Aos três anos, a bailarina, pesquisadora e influenciadora Júlia Del Bianco, hoje com 38, ingressou nas aulas de balé numa escola infantil. Aos 6, migrou para uma academia. Numa época em que o balé clássico exigia alunos magérrimos, Júlia destoava com um corpo “mais curvilíneo” e coxas grossas.
“No contexto do balé, era considerada gorda, mas no resto da minha vida, não”, comenta.
A primeira apresentação de dança, com quase 7 anos, também marcou a sua estreia como vítima de gordofobia.
“Estava na coxia [espaço em torno do palco, não visível ao público] e as meninas começaram a comentar quem tinha barriga na turma. Olhei para baixo e vi minha barriga de criança. Foi a primeira vez que me achei gorda. Minha mãe me levou para fazer dieta. No entendimento dela, se o meu sonho era dançar, precisava emagrecer para me adequar ao perfil de bailarina”, conta.
Júlia sofreu preconceito por parte das professoras de dança, das colegas de sala e da sociedade, em geral.
“As professoras falavam que eu iria me machucar [ao usar sapatilhas de ponta], a costureira cobrava mais caro porque ia mais tecido. Eu não era gorda, mas um pouco maior do que as outras. Já quiseram me tirar de coreografia em festival, em concursos. Eu podia ser uma bailarina excelente, mas não a protagonista.”
Júlia prestou vestibular para dança, na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Ao longo do curso, engordou. As roupas do dia a dia não serviam. Apesar de não ter problemas de saúde relacionados ao ganho de peso, as pessoas a consideravam doente. “Senti a gordofobia, de fato.”
O período universitário coincidiu com o início da atividade como professora de dança. As mães das alunas questionavam como uma profissional gorda ensinaria alguém a dançar. “Ouvia ‘nossa, achei que você não daria conta de dar aula por ser gorda.’ ‘Você entende do que está falando?’”
Hoje, ela faz mestrado na Unicamp e pesquisa o padrão de corpo e o corpo gordo na dança. É influenciadora e está a frente do projeto Balé e Diversidade, em que realiza apresentações e ministra aulas em espaços culturais.
“Passei a me impor e tive acolhimento. As pessoas me olham de outro jeito. Insisti muito, fui teimosa. Aproveitei as pequenas oportunidades que me deram. Aliás, no meu caso, foram pequenas frestas que se abriram e eu agarrei com todas as minhas forças”, enfatiza.
Para Ana Botafogo, primeira-bailarina do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, hoje o preconceito é menor em razão de campanhas e movimentos dentro da dança, que está mais inclusiva.
“A dança é para todos, mas não quer dizer que seja uma dança profissionalizante ou profissional”, ressalta Ana Botafogo.
“Sempre tem aquele grupo que não se conforma que uma pessoa com mais de 50 anos faça balé. Sempre tem o que aponta para a mais gordinha. Mas não são pessoas muito ligadas à arte, eu acho.”
Além dos corpos gordos, a dança também acolhe os mais velhos. A professora Márcia Maria Ferrari Ortiz, 70, estudou balé clássico quando criança. Depois, dedicou-se à natação, ao pilates e há três anos, retornou à dança, na escola Ballet Maior, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo. Ela contou à reportagem que as pessoas ficam surpresas.
“Nossa, tá fazendo balé clássico? Elas comentam por causa da minha idade. Respondo que sim, com um grupo de 60 mais. Isso não me incomoda, porque vejo como oportunidade para falar sobre os benefícios da dança na melhor idade“, afirma Márcia.
Os atores Flávio Costa, 57, e Priscila Scholz, 46, são casados e participam das aulas juntos. Ao Flávio perguntam por que não optou por musculação. “Já fiz. Eu detesto”, responde.
“A primeira vez que entrei para uma oficina de noções do balé foi por causa de companhia de teatro. Disseram que eu mandava muito bem no texto e precisava fazer balé. Entrei meio empurrado, mas me encantei”, diz Flávio.
“Ele faz aula comigo porque quer. As pessoas olham, estranham, principalmente pelo fato dele ser homem e mais velho. Às vezes, têm vergonha de perguntar direto para ele e perguntam para mim: no balé?”, relata Priscila.
A professora aposentada Carla Canteli, 62, formou-se bailarina clássica por volta de 16 anos. Cursou educação física e trabalhou com ginástica artística. Aos 30, entrou para a dança contemporânea e sofreu etarismo.
“As meninas me olhavam estranho. A disparidade era grande: elas tinham 20 e eu 30. “Quando fiz 60 anos, quis voltar à atividade. Nem pensava mais no preconceito”, conta Carla.
A Folha acompanhou uma aula na escola Ballet Maior, em São Paulo. Os exercícios são tradicionais do balé clássico, com sequências na barra e no centro. A técnica —chamada de balleterapia— adapta alguns saltos e giros para a segurança dos dançarinos.
Para a bailarina e fisioterapeuta Priscila Monsano, 47, diretora e professora da escola Ballet Maior, é necessário quebrar o estigma do corpo longilíneo e de que só é possível aprender dança se iniciar na infância.
“Hoje o balé é uma forma prazerosa de fazer atividade física. Em cada aula trabalhamos alongamento, força muscular, realinhamento da postura, memorização e equilíbrio, o que para a terceira idade é tão importante para evitar quedas. E a música clássica diminui a ansiedade“, diz Monsano.
Segundo Ana Botafogo, o esforço por parte das academias em oferecer balé adulto tem contribuído para vencer o etarismo na dança.
Há aulas especializadas para quem fez balé e voltou após os 40 anos e aqueles que nunca fizeram exercício físico e hoje têm possibilidade de entrar numa aula de balé.
“Há trabalhos e pesquisas muito interessantes com a faixa etária 50 mais. Em algumas escolas, como, por exemplo, na Royal Academy of Dance, tem um programa para adultos 55 mais. É o Silver Swans, com uma acolhida grande em diversos países. Por toda a literatura que tem sobre isso, sobretudo sobre o etarismo, existe uma tendência de cada vez mais esse grupo estar incluído dentro da arte da dança”, diz a bailarina.
“Sobre gordofobia é a mesma coisa. Hoje em dia, quem não vai ser profissional não tem uma questão de corpo. Muito pelo contrário, muitas vezes as pessoas procuram a dança como uma forma de boa saúde, de trabalhar o físico e a musculatura, e até mesmo para perder peso”, finaliza Ana Botafogo.
Autor: Folha








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