quinta-feira, janeiro 8, 2026

Banco Master: Como funciona o bombardeio contra o BC – 08/01/2026 – Economia

A Polícia Federal abriu uma apuração inicial sobre informações sobre o caso de 46 perfis em redes sociais que fizeram um bombardeio digital com ataques simultâneos contra o Banco Central e investigadores no caso Master.

O recrutamento dos perfis em redes sociais envolveu um contrato de confidencialidade de R$ 800 mil. A campanha recebeu o nome “projeto DV’, o que coincide com as iniciais de Daniel Vorcaro, o CEO do Banco Master.

A prática já vinha sendo observada durante o processo de análise pelo órgão regulador da venda do banco para o BRB (Banco de Brasília), mas cresceu nos últimos dias em meio à guerra jurídica no STF (Supremo Tribunal Federal) e no TCU (Tribunal de Contas da União) travada entre os investigadores e os advogados do Master.

Entenda como funcionaram os ataques e o que está sendo investigado.

O que é o bombardeio digital contra o Banco Central?

Pelo menos 46 perfis em redes sociais iniciaram um bombardeio digital coordenado contra o Banco Central e seus dirigentes após a liquidação do Master. O que chama atenção é que boa parte desses perfis são de fofoca e humor, sem ligação com temas econômicos. Eles passaram a publicar conteúdos criticando a atuação do BC, com informações enviesadas sobre o caso. A campanha cresceu principalmente em dezembro, em meio à guerra jurídica travada no STF (Supremo Tribunal Federal) e no TCU (Tribunal de Contas da União) entre investigadores e advogados do Master.

Quem são os alvos dos ataques digitais?

O principal alvo é Renato Gomes, ex-diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do BC, que deixou o cargo em 31 de dezembro de 2024. Foi a área dele que recomendou o veto à compra do Master pelo BRB e subsidiou os achados relatados ao Ministério Público Federal. Também estão na mira o presidente do BC, Gabriel Galípolo, seus familiares, o diretor de Fiscalização Aílton de Aquino Santos, além de banqueiros e do presidente da Febraban (Federação Brasileira de Bancos), Isaac Sidney.

Como os influenciadores foram recrutados para a campanha?

O recrutamento envolveu um contrato de confidencialidade de R$ 800 mil. Um profissional chamado André Salvador contatou influenciadores em meados de dezembro, oferecendo “valores expressivos” para publicar conteúdo. Ele se apresentava como responsável por um trabalho de “gerenciamento de reputação e gestão de crise de um executivo grande”. Salvador é sócio da empresa Unltd Network e teria se apresentado também como funcionário da agência Mithi, que pertence a um dos sócios do Grupo Léo Dias. Parlamentares como o vereador Rony Gabriel (PL-RS), que tem 1,7 milhão de seguidores no Instagram, e o deputado estadual Léo Siqueira (Novo-SP), com 592 mil seguidores, foram procurados, mas recusaram as propostas.

O que é o Projeto DV?

A campanha digital recebeu o nome “Projeto DV”, cujas iniciais coincidem com o nome de Daniel Vorcaro, CEO do Banco Master. O projeto foi mencionado nas abordagens feitas aos influenciadores que foram convidados a participar da campanha. André Salvador enviou mensagens a influenciadores oferecendo participação neste projeto, com promessas de remuneração milionária. Um assessor do vereador Rony Gabriel chegou a negar formalmente a proposta de participação no “Projeto DV” em mensagem enviada em 29 de dezembro.

O que diz o contrato de confidencialidade?

O contrato enviado aos influenciadores classifica como confidenciais as estratégias de comunicação, os planos, as informações jurídicas e financeiras, além dos nomes de qualquer participante da campanha — incluindo membros do time, parceiros e terceiros. O documento determina multa de R$ 800 mil em caso de quebra de sigilo. O contrato estava em nome da Unltd Network.

Que tipo de conteúdo foi publicado pelos perfis?

Os perfis publicaram posts com críticas à atuação do BC e informações enviesadas sobre o caso Master. Um exemplo é a postagem do perfil @divasdohumor, que afirmou que a gestão de Renato Gomes deixou “um cenário de instabilidade no mercado financeiro”, com “mudanças regulatórias frequentes” e “ausência de sinalização clara”. Publicações anteriores e posteriores desse perfil tratavam de assuntos como conversas entre Nicole Bahls e Gil do Vigor, e o papel das tias na educação de crianças — temas distantes do mercado financeiro.

Quais agências e perfis participaram da campanha?

Entre os perfis identificados estão @divasdohumor, @Festadafirma, @Futrikei (com mais de 25 milhões de seguidores) e @Alfinetada. Algumas agências de marketing digital administram vários desses perfis, como a Banca Digital (que administra o @Festadafirma), o Grupo Farol (que agencia o @Futrikei e @Alfinetada) e a Deubuzz. Essas empresas vendem espaços para postagens coordenadas, criando campanhas massivas na internet.

Como as agências responderam às acusações?

O Grupo Farol afirmou que “não houve qualquer negociação, acordo ou campanha conduzida pelo grupo relacionada ao Banco Master” e que sua atuação “se limita exclusivamente à representação de publicidade para as marcas, mas sempre dentro dos limites legais e normas estabelecidas pelo Conar”. A Banca Digital disse que foi procurada para divulgar conteúdo sobre o Banco Master, mas declinou o convite, afirmando que a postagem do @Festadafirma “foi um post orgânico sobre um tema pertinente aos tratados na página”, sem remuneração. A Deubuzz não respondeu aos questionamentos da reportagem.

Há investigações em andamento?

A Polícia Federal abriu apuração inicial sobre o bombardeio digital e, se comprovadas irregularidades, poderá instaurar inquérito policial. Daniel Vorcaro foi intimado a prestar depoimento no dia 27 de janeiro no âmbito das investigações sobre a tentativa de venda ao BRB. Além de Vorcaro, outros ex-executivos, como o ex-sócio Augusto Lima, também tiveram depoimento marcado. O empresário pode optar por falar por videoconferência ou presencialmente.

O que diz a defesa do Banco Master?

Procurados por meio de sua assessoria, o Banco Master e Daniel Vorcaro não se manifestaram sobre as acusações de coordenação da campanha digital. A reportagem tentou contato com André Salvador e Thiago Miranda, via WhatsApp e telefone, mas eles não responderam. O jornalista Léo Dias afirmou que Miranda deixou o Grupo Léo Dias, do qual foi CEO, em junho, embora permaneça na sociedade.

Por que influenciadores de fofoca foram escolhidos?

A estratégia parece buscar amplificar o alcance da mensagem para um público mais amplo, além dos interessados em economia. Esses perfis têm milhões de seguidores e alta capacidade de engajamento, o que potencializa a disseminação do conteúdo. A incongruência entre o tipo de conteúdo habitual desses perfis (fofocas de celebridades) e as críticas técnicas ao Banco Central sugere natureza coordenada da campanha.

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