quinta-feira, janeiro 8, 2026

Bruxelas defende acordo UE-Mercosul mesmo sem apoio da França – 08/01/2026 – Economia

A União Europeia usou o retrospecto econômico do bloco para defender nesta quinta-feira (8) a assinatura do acordo UE-Mercosul. “Vendemos € 60 bilhões a mais do que compramos de nossos parceiros em todo mundo. Essa é uma estatística surpreendentemente bem-sucedida por qualquer métrica econômica”, declarou Olof Gill, porta-voz da Comissão Europeia.

Gill, na verdade, usava o desempenho do setor agrícola europeu para driblar a pergunta do repórter, sobre o fato de o pacto de livre comércio, que ganhou peso após a intervenção americana na Venezuela, estar próximo de ser concluído mesmo diante da oposição de um membro fundador da UE, a França.

Seria uma situação inédita, sem falar nas consequências para a política interna francesa.

Um aperitivo do problema foi servido nas ruas de Paris, nesta quinta. Agricultores franceses ocuparam com tratores pontos icônicos de Paris, como o Arco do Triunfo e a Torre Eiffel, e quase agrediram a presidente da Assembleia Nacional, Yaël Braun-Pivet.

Braun-Pivet foi vaiada ao sair das dependências da Assembleia para encontrar os agricultores, do lado de fora. Uma manifestante a acusou de “traidora” e outro jogou um líquido sobre ela, obrigando os seguranças a retirá-la às pressas.

“As prioridades agrícolas da União Europeia estão em primeiro plano em todas as negociações comerciais que realizamos. Em todas elas. O que isso significa? Significa que, em todas as negociações comerciais, nos esforçamos ao máximo para obter o melhor acesso possível aos mercados para as nossas exportações, que são líderes mundiais. E temos conseguido fazê-lo”, declarou Gill, sem citar a confusão francesa.

Os ruralistas do país acusam o governo Emmanuel Macron de não prestar atenção ao setor, em crise há anos. A despeito da forte oposição à costura do acordo com os sul-americanos em Bruxelas, o esforço não é considerado suficiente no cenário doméstico francês.

Nesta sexta, reunião do Conselho da UE pode selar a anuência dos países-membros ao tratado e permitir que Ursula von der Leyen embarque no fim de semana para o Paraguai. A cerimônia de assinatura do acordo, que começou a ser negociado em 1999, está previamente marcada para segunda-feira (12).

A dissidência francesa, à qual a Itália aderiu em dezembro, agora parece fragilizada após declarações do governo italiano. “Estamos na reta final”, afirmou o ministro da Agricultura, Francesco Lollobrigida, à imprensa de seu país.

A posição italiana se tornou tão importante na disputa que Lollobrigida condicionou o voto em favor do acordo a um último item: um gatilho de intervenção no mercado de certos produtos, como carne e açúcar, a partir de 5% de flutuação nos preços, e não mais 8% como prevê a última versão do documento.

Antes, o gabinete de Giorgia Meloni já havia arrancado da Comissão Europeia a antecipação de € 45 bilhões em subsídios para o setor e a flexibilização do CBAM, a taxa de carbono que estreou neste mês, sobre fertilizantes. O último pleito também era uma exigência dos franceses, que possuem, porém, uma lista bem mais ampla de exigências.

Confirmados os prognósticos, à França restaria o apoio de Polônia e Hungria, que são contra o pacto em qualquer circunstância, e o da Irlanda, que nesta quinta declarou que as últimas alterações ainda não satisfazem o país. O grupo assim não alcançaria a minoria de bloqueio, configurada por ao menos quatro países, mas também uma correspondência de 35% da população do bloco.

“Em cada acordo comercial da UE, os Estados-Membros conferem à Comissão um mandato para negociar em nome dos cidadãos e em nome deles. Quando a Comissão conclui as negociações políticas, o acordo é então votado pelos Estados-Membros e pelo Parlamento em procedimentos totalmente democráticos, que foram decididos pelos mesmos Estados-Membros e os deputados”, afirmou Gill.

“O que significa se um ou mais Estados-Membros se opõem a um acordo comercial? Significa que um ou mais Estados-Membros se opõem a um acordo comercial”, disse o porta-voz, sublinhando que isso não alteraria o fato de sua aprovação, se ela ocorrer.

“A resposta curta à pergunta: é a democracia em ação.”

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