além disso, o bolso do investidor estrangeiro é maior”, diz Amaral, do Inter.
No começo do século, faziam parte do Ibovespa 48 companhias. Hoje, são 79. O auge foi entre 2021 e 2022, com 88 empresas no índice. Desde então, a taxa de juros brasileira subiu para 15% ao ano, o maior patamar desde 2006.
“Os IPOs estão muito mais escassos em razão da taxa de juros porque ela diminui muito o cálculo de valor das empresas”, diz Daronco, da Suno.
No entanto, o recorde real (considerando a inflação) de pontuação do Ibovespa aconteceu em 2008, quando a Selic estava a 13,75% ao ano. Corrigido pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), o pico daquele ano equivale a 194.558 pontos, de acordo com cálculos da Economática.
Considerando o recorde nominal de 164.456 pontos, de 4 de dezembro, seria necessária uma alta de cerca de 18,5% para ultrapassar o pico real.
“O pico aconteceu em 2008, durante o boom das commodities, quando a China estava crescendo e demandando muito, os preços do minério de ferro e do petróleo explodiram, commodities agrícolas também estavam no topo, e tudo isso fez mais dinheiro entrar no Brasil, o que permitiu ajuste nas contas públicas, ancorou expectativas de inflação e superávit primário e atraiu dinheiro para a Bolsa”, afirma Daronco.




