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Banco Master: BC pediu congelamento de R$ 11,5 bi – 03/01/2026 – Economia

O Banco Central pediu ao MPF (Ministério Público Federal) o congelamento dos R$ 11,5 bilhões em fundos de investimentos administrados pela Reag Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A. com suspeitas de terem sido usados em operações fraudulentas atribuídas ao banco Master.

O pedido constou da comunicação do caso ao MPF porque o BC suspeita que esses recursos estejam em nome de laranjas ligados ao dono do Master, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

Como mostrou a Folha, o BC acionou a Procuradoria após identificar indícios de fraude em negócios do banco de Vorcaro com fundos administrados pela Reag, a segunda denúncia feita pelo regulador. A primeira foi a revenda de R$ 12,2 bilhões em carteiras de créditos inexistentes ao BRB (Banco de Brasília), segundo os investigadores a par das apurações.

A denúncia trata de atos que ocorreram entre julho de 2023 e julho de 2024, antes do esquema da venda das carteiras relatado na primeira denúncia que embasou a prisão de Vorcaro em novembro passado. O ex-banqueiro foi solto dias depois.

O esquema de empréstimos a empresas para desviar dinheiro para fundos de investimentos, mapeado pelos investigadores, tinha os seguintes passos:


  1. O Master emprestava dinheiro para uma empresa, que tinha outro dono não relacionado diretamente com o banco, mas que também fazia parte do esquema de fraudes.
  2. A empresa pegava o dinheiro do empréstimo e, ao invés de colocar num empreendimento usado com o desculpa para tomada do financiamento, aplicava os recursos em fundos da Reag.
  3. O que aparecia nos sistemas monitorados pelo BC era que o empréstimo tinha sido feito dentro dos limites das regras de Basileia (requisitos mínimos de capital que os bancos devem ter para cobrir riscos de crédito, mercado e operacional) que a legislação bancária exige.
  4. O gestor do fundo da Reag, que recebeu o dinheiro cuja origem inicial era o empréstimo do Master, comprava um ativo podre com baixa liquidez pagando um preço muito acima do que ele vale. Ele registra no patrimônio do fundo o ativo adquirido com preço supervalorizado.
  5. Do lado da empresa que tomou o empréstimo, ela aparece com o investimento aplicado no fundo, com o passivo e o ativo casados.
  6. O vendedor, por outro lado, fica com lucro de um ativo de pouco valor que foi adquirido por um preço elevado pelo fundo.
  7. Em seguida, o vendedor usa o dinheiro recebido pelo ativo também em outro fundo. Dessa forma, o dinheiro vai passando de fundo em fundo até desaguar em fundos que tinham titularidades de pessoas laranjas ligadas ao grupo Master.

Um investigador explicou à Folha que esse mecanismo permitiu ao Master afastar dinheiro “de dentro para fora do banco” para ganhar graus de liberdade sobre o que fazer com os recursos.

As regras bancárias são rígidas e impõem aos bancos restrições sobre o que se pode fazer com o dinheiro, o que acaba tendo impacto no cálculo de limites prudenciais exigidos pela legislação.

Como as empresas que contraíram o financiamento do Master não investiram no negócio delas (o que elas fizeram foi desviar o dinheiro para os fundos), os empréstimos eram feitos com prazo de carência de quatro anos para não revelar a falta de amortização da dívida.

O problema para o Master começou a aparecer a partir da crise de confiança que começou a enfrentar, sobretudo, no último trimestre de 2024.

O banco passou a ter dificuldade de captação de dinheiro novo com os CDBs (Certificados de Depósitos Bancários) e a enfrentar falta de liquidez para pagar as dívidas velhas em vencimento.

A partir daí, em vez de vender os ativos, a instituição começou a fabricar ativos novos com as carteiras de crédito consignado, que foram vendidas ao BRB do Distrito Federal.

No relatório entregue ao TCU (Tribunal de Contas da União) no início desta semana, o BC relata que fez essa segunda denúncia informando que houve um inadequado gerenciamento de capital e risco, negócios sem garantia, liquidez, e diversificação, agravando a crise e justificando processos administrativos sancionadores, em fase de instrução.

A Reag foi um dos alvos da Carbono Oculto —operação realizada em agosto, que mira a relação entre setor de combustíveis, PCC e empresas financeiras. Procurada pela reportagem, a empresa negou, em nota, elo com o PCC e informou que não teve acesso ao relatório do BC e , “por isso, não responde ao questionamento sobre a relação com o Master”.

Como revelou a Folha, entre os fundos citados na denúncia ao Ministério Público, estariam o Bravo 95 Fundo de Investimento Multimercado Crédito Privado e o D Mais Fundo de Investimento em Direitos Creditórios, administrados pela Reag.

O BC informou ao TCU a data da comunicação ao MPF. Foi na véspera de decretar a liquidação do Master, anunciada em 18 de novembro.

“Em 17 de novembro de 2025, houve nova comunicação ao MPF por indícios de crimes de desvio de recursos e gestão fraudulenta. Tratava-se de operações estruturadas no montante de R$ 11,5 bilhões, que revelaram inadequado gerenciamento de capital e risco, com negócios sem garantia, liquidez, e diversificação, agravando a crise e justificando processos administrativos sancionadores, que se encontram em fase de instrução”, diz o documento enviado pelo BC ao TCU.

O processo em andamento no TCU apura falhas e omissões do Banco Central no caso Master e, como mostrou a Folha, pode se transformar em trunfo para Vorcaro escapar de uma eventual condenação criminal e evitar ser forçado a fechar uma delação premiada no futuro.

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