Artista mais ouvido do mundo, o porto-riquenho Bad Bunny, que faz dois shows neste final de semana em São Paulo, tornou-se um símbolo do empoderamento da identidade latino-americana. A postura do cantor reflete a tensão histórica entre os EUA e o restante do continente —uma dinâmica que se manifesta de forma explícita no mercado do café.
Cultivado em países como Brasil e Colômbia, o café é vendido ainda verde para os Estados Unidos, que torram, embalam e comercializam o produto internamente, seja em pacotes, cápsulas ou nos copázios da Starbucks. O produto, que deixa o Brasil como commodity de baixo valor agregado, é revendido em solo americano por cifras que superam os R$ 25 (US$ 5) por dose.
Além disso, o café que é plantado, colhido e catado nas fazendas de Minas Gerais ou nas montanhas colombianas tem seu valor de mercado determinado pela cotação da Bolsa de Nova York.
Apesar de o Brasil ser o maior produtor do mundo, o sistema internacional de avaliação profissional de cafés finos também é determinado pelos EUA, por meio da SCA (Specialty Coffee Association), a associação americana de cafés especiais.
Esse cenário mantém o setor produtivo latino-americano sob o domínio de interesses externos, ecoando a denúncia de Eduardo Galeano em “As Veias Abertas da América Latina“. Embora publicado há meio século —época de relações ainda mais predatórias—, o diagnóstico de Galeano não parece inteiramente datado.
Escreveu Galeano: “O café beneficia muito mais quem consome do que quem o produz. Nos Estados Unidos e na Europa gera rendas, empregos, e mobiliza grandes capitais; na América Latina, paga salários de fome e acentua a deformação econômica dos países postos a seu serviço”.
No Brasil, a dependência da monocultura cafeeira exportadora entre os séculos 19 e 20 forjou contradições profundas. Se a riqueza do grão modernizou cidades e construiu ferrovias, foi também a responsável por inviabilizar a industrialização do país. Baseada durante séculos em um sistema agrícola e escravista, a sociedade carecia de mercado interno para manufaturas e tinha uma força de trabalho sem qualificação técnica para a indústria.
Em sua “História Econômica do Brasil”, Caio Prado Jr. sintetizou o dilema: “Se era nesta [monocultura exportadora] que se baseavam a riqueza e a produtividade nacionais, era ela também, em última análise, a responsável pelas acanhadas perspectivas do país”.
O cinturão do café nas Américas é vasto. Cultivam o produto: Brasil, Colômbia, Honduras, Peru, Guatemala, México, Nicarágua, Costa Rica, Venezuela, El Salvador, Bolívia, República Dominicana e Panamá. Os Estados Unidos têm uma produção em volume insignificante, concentrada no Havaí, na Califórnia e em Porto Rico, terra de Bad Bunny.
É de lá que vem “Café Con Ron”, música do álbum mais recente do artista, interpretada até no show do intervalo do Super Bowl. “De manhã, café; à tarde, rum”, diz a letra. Em homenagem ao astro, sugiro um coquetel que une a força do café à do rum. Para dar mais doçura e notas de baunilha, um pouco de Licor 43.
- 50 ml de café espresso
- 30 ml de rum
- 15 ml de Licor 43
Bata todos os ingredientes em uma coqueteleira com bastante gelo e sirva em um copo com gelo.
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Autor: Folha








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