É tortuosa a teia que interliga o Banco Master e o empresário Nelson Tanure, que foi alvo de busca e apreensão, nesta quarta-feira (14), na segunda fase da Operação Compliance Zero.
As conexões envolvem fundos de investimento, movimentações com instrumentos financeiros, participações cruzadas e sociedades com terceiros, além de um personagem que vinha se mantendo fora do radar: Maurício Quadrado, que também foi alvo de busca e apreensão nesta quarta.
Quadrado foi sócio do Master de setembro de 2020 a setembro de 2024 e liderou a área de investimentos do banco nesse período. Ele é dono, desde 2022, da Trustee DTVM, corretora atuava como prestadora de serviços para o Master e que aparece em diferentes investigações envolvendo o banco de Daniel Vorcaro.
O executivo entrou e saiu da sociedade do Master fazendo inúmeros negócios com Tanure, usando a Trustee.
A assessoria de imprensa de Maurício Quadrado disse que, apesar de ele não ter exclusividade na prestação de serviços financeiros, é antigo parceiro comercial do empresário Nelson Tanure, e que sempre opera dentro da lei.
Tanure, por sua vez, também confirmou que foi cliente do Master, nas mesmas condições que outras empresas e instituições financeiras, e que em décadas de atuação no mercado jamais enfrentou qualquer processo criminal.
INVESTIGAÇÕES E SUSPEITAS
A CVM (Comissão de Valores Mobiliários) investiga uma possível manipulação acionária envolvendo a aquisição da Upcom, adquirida pela incorporadora imobiliária Gafisa, na qual Tanure atuou como acionista relevante e membro do conselho de administração. O caso também deu origem à abertura de uma queixa-crime pela polícia. O processo criminal, que corre em sigilo, investiga a participação conjunta de Tanure, Quadrado e o CEO do Master, Daniel Vorcaro, por meio de fundos e da Trustee.
O caso, que corre em sigilo, mas ao qual a Folha teve acesso, tramita na 5ª Vara Criminal Federal de São Paulo, mas a própria defesa pediu que fosse remetido ao Supremo Tribunal Federal por ter relação com o Master.
A CVM ainda investiga se a Trustee participou de um suposto movimento organizado para valorizar ações da Ambipar, quando Quadrado ainda estava no Master. Segundo a área técnica da autarquia, o movimento foi feito feito em conjunto pelo controlador da Ambipar, Tércio Borlenghi Junior, e fundos sob a gestão da Trustee. Todos os citados negam a manipulação.
As ações da Ambipar serviam como garantia para Tanure sustentar a compra da Emae, empresa de energia privatizada pelo governo do estado de São Paulo em 2024. A alta dos papéis da Ambipar foi de 863%, de 31 de maio a 19 de agosto daquele ano.
Um fundo ligado a Tanure havia vencido a privatização da Emae, mas ele perdeu a empresa no ano passado, numa execução de garantias, e entrou em disputa com a Sabesp, que assumiu o controle. Ele agora está envolvido em discussões judiciais e regulatórias para tentar reaver a empresa.
A mesma Trustee ainda foi alvo da operação Carbono Oculto, em 28 de agosto de 2025, por suspeita de operar com recursos de alvos ligados ao PCC.
TRAJETÓRIA CONTROVERSA
A busca e apreensão desta quarta é uma espécie de ápice na trilha de controvérsias que marcam a trajetória de Tanure desde a década de 1990 —sempre a partir do Rio de Janeiro, para onde se mudou depois de deixar a Bahia, sua terra natal.
Quem já trabalhou com ele conta que o empresário tem carisma. Quando entra na gestão e fala com a equipe, é um motivador. No trato pessoal é conhecido como pessoa gentil e culta. Coleciona obras de arte e frequenta óperas.
Outra marca é a discrição na vida pessoal. Não expõe a família ou sua rotina, também não ostenta patrimônio pessoal. Raramente concede entrevistas ou participa de eventos sociais.
O filho Nelson Queiroz Tanure é um dos poucos familiares conhecidos publicamente. Chamou a atenção atuando na Prio, a empresa do setor de óleo e gás na qual o pai tem participação. Diferentemente da maioria dos negócios do empresário baiano, a companhia é bem avaliada e não enfrenta nenhum dos problemas que costumam marcar os negócios do empresário. Segundo reportagem da agência Bloomberg publicada nesta quarta, o empresário se desfez de suas ações da Prio para pagar credores.
O mercado já se acostumou a ligar o botão de alerta quando Tanure entra num negócio. Ele é conhecido pela polêmica estratégia de investir em empresas que estejam em dificuldade ou em processos de reestruturação mais sensíveis —mudanças de controle, renegociações de dívida e disputas societárias bem diversos, como energia, óleo e gás, saúde, imobiliário, varejo e até mídia.
Foi acionista relevante da operadora de telefonia Oi no período mais crítico da empresa e assumiu o controle do tradicional jornal econômico Gazeta Mercantil em um momento de grave crise que culminou com o encerramento das operações. Nessa área, também foi dono do Jornal do Brasil.
Outro método de atuação que causa discussões é fazer operações cruzadas entre suas empresas —usa a estrutura e os recursos de um negócio para fazer investimentos em outros. Um exemplo recente disso ocorreu na área de energia.
Um dos investimentos mais importantes de Tanure hoje é a Light, distribuidora que atende a região metropolitana do Rio de Janeiro. A companhia enfrenta uma prolongada crise financeira e operacional.
Quando tinha ingerência na Emae, Tanure tentou usar recursos da empresa para comprar debêntures da Light. A transação acabou não ocorrendo porque foi vetada pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica).
No setor de saúde, Tanure está ligado ao controle da Alliança Saúde, antiga Alliar. A empresa de medicina diagnóstica foi palco de disputas societárias, discussões sobre oferta pública de aquisição e processos administrativos no mercado de capitais, além de mudanças estratégicas e de gestão nos últimos anos.
No final do ano passado comprou parte das ações do GPA, dono da rede de supermercados Pão de Açúcar. No mercado, a avaliação de analistas é que Tanure pode tentar uma fusão com a Rede Dia, que ele também adquiriu, por meio de um fundo, no final do ano passado.





