quinta-feira, janeiro 8, 2026

Boa biologia é boa economia – 06/01/2026 – Deirdre Nansen McCloskey

Li um ensaio que você deveria conhecer, escrito por meu amigo Jag Bhalla, de Washington. Ele é um físico britânico e intelectual de origem sul-asiática, além de aliado na luta para dar sentido à Economia. O artigo foi publicado na revista Noēma (“pensamento”, do grego). Altamente recomendado.

O título, “The Other Invisible Hand: Why all life limits certain kinds of selfishness“, ou “A Outra Mão invisível: Por que Toda Vida Limita Certos Tipos de Egoísmo”, em português, praticamente diz tudo. A outra mão é a seleção de grupo, diferente do que pensam que Adam Smith quis dizer com uma mão invisível que proporciona bons resultados econômicos —a seleção individual, pelo egoísmo. Bhalla cita biólogos que demonstram que sempre que “novos elementos egoístas são introduzidos em uma população, a evolução da supressão costuma ser rápida”. Caso contrário, “os ganhos do egoísmo tornam-se ruinosamente arriscados”. Ele usa, por exemplo, a profunda verdade biológica de que qualquer organismo, até mesmo uma bactéria, é uma pequena sociedade de itens individuais cooptados pela evolução para compor o todo.

Bhalla cita alguns biólogos que demonstram, com abundantes evidências, que sempre que “novos elementos egoístas são introduzidos em uma população, a evolução da supressão costuma ser rápida”. Caso contrário, observa Bhalla, “os ganhos do egoísmo tornam-se ruinosamente arriscados”. Ele usa, por exemplo, a profunda verdade biológica de que qualquer organismo orgânico, até mesmo uma bactéria, é na verdade uma pequena sociedade de itens individuais cooptados pela evolução para compor o todo.

As células cancerígenas trapaceiam no contrato social biológico de seus corpos ao se multiplicarem em seu próprio interesse egoísta. Da mesma forma, um micróbio que mata seus hospedeiros rapidamente não se prolifera, razão pela qual o “resfriado comum” é, na verdade, mais comum do que a peste bubônica. A evolução garante a todo organismo um mecanismo de defesa contra o câncer —caso contrário, sua população se extingue. A seleção favorece grupos bem-sucedidos —um único organismo protegido contra o câncer, ou uma floresta inteira, ou uma sociedade humana inteira.

Entretanto, se você tem lido as colunas que escrevo, sabe que Smith não disse que o egoísmo individual contribui para uma boa sociedade. Pelo contrário, ele atacou explicitamente, pelo nome (como nunca fez com outros inimigos), o poeta Bernard Mandeville. No primeiro livro de Smith,A Teoria dos Sentimentos Morais“, de 1759, que lhe rendeu reputação europeia enquanto filósofo antes de se dedicar à economia, escreveu: “Tal é o sistema do doutor Mandeville, que outrora causou tanto alvoroço no mundo e que, embora talvez nunca tenha dado ocasião a mais vícios do que haveria sem ele, pelo menos ensinou esse vício… a aparecer mais descaradamente”.

A interpretação equivocada mais simplista de Smith foi a afirmação do financista americano Ivan Boesky, reproduzida de forma ficcional no filme “Wall Street“, de que “a ganância é boa”. Uma versão anterior é a epifania do matemático de Princeton John Nash, de que um jogo não cooperativo é o melhor para você e para mim. Por essa ideia os suecos lhe concederam um Prêmio Nobel de Economia. Raramente o vício se mostrou de forma tão descarada. O velho Adam Smith revirou no túmulo.

Você se sai melhor se seu grupo se sair melhor —por exemplo, não invadindo a Rússia para conseguir Lebensraum (espaço vital, em português) para o Reich de Mil Anos. Ou não invadindo a Venezuela para enriquecer os amigos petroleiros de Donald Trump e distrair o público norte-americano de seus fracassos no último ano. É biologia e economia sensatas.

LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Autor Original

Destaques da Semana

Temas

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas

spot_imgspot_img