Foi após assistir a um documentário sobre modalidades paralímpicas que a pequena Paloma Morales Gatti, 10, criou gosto por esportes e quis treinar esgrima. Rapidamente, uma equipe técnica que cuida de grandes talentos brasileiros dos jogos praticados por pessoas com deficiência viu na menina potencial para grandes feitos futuros.
Paloma é a ponta onde se inicia um projeto audacioso do CPB (Comitê Paralímpico Brasileiro), tornar o Brasil a maior superpotência mundial paralímpica, desbancando a China, que ficou no topo do quadro de medalhas nas últimas seis edições dos Jogos.
Para dar conta da meta, o comitê trabalha para ampliar dos atuais 98 para 550 os centros de referência espalhados pelo país que captam potenciais atletas. Essas portas de entrada são tidas como essenciais para a conquista de medalhas.
A toada de formação já tem exemplos que chamam a atenção. O corredor Fabrício Klein, 16, ganhou três ouros em sua primeira competição oficial e já figura entre os oito melhores tempos em rankings nacionais dos 100 m e 200 m de sua categoria, a T37, para atletas com transtorno do movimento e falta de coordenação motora de grau moderado em um dos lados do corpo.
Antes de se tornar uma promessa de pódio já para o Jogos de Los Angeles, nos Estados Unidos, em 2028, Fabrício percorreu desafios de sobrevivência. Nasceu com anemia falciforme —condição em que as hemácias são defeituosas— o que o fez passar por cinco AVCs isquêmicos e 29 internações com inúmeras passagens por UTIs. Aos cinco anos, chegou a ser cadeirante por perder movimentos.
A cura veio após um transplante de medula, ocorrido em 2017, numa raríssima ocorrência, a compatibilidade com o irmão, Gabriel, que tem deficiência visual e também é atleta.
“Sou extremamente grato a ele [ao irmão], que, praticamente, salvou minha vida e me deu oportunidade de estar aqui hoje”, afirma.
Sobre uma possível pressão por resultados, ele se diz preparado. “A pressão é um privilégio porque você vai se transformando ao longo do tempo, ao longo da vida. Vai aprendendo cada vez mais, tendo mais oportunidades e vai se desenvolvendo como cidadão e como atleta. O esporte transforma a gente.”
Já no tatame, a cearense Wiliany Vitória Costa do Nascimento, 17, é uma das apostas brasileiras para seguir entre os destaques do judô, modalidade que sempre ajudou o Brasil em sua escalada para se tornar potência paralímpica —ficou no histórico quinto lugar, em Paris, 2024.
Ainda menina, ela deixou a casa dos pais biológicos, no interior do Ceará, para viver com uma família de origem alemã, em São Paulo, atrás de melhores condições, acessibilidade para sua condição de deficiência visual, e mais oportunidades no esporte. Para Wiliany, seus feitos têm um valor de conquista de independência.
“Passei por muitas coisas duras na vida. Em 2020, vim para São Paulo, e não foi fácil me distanciar da minha família biológica. Sempre foi uma luta. O judô me ajudou demais. Ter o desafio de participar de competições e lutar por um objetivo. Não é tanto por medalha, mas pela experiência de ter o gostinho de conseguir as coisas. É maravilhoso quando você consegue fazer algo de maneira independente e autônoma. Não tem preço”, afirma a competidora.
A judoca se diz persistente em vez de otimista em relação a seu futuro paralímpico e as chances de uma medalha de ouro daqui a dois anos. “Diria que meu caminho até Los Angeles é bem promissor. Tenho conseguido muitas coisas. Desde 2024, comecei a explodir como atleta”.
O CPB afirma que é fundamental para o desenvolvimento de novos talentos que não se atropelem etapas de desenvolvimento e que jovens atletas não sejam submetidos a pressões excessivas por resultados, preservando a maturidade emocional dos competidores que ainda estão aprendendo a lidar com vitórias e derrotas.
Foi justamente um contexto de falta de preparo emocional o que afastou a nadadora Alessandra Oliveira, 17, dos Jogos Paralímpicos de Paris. Ela acabou se desorganizando às vésperas do evento e não conseguiu índice, embora já apresentasse, à época, ótimos resultados.
“Agora estou bem mais centrada, entendendo de maneira melhor como funciona o alto rendimento e sabendo lidar com pressões. Vou fazer de tudo para estar em Los Angeles”, afirma a atleta, que ganhou duas medalhas de ouro no mundial de Singapura, em 2025, em sua categoria, a S5.
Alessandra teve amputação em partes dos membros inferiores e superiores logo na infância, após ter tido uma reação a uma vacina. O subgrupo em que compete é tradicional gerador de excelentes resultados para o Brasil, como os do multimedalhista Daniel Dias.
A pequena Paloma, a do início deste texto, já passou pela natação, por artes marciais e por arremesso de peso. Agora, ela está empenhada no atletismo e corre em cadeira de rodas. Tem um longo e promissor caminho pela frente.
Autor: Folha








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