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Câncer avança no Brasil e deve atingir 781 mil casos/ano – 04/02/2026 – Equilíbrio e Saúde

O Brasil deve registrar 781 mil novos casos de câncer por ano entre 2026 e 2028, segundo estimativas divulgadas pelo Inca (Instituto Nacional de Câncer) nesta quarta-feira (4), Dia Mundial de Combate ao Câncer.

A projeção representa um aumento em relação ao triênio anterior (2023-2025), quando a estimativa era de 704 mil casos anuais para o período. Confirma-se, dessa forma, a tendência de consolidação da doença como uma das principais causas de adoecimento e morte no país, aproximando-se das doenças cardiovasculares.

Quando excluídos os tumores de pele não melanoma, a estimativa é de aproximadamente 518 mil casos anuais. São os cânceres que, apesar de numerosos, são menos agressivos e com alto índice de cura e que, portanto, têm uma gravidade epidemiológica menor.

Segundo Paulo Hoff, professor titular da Faculdade de Medicina da USP e presidente da Oncologia D’Or, “a continuidade da tendência do aumento de casos de câncer é prevista inclusive pela OMS (Organização Mundial da Saúde), que estima que o Brasil vai ter, no seu pico mais de um milhão, um milhão e meio de casos por ano. Isso já mostra como nós temos que continuar preparando o sistema para poder absorver esse número de pacientes e também absorver os sobreviventes.”

Entre os homens, os cinco tipos de câncer mais incidentes serão os de próstata (30,5% dos casos, excluindo pele não melanoma), cólon e reto (10,3%), pulmão (7,3%), estômago (5,4%) e cavidade oral (4,8%).

Entre as mulheres, predominam os cânceres de mama (30,0%), cólon e reto (10,5%), colo do útero (7,4%), pulmão (6,4%) e tireoide (5,1%).

Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, que esteve presente no lançamento das estimativas, mais de 7 milhões de pessoas fizeram quimioterapia no SUS no ano passado, 80% a mais do que no início do governo. Apesar dos avanços na infraestrutura, ele afirma que “a gente pode fazer o que fizer de expansão de tratamento, mas ou a gente age na prevenção ou é insustentável qualquer esforço em relação ao câncer.”

A ascensão do câncer colorretal chama atenção. Nesta edição das estimativas, o tumor de cólon e reto consolidou-se como o segundo mais relevante entre os homens, atrás apenas do câncer de próstata. Entre as mulheres, já ocupava essa posição, ficando atrás apenas do câncer de mama. “Nos entristece ver um aumento continuado da incidência de um tumor que, pelo menos teoricamente, poderia ter uma influência positiva de rastreio”, diz Hoff.

Exames como o de sangue oculto nas fezes e a colonoscopia ajudam a detectar pólipos e lesões, antes mesmo que se tornem cânceres. A recomendação atual é que o rastreio comece aos 45 anos.

O câncer de mama, por sua vez, tem afetado mulheres cada vez mais jovens, de modo que especialistas passaram a sugerir que o rastreio seja antecipado de 50 para 40 anos —embora haja outros obstáculos, como o acesso a exames e manutenção da periodicidade de realização.

Hoff explica que, diferentemente do tumor colorretal, o rastreio mamográfico detecta precocemente um câncer já existente, não impedindo sua formação, mas aumentando significativamente as chances de cura quando diagnosticado em estágios iniciais.

As estimativas revelam ainda disparidades regionais, que refletem fatores demográficos, exposições ambientais e ocupacionais, estilos de vida e desigualdades no acesso aos serviços de saúde. O Brasil convive com dois perfis epidemiológicos simultâneos: “cânceres da pobreza” no Norte e Nordeste, e os “cânceres do estilo de vida” no Sul e Sudeste.

No Norte e Nordeste, o câncer de colo do útero aparece como o segundo mais incidente entre as mulheres —o tumor é prevenível por vacinação contra o HPV, disponível gratuitamente no SUS (Sistema Único de Saúde), e rastreamento regular com exame Papanicolau. A taxa na região Norte (22,79 casos para cada 100 mil mulheres) chega a ser mais de 60% maior que a do Sudeste.

O câncer de estômago também apresenta padrão distinto, com maior incidência no Norte e Nordeste, onde ocupa o segundo e terceiro lugares entre os homens, respectivamente. A diferença está relacionada à maior prevalência da bactéria Helicobacter pylori nessas regiões, associada ao consumo de alimentos conservados em sal e de bebidas alcoólicas.

No Sul e Sudeste, predominam tumores ligados ao estilo de vida pouco saudável. A região Sul registra a maior taxa de câncer colorretal do país —33,97 casos por 100 mil pessoas, quatro vezes a da região Norte (8,48 por 100 mil). O padrão reflete dieta ocidentalizada rica em carne processada, sedentarismo, obesidade e envelhecimento populacional.

Os tumores associados ao tabagismo, como os de pulmão e cavidade oral, também são significativamente mais frequentes no Sul e Sudeste. Trata-se do reflexo de uma exposição histórica maior ao cigarro nessas regiões há 20 ou 30 anos —período de latência entre exposição e desenvolvimento da doença.

“A gente teve alguns avanços. A reforma tributária, por exemplo, aprovou a taxação para tentar reduzir o consumo de produtos nocivos para a saúde, como tabaco, álcool, bebidas açucaradas”, disse Padilha, que ainda manifestou preocupação com a expansão do uso de dispositivos de fumar por jovens.

“Câncer de pulmão continua sendo importante, é o terceiro em homens”, afirma Hoff, alertando que, depois de anos de redução, o Brasil começa a ver um platô e até aumento nas taxas de tabagismo. “Nós não devemos abaixar a guarda.”

Além do controle do tabagismo e da vacinação contra HPV, medidas como alimentação saudável, atividade física regular, redução do consumo de álcool e proteção solar adequada podem reduzir significativamente o risco de diversos tipos de câncer. O rastreamento e diagnóstico precoce, quando disponíveis, aumentam as chances de cura e reduzem a mortalidade.

Elaboradas a cada três anos pela Coordenação de Prevenção e Vigilância do Inca, as estimativas têm como objetivo apoiar o planejamento e a vigilância em saúde no curto prazo, concentrando-se nos tumores de maior magnitude epidemiológica e relevância na saúde pública.

A metodologia é alinhada às recomendações internacionais da Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (Iarc) e da OMS, incorporando modelos estatísticos para predição de curto prazo.

Para Hoff, os números funcionam como direcionamento para gestores sobre como fazer o planejamento de atendimento e desenvolvimento de infraestrutura. “O estresse que isso coloca na estrutura de atendimento precisa ser preparado, precisa ser considerado na preparação, na distribuição de recursos, estabelecimento de novos serviços e mesmo no planejamento do treinamento de especialistas”, afirma.

Apesar do cenário complexo, para Hoff “o futuro não está escrito”. É preciso investir em hábitos saudáveis, prevenção e acesso equitativo aos serviços de saúde para tentar frear essa curva ascendente.

Autor: Folha

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