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Canetas emagrecedoras: alertas de especialistas – 12/04/2026 – Equilíbrio e Saúde

Sarah Le Brocq tem experiência pessoal com os efeitos transformadores dos medicamentos para perda de peso. Ela teve obesidade durante a maior parte da sua vida adulta e experimentou inúmeras dietas.

“Eu pensava: ‘Vou testar qualquer coisa que saia, pois pode funcionar para mim’.” Mas, infelizmente, ela sempre recuperava o peso perdido, segundo contou ao programa Inside Health, da BBC Rádio 4.

Depois de tomar medicamentos para emagrecer por mais de dois anos, ela perdeu quase 51 kg.

“De repente, parei de pensar em comida”, relembra ela. “Tenho mais energia, faço coisas que antes não podia… Me deu uma nova liberdade na vida.”

Milhões de pessoas como Sarah, agora, têm acesso a medicamentos como semaglutida e tirzepatida, mais conhecidas pelos seus nomes comerciais Ozempic e Mounjaro.

O número de pessoas que tomam medicamentos para perder peso provavelmente irá aumentar à medida que surgirem novos produtos farmacêuticos no mercado, incluindo comprimidos para substituir as atuais injeções.

Estes produtos estão claramente abrindo uma nova era no tratamento da obesidade.

Agora, este transtorno é um problema “controlável”, segundo o professor de Medicina David Cummings, da Universidade de Washington, nos Estados Unidos. “Eles são o mais próximo de um medicamento milagroso que já vi.”

Mas outros acadêmicos alertam que corremos o risco de perder de vista a necessidade de mudanças comportamentais, especialmente porque a nossa tendência é recuperar o peso rapidamente, quando deixamos de tomar os produtos.

Então, o que as pessoas que pretendem usar medicamentos para perder peso devem considerar antes de iniciar o tratamento?

Como eles funcionam

Os produtos farmacêuticos para perder peso agem suprimindo o apetite, imitando os hormônios que indicam ao corpo quando ele está saciado.

Os mais comuns são o peptídeo similar a glucagon-1 (GLP-1) e o polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose (GIP).

Estas substâncias se unem a moléculas especializadas na superfície das nossas células, conhecidas como receptores de GLP-1 e GIP. Elas desempenham papel fundamental, indicando ao corpo quando ele já tem alimento suficiente.

De forma geral, as pessoas que tomam esses medicamentos começam a perder peso nas primeiras semanas. Eles são aprovados para perda de peso de pessoas com obesidade, mas existe um mercado em rápido crescimento para aqueles que não são considerados clinicamente obesos.

Sua popularidade vem aumentando devido à sua extrema eficácia, com perda de peso de 14% a 20% em 72 semanas. Mas cerca de 10% a 15% das pessoas perdem muito pouco peso e são conhecidas como “não reagentes”.

O GLP-1 age como um “escudo químico”, que protege as pessoas do nosso “ambiente obesogênico moderno, repleto de alimentos baratos e ricos em calorias”, afirma o professor de Medicina Cardiometabólica Naveed Sattar, da Universidade de Glasgow, no Reino Unido. Ele também é diretor do programa Objetivos de Saúde para a Obesidade do governo britânico.

Sattar colaborou como consultor de testes clínicos junto a diversas empresas produtoras de produtos farmacêuticos para emagrecer, mas não é acionista de nenhuma delas.

“Existe comida por toda parte”, comenta ele. E, em meia hora, qualquer pessoa “pode pegar o telefone e pedir 10 mil calorias.”

Se deixar de tomar, aumentará o peso

Quando uma pessoa com obesidade começa a tomar produtos farmacêuticos para emagrecer, ela deve considerar que poderá precisar tomá-los a longo prazo, explica Cummings. Ele dirige um programa de controle de peso para pessoas com obesidade, com índice de massa corporal de 50 ou mais.

Uma pergunta frequente dos seus pacientes, antes de começar a tomar o produto, é por quanto tempo precisarão tomá-lo.

Geralmente, eles deixam de tomar o medicamento depois de cerca de um ano, explica ele. Uma análise de estudos científicos com mais de 9 mil pacientes indicou que a duração média do tratamento é de 39 semanas.

As pessoas acreditam que podem continuar perdendo peso apenas com a força de vontade, comenta Cummings, mas as evidências indicam que não é o que acontece.

Ele descobriu que as pessoas abandonam o tratamento por diversas razões, seja devido ao custo, porque suas seguradoras suspendem a cobertura ou porque não desejam tomar medicamentos por um período prolongado.

E, quando deixam de tomar o medicamento, elas costumam recuperar o peso perdido.

Um estudo recente revelou que a recuperação de peso ocorre com até quatro vezes mais rapidez depois da suspensão dos medicamentos do que em pessoas que realizam um programa de perda de peso concentrado na mudança de hábitos.

Outro estudo concluiu que as pessoas que tomavam medicamentos para emagrecer ganharam 1,5 kg oito semanas depois de suspender a medicação e que seu peso continuou aumentando ao longo do tempo.

O mesmo estudo também descobriu que voltam a surgir outros problemas de saúde, como a hipertensão.

Novas pesquisas também concluíram que as pessoas que deixam de tomar medicamentos para perda de peso recuperam cerca de 60% do peso perdido um ano depois.

Para Sattar, o peso retorna rapidamente devido ao que os pesquisadores chamam de “ruído alimentar”, que consiste nos pensamentos persistentes e intrusivos sobre os alimentos.

Os hormônios também têm influência. Quando tentamos perder peso, surge uma forte reação hormonal, indicando ao corpo para que recupere o peso perdido.

Cummings explica que, por este motivo, o cérebro interpreta a redução de calorias como uma deficiência energética e, por isso, depois de suspender os medicamentos, os hormônios que estimulam o apetite aumentam e o metabolismo é reduzido.

“Se estas defesas biológicas não forem suficientemente fortes, elas podem reduzir a eficácia do medicamento”, afirma ele.

Mudanças de estilo de vida

Sattar observou que, para um pequeno percentual de pessoas que modificam seu estilo de vida, é possível reduzir a dose ou usar o medicamento de forma intermitente. Algumas delas realmente realizam “mudanças fundamentais na sua alimentação”, afirma ele.

“Outras poderiam necessitar de uma dose menor que a inicial. Mas a maioria provavelmente continuará necessitando de alguma dose do medicamento, já que o ambiente alimentar permanece o mesmo.”

Existe uma preocupação cada vez maior com o fato de que algumas pessoas estão tomando medicamentos para reduzir o peso como substituto de mudanças de estilo de vida. Mas as evidências demonstram que modificar o estilo de vida em combinação com os produtos farmacêuticos é o que conduz à maior perda de peso.

Recentemente, em uma revisão científica das evidências disponíveis, especialistas alertaram que a falta de apoio ao comportamento e estilo de vida para as pessoas que tomam medicamentos para perder peso pode torná-las vulneráveis a deficiências nutricionais.

“Devemos nos assegurar de que as pessoas recebam proteína suficiente e todas as vitaminas e minerais de que elas necessitam”, afirma a cientista Marie Spreckley, especializada em nutrição e comportamente, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido. Ela é a principal autora do relatório.

“Não queremos consequências indesejadas a longo prazo, como fragilidade e perda de massa muscular”, explica ela. “Não queremos substituir um problema de saúde por outro.”

Como estes medicamentos provocam uma redução drástica do apetite, os pacientes tendem a comer menos, destacam ela e seus colegas. Isso pode resultar em uma “oportunidade perdida”, se os pacientes não receberem apoio a longo prazo e mantiverem seus maus hábitos alimentares.

Não existe solução rápida

Por isso, a Organização Mundial da Saúde declarou que a medicação sozinha “não reverterá o problema da obesidade”.

São também necessárias intervenções precoces, triagem e criação de ambientes mais saudáveis, indica a organização nas suas diretrizes de uso dos produtos farmacêuticos de GLP-1.

Isso é mais fácil quando as pessoas ainda estão tomando os medicamentos, explica Sattar. “Elas têm mais tempo para pensar na sua dieta.”

Mas modificar os hábitos é extremamente difícil, segundo a professora de Medicina Comportamental Amanda Daley, da Universidade de Loughborough, no Reino Unido.

Para ela, é preciso melhorar a comunicação com os pacientes sobre a rapidez com que eles podem recuperar peso, quando deixam de tomar medicamentos com GLP-1.

A obesidade é uma condição crônica e recorrente, afirma Daley. Isso significa que ela não pode ser “curada” apenas com um medicamento.

Por isso, o apoio adicional e a assistência integral são fundamentais para garantir que os pacientes realizem mudanças na sua alimentação e aumentem sua atividade física.

Não se sabe ao certo se os fornecedores privados oferecem este apoio fundamental, destaca a professora. Isso a preocupa, já que muitas pessoas têm acesso direto à medicação e é difícil supervisionar a continuidade do tratamento.

Pequenos incentivos ajudam a mudar o comportamento

Para superar parte do problema, pesquisadores de Stanford estudaram como é possível apoiar e incentivar mudanças de estilo de vida.

Em um estudo recente, os pesquisadores testaram se pequenos incentivos, ou “micropassos”, podem ajudar a fomentar mudanças de comportamento saudáveis entre as pessoas que tomam medicamentos com GLP-1.

As pequenas mudanças se concentraram na nutrição, na atividade física, no sono e na gestão do estresse.

Basicamente, os micropassos eram pequenos e administráveis, como substituir bebidas doces por água, deixar de tomar café depois do almoço, respirar profundamente em caso de estresse ou sair para a rua por cinco minutos.

Eles concluíram que estas intervenções ajudam a melhorar as expectativas comportamentais.

Estas “expectativas” são um primeiro passo necessário para as mudanças comportamentais, segundo a professora de Pediatria Maya Adam, da Faculdade de Medicina de Stanford, nos Estados Unidos, participante do estudo.

“Atingir um estado de saúde ideal envolve muito mais do que apenas farmacoterapia”, explica ela. “Concluímos que oferecer às pessoas estes pequenos incentivos pode ser muito eficaz.”

Ela considera que estes passos são “muito pequenos para fracassar”, pois até as pequenas mudanças e hábitos diários fazem grande diferença com o passar do tempo.

Efeitos secundários

Este tipo de intervenção é fundamental para oferecer às pessoas as ferramentas necessárias para conseguir as mudanças, segundo Daley, especialmente considerando os efeitos secundários conhecidos, como problemas gastrointestinais.

Também se observou aumento da pancreatite e dos cálculos biliares. A perda de massa muscular é outra preocupação, especialmente entre as pessoas que não fazem exercícios.

Recentemente, um estudo também encontrou vínculos com condições dos ossos e das articulações.

Embora já tenhamos vários anos de dados sobre a eficácia dos produtos farmacêuticos com GLP-1, ainda não conhecemos as perspectivas de longo prazo e não sabemos se seus efeitos irão diminuir com o passar do tempo.

Faltam também dados sobre como estes produtos farmacêuticos afetam a gravidez ou as gerações futuras, já que não é recomendável tomar medicamentos para perda de peso durante a gravidez.

Mas, considerando as consequências negativas da obesidade para a saúde das pessoas, os efeitos secundários das medicações são comparativamente insignificantes, segundo Naveed Sattar e David Cummings.

Este é particularmente o caso de pessoas que sofrem de diversas condições relacionadas ao excesso de peso. Doenças cardíacas, câncer e AVCs são as principais causas de morte em todo o mundo – e todas elas estão relacionadas à obesidade.

Panorama em mutação

O que sabemos com certeza é que o panorama dos medicamentos para perda de peso vem evoluindo rapidamente. E existem outros benefícios, além do emagrecimento.

Em um importante estudo com dois milhões de pessoas, os produtos farmacêuticos usados para redução de peso foram associados à melhoria da saúde cardiovascular, redução das infecções, menos risco de abuso de substâncias e redução dos casos de demência.

Também se demonstrou que eles melhoram a apneia do sono e a artrite, além do abuso de substâncias.

Um novo princípio ativo chamado retatrutida também demonstrou resultados promissores em testes recentes. Ele imita três hormônios que regulam o apetite.

Evidências iniciais indicam perda de peso de quase 29% após 68 semanas, segundo seu fabricante, a farmacêutica Eli Lilly.

Os medicamentos são apenas uma ferramenta para o tratamento da obesidade, segundo Amanda Daley. O mais importante é possibilitar que as pessoas realizem mudanças mais saudáveis, que durem por mais tempo que as medicações.

E, com a grande quantidade de pessoas que consomem alimentos ultraprocessados com alto teor calórico, a obesidade continuará sendo um problema de saúde cada vez maior, segundo os especialistas.

Para Daley, nosso objetivo deveria ser mudar o ambiente alimentar, oferecendo melhores opções, e influenciar as políticas governamentais, para que a próxima geração não precise fazer uso destes medicamentos.

Autor: Folha

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