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Bolsa Família não compra a consciência do evangélico

Uns mentem por maldade. Outros mentem por ignorância. Ainda há aquele que “mente que nem sente”. Mas, quando o assunto é a arrogância de esquerda com relação ao fenômeno religioso evangélico, os mentirosos têm algo em comum: um fervor pedagógico, como quem acredita que o povo precisa ser “educado” com números inventados, porque os verdadeiros não os ajudam a salvar a mentir.., ops, a “tese”.

Foi mais ou menos isso que apareceu quando Lula, e o lulopetismo ao seu redor, resolveu flertar com a ideia de que “90% dos evangélicos usam benefícios do governo” e, portanto, o PT deveria “ir falar com eles” e “combater fake news”. A cara de pau, aqui, não está só na estatística. Está na visão de mundo por trás dela: se a maioria “depende”, então a maioria “deve”. É o velho catecismo do poder, só que sem Bíblia e com planilha.

Vamos começar pelo básico, porque respeitamos o leitor. Noventa por cento é um número indecente. Não é “alto”, é indecente. É o tipo de cifra que não erra por pouco, erra por essência. Mesmo usando estimativas generosas sobre lares assistidos, e lembrando que o “benefício” é do domicílio, e não um crachá espiritual colado na testa de cada morador, você não chega perto disso.

O número realista é outro, bem mais modesto, mais humano e compatível com o Brasil que existe: algo como três em cada dez evangélicos vivendo em lares assistidos por programas sociais. Trinta por cento, com folga conservadora, já é suficiente para dizer que a igreja evangélica está profundamente enraizada nas camadas populares. Mas não, o lulopetismo precisa de 90%, porque 30% não dá para usar como chicote moral, dá só para fazer diagnóstico social. E diagnóstico social não rende palanque.

O lulopetismo parece incapaz de entender o fenômeno evangélico porque parte de uma antropologia errada

Uma reportagem do UOL traz o roteiro desse novo capítulo da aproximação petista com o segmento evangélico. O PT teria decidido “chegar às bases”, “conversar com as pessoas” e, claro, “desfazer fake news”. O líder setorial afirma que não veremos Lula “se batizar no Rio Jordão para fingir ser evangélico”, nem o partido transformar púlpito em palanque, e projeta uma eleição com “redução do uso do tema religião”, porque a direita não teria mais a “vantagem” de dizer que o PT fecharia igrejas, já que, segundo ele, o PT “é profundamente religioso” e teria nascido nas bases da Igreja Católica.

Você pode até respirar aliviado com a parte do “não vamos transformar o púlpito em palanque”. É uma frase bonita. Mas ela vem acompanhada de uma confissão que desmancha a maquiagem: “esses espaços de fé são importantíssimos para construção de uma base social sólida… para fazer formação política”.

Ou seja, não é para instrumentalizar, diz ele, mas é para formar politicamente e disputar a sociedade. A diferença entre “instrumentalizar” e “formar politicamente” aqui é a mesma entre chamar imposto de “contribuição” e chamar censura de “regulação”. Troca-se o rótulo, mantém-se a intenção.

E é aqui que a coisa fica divertida, no sentido trágico da comédia: o lulopetismo parece incapaz de entender o fenômeno evangélico porque parte de uma antropologia errada. Para o militante típico, tudo é política. Até quando não é, para ele se trata de política em estado de latência. A fé, nesse universo, é uma variável de campanha. Um “território” a ser ocupado. Um “espaço” a ser disputado. Um problema de comunicação. Um “nicho” que alguém ganhou por “narrativa mentirosa”; logo, o antídoto será “mostrar dados reais”.

Só que o evangélico brasileiro, o evangélico de carne, osso e culto de domingo e quarta-feira, não olha a vida com o filtro da política. Ele olha a política com o filtro da fé. E isso muda tudo. Primeiro vem o espiritual, depois vem a ética aplicada, e só então, se vier, aparece a política, como ferramenta imperfeita para conter o mal e promover algum bem comum possível. A fé não é um adereço identitário. Não é um “marcador social”. Não é um meme com versículo. Fé é o lugar de onde a pessoa interpreta a realidade, sofre, decide, educa filho, enterra parente, perdoa ofensa, luta contra vício, resiste à tentação. É o chão da casa, não a cor da parede.

Por isso, tratar o evangélico como “beneficiário” antes de tratá-lo como “crente” é um erro de categoria. Benefício social é renda. Fé é sentido. Aquele paga o gás, esta sustenta a vida quando o gás acaba. Um alivia a barriga, o outro governa a consciência. A política, quando tenta substituir a fé, vira uma religião ruim, porque promete salvação e entrega burocracia. O lulopetismo, de tão acostumado a ler tudo como disputa de poder, imagina que o evangélico, recebendo assistência, deveria retribuir com lealdade. E aí nasce a estatística “milagrosa” dos 90%, que é a versão eleitoral do batismo: uma água numérica jogada sobre a multidão para produzir conversão instantânea.

Repare como o discurso escorrega, sem perceber, para a lógica do adestramento. Se a direita “soube utilizar bem a narrativa mentirosa”, então a tarefa é “desfazer” a narrativa. Como? Com “dados reais”. Mas quem disse que a rejeição evangélica ao PT é mero produto de fake news? O próprio texto admite um ponto duro: a questão do aborto. Aí aparece a frase que é um retrato da incompreensão: “queremos mediar esse debate, mostrar bem o que é papel do Estado e o que é papel de religião”. E completa com uma esperança reveladora: “tem pastores que não são tão radicais contra esse tema”.

O lulopetismo, de tão acostumado a ler tudo como disputa de poder, imagina que o evangélico, recebendo assistência, deveria retribuir com lealdade

Traduzindo: o problema não é o PT ter posições, é o pastor ser “radical”. Não é o Estado se arvorar árbitro moral, é a religião insistir em ter convicções. Nem é a divergência ética, é a resistência de consciência. E aqui o lulopetismo volta ao seu eixo natural: se a religião atrapalha o projeto, então a solução é reeducar, “formar politicamente”, achar líderes menos “radicais”, explicar que o papel do Estado é um e o da religião é outro, como se o Estado fosse um condomínio neutro e a fé, um hobby privado.

O curioso é que, quando fala de laicidade, muita gente repete a fórmula “Estado laico” como se isso significasse “Estado sem religião e sociedade sem moral pública”. Não é isso. O Estado laico brasileiro é laico com colaboração possível, e não um Estado ateu nem antirreligioso. Mas o lulopetismo não tropeça aqui por excesso de laicidade, tropeça por excesso de ideologia. Ele não entende a laicidade colaborativa como espaço de convivência e liberdade; entende-a como campo de engenharia social, onde a fé vira peça de estratégia, e o objetivo é “ocupar o espaço” para neutralizar “vantagem” do adversário.

E é por isso que o plano tende a falhar, mesmo que seja bem-intencionado em parte. Porque o evangélico percebe quando está sendo tratado como massa de manobra. Ele percebe o tom de laboratório social. Percebe quando a conversa é, no fundo, uma tentativa de domesticar convicções, diluir absolutos, relativizar o que chama de pecado, e enquadrar a igreja como ONG de apoio comunitário.

O evangélico percebe quando está sendo tratado como massa de manobra. Ele percebe o tom de laboratório social

O evangélico não troca Deus por benefício. Não vende a consciência por cesta básica. E, sobretudo, não aceita ser explicado por quem acha que fé é “narrativa” e que pastor é “ator político” em tempo integral.

O lulopetismo pode até aprender a “falar com evangélicos”, como promete o líder setorial. Pode montar núcleos, fazer encontros, distribuir cartilhas, criar curso de “fé e democracia”, reunir lideranças em Brasília, gravar vídeo para rede social. Mas, na real, a tendência é que fale muito e escute pouco. Porque, no fim, a questão não é comunicação. É cosmovisão. E cosmovisão não se “desfaz” com um power point sobre “dados reais”.

Aí vai minha previsão: continuarão errando, porque o orgulho precede a ruína: a esquerda prefere chamar fé de ignorância e crente de massa manipulável a admitir que sua arrogância pseudointelectual é incapaz de compreender pessoas que não ajoelham diante do deus-Estado, nem da sua moral de ocasião.

Autor: Gazeta do Povo

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