O negócio é transparente, com regras simples. Aplica-se num CDB por aplicativos bancários que até crianças sabem usar. Caso o banco quebre, o governo intervém, via Banco Central, e devolve o aplicado pelo FGC (Fundo Garantidor de Crédito) até o teto de R$ 250 mil por CPF.
Criado pelo governo Fernando Henrique em 1995, quando Steve Jobs ainda projetava o iPod, e celular era apelidado de “tijolão”, o fundo se modernizou e ganhou um aplicativo.
Assim que teve a intervenção do Banco Master, os investidores receberam emails da fintech responsável pela aplicação, indicando o passo a passo. Foram convidados pelo BC a se cadastrar no aplicativo FGC.
No entanto, ao abri-lo, o informe num gerúndio indigesto: “O FGC está aguardando o envio das informações pelo liquidante para iniciar o pagamento”.
Investidores do Banco Santos, Rural, BVA, Cruzeiro do Sul, que foram liquidados, receberam o que investiram. Os do Banco BRJ S.A. receberam em 27 dias. Os do Neon, em 14 dias.
Tudo muito simples. Porém, azedou o angu. No domingo dia 18, fará dois meses da quase intervenção do Banco Master. Além de nenhum investidor receber um tostão, nem ao menos uma balinha de Uber, toma preju.
Eu tenho um CDB no Master. Imagine o dinheiro que estou perdendo se eu tivesse recebido e aplicado em um título do Tesouro, nessa Selic de 15% ao ano
Porém, os CDBs sumiram dos sites das fintechs e do aplicativo do FGC. Porque a intervenção virou uma “desintervenção”, numa disrupção das regras republicanas e o disparo para todos os lados de descalabros.
Seria a maior operação de resgate de papel podre da história: R$ 41 bilhões para cerca de 1,6 milhão de CPFs e CNPJs.
O Master, cujos papéis eram oferecidos efusivamente por assessores da nossa personal fintech, pois pagavam mais, provou que uma das poucas instituições confiáveis foi retalhada pela corrupção orgânica.
O banqueiro ostentação Daniel Vorcaro, figurinha carimbada da tradicional sociedade mineira, descobriu os furos do queijo suíço brasileiro, o poder, para praticar o golpe do século, tão manjado quanto a ameixa de um manjar branco, e montou uma pirâmide financeira.
Bastava mimar com presentes (subornos?) figuras-chave da nossa República e vender aquilo que não tinha. Minou a confiança na nossa democracia e ameaça a instável estabilidade política.
Fez o que manda o manual do malandro, sem infringir a lei. Segundo esta Folha, se aproximou e patrocinou eventos que reunia empresários e políticos, de João Camargo, do grupo Esfera Brasil, João Doria, do Lide, a Karim Miskulin, do grupo Voto.
Nos últimos três anos, eventos com poderosos foram patrocinados pelo Master. Na sua planilha de consultores, já estiveram os ex-ministros Ricardo Lewandowski, Gustavo Loyola, Henrique Meirelles, e o ex-presidente do BC Guido Mantega, afundador geral da República Dilma 2.
Patrocinou (ele nega) influencers para atacar o Banco Central. Até a jornalista Gabriela Priolli, ao anunciar que começará a fazer posts ligados ao mercado financeiro, defendeu o investimento ao Banco Master e a compra do mesmo pelo BRB, acusando os grandes bancos de querer melar o negócio.
Ela entrou no grupo de suspeitas por internautas que analisaram cada uma de suas palavras e conselhos. Sem maquiagem, informal, explicou sem explicar e omitiu o fato do BRB ser um banco público, sob o comando de Ibaneis Rocha, governador do DF; até agora, não se sabe como ele se livrou do inquérito da tentativa de golpe de Estado.
Gabriela incentivou seguidores a comprarem um título que agora não está sendo pago. Não sabia da transferência de papéis podres do Master para o BRB, e de fundos de pensão de funcionários públicos, que viraram charutos cubanos?
Até a esquerda caiu no “caô” da desinformação, quando viu a jornalista Malu Gaspar denunciar o herói Alexandre de Moraes —ela que escreveu um dos melhores livros jornalísticos sobre corrupção, “A Organização”, a ruptura da família Odebrech, em que um pai sacrifica um filho, como o tratado arquetípico de Abraão e Isaque (Gêneses 22:6-12).
Vorcaro continuou sua trilha ao país das maravilhas, se aproximou de Ciro Nogueira, presidente do PP, e de Antônio Rueda, presidente do União Brasil, espalhando seu perfume no ciclone do centrão.
De resto, você já sabe. Contratou o escritório de familiares do ministro Alexandre de Moraes, o literal salvador da pátria, por um preço muito acima da tabela da OAB.
Dias Toffoli, ministro do STF, viajou de carona de jatinho com a advogado do Master, Augusto Botelho, para ver em Lima, Peru, seu time tomar uma tunga na final da Libertadores (bem feito).
Tentou uma absurda acareação entre os envolvidos da intervenção do banco de pilantras que pegou tão mal que retrocedeu e deixou a toga na lavanderia do tribunal (penduricalho que deve ser gratuito).
Vorcaro, que viu sua sede nos últimos andares do cafona prédio da baleia invadida pela PF, o símbolo “farialimer” de que sonhar com um pedaço de Dubai no Brasil é possível, que deu até em praia de surfe a metros do fétido rio Pinheiros, escritório com charutos cubanos climatizados e garrafas de Macallan, descolou um aliado inesperado, o TCU.
O desconhecido ministro Jhonatan de Jesus, até 2023 um deputado federal por Rondônia do Republicanos, filho do senador Mecias de Jesus, movido por um senso de justiça divina, decidiu atropelar o papel do BC e, no bojo da sua experiência de dois anos e sete meses no cargo, colocou a reputação do sistema financeiro no ralo.
Desinterviu o que não lhe cabia desintervir. Foi salvo por Vitalzinho, como é conhecido Vital do Rêgo, há 11 meses na presidência do TCU, médico como Jhonatan, filho de senador como ele.
Todos e todas acima podem ser inocentes, agiram de boa-fé, para defender os interesses e a poupança de brasileiros do bem. A investigação não parará aqui. Novas denúncias surgirão. Investigar a fundo é dever do Estado, para que não se repita. E vamos ao que interessa: cadê o nosso dinheiro?




