Lamento frustrar as análises que você já deve ter visto sobre o impacto econômico do ataque dos Estados Unidos à Venezuela, mas o petróleo, nesse caso, tem sido o lenço vermelho que o mágico chacoalha enquanto, com a outra mão, põe uma moeda atrás da orelha da criança. Digo isso com base nos dados.
Não quero diminuir o fato de a Venezuela ter a maior reserva de petróleo do mundo, pelas informações oficiais, com 303 bilhões de barris de óleo provados. Para fins de comparação, o Brasil tem reserva estimada de 27 bilhões de barris; a Rússia, de 107,8 bilhões. Iraque e Kuait, que conhecem de perto o poderio militar dos EUA, possuem reservas de 145 bilhões e 101,5 bilhões de barris, respectivamente.
Mas o impacto econômico de Donald Trump ter feito uma operação militar que resultou no sequestro de Nicolás Maduro em Caracas sem nenhuma declaração de guerra ou tentativa de negociação por organismos multilaterais vai muito além da commodity. O resultado efetivo da operação foi a queda das fronteiras jurídicas para operações militares dos EUA.
Isso não é uma questão teórica. É política, econômica e financeira, como os mercados deixaram claro. Nos dias seguintes ao ataque, ainda que o preço do barril de petróleo e as ações ligadas a energia tenham se movimentado, os papéis que efetivamente dispararam estão ligados ao setor de defesa.
Se o mundo inteiro virou um alvo em potencial, uma nova corrida armamentista começa a tomar corpo, na visão dos grandes investidores. Assim, desde o dia 3, quando foi feito o ataque, o índice S&P Aerospace & Defense Select Industry Index, que concentra ações de empresas do setor aeroespacial e de defesa, subiu mais de 14,8%.
Já o índice que reúne grandes produtores globais de petróleo e gás, chamado S&P Commodity Producers Oil & Gas Exploration & Production Index, registrou uma queda de 3,9% nos três dias subsequentes ao ataque, mostrando que o dinheiro grande não está com apetite para apostas por ali.
A Ásia confirmou essa leitura. No Japão, empresas industriais ligadas à defesa, como Kawasaki Heavy Industries e IHI Corporation, subiram 7,5% e 10,5% neste começo de ano, puxando o índice Nikkei (espécie de Ibovespa de lá).
A mensagem é que, se os tratados internacionais valem cada vez menos, a saída dos países é fortalecer o próprio poder bélico. Não por gosto, mas por necessidade. E isso cria um ciclo de investimento, com contratos de longo prazo, orçamentos públicos e tecnologia militar, que nada têm a ver com as oscilações do petróleo.
A tese se fortaleceu ao longo da semana. Na sexta-feira (9), Vladimir Putin, da Rússia, usou o supermíssil Orechnik em um ataque à Ucrânia. A arma, desenhada para cenários de guerra nuclear, foi usada em meio a negociações sobre o fim da guerra e um dia depois de os EUA apreenderem um petroleiro de bandeira russa com petróleo venezuelano.
Se, como disse o papa Francisco, “na guerra, não há vencedores”, o mesmo não se pode dizer sobre a existência de quem lucra com ela. O petróleo pode continuar dominando as manchetes, mas os donos do dinheiro já entenderam onde está a moeda escondida.
Através de ETFs (fundos negociados em Bolsa) do setor aeroespacial e de defesa, o investidor comum consegue também se expor a esses ativos. Os ETFs dos tickers (sigla usada nas Bolsas) ITA, XAR, EUAD e DFND tiveram valorização de 4,5% a 10,5% nos últimos seis pregões.
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