As vendas de veículos elétricos estão prestes a registrar seu crescimento anual mais lento desde que a pandemia abalou a economia global em 2020, enquanto a transição dos motores a combustão interna enfrenta novos obstáculos.
Uma desaceleração na demanda chinesa antes aquecida, crescimento mais fraco na Europa e uma contração no mercado dos EUA farão com que as vendas de veículos elétricos aumentem 13% para 24 milhões em 2026, abaixo do aumento estimado de 22% no ano passado, segundo a empresa de pesquisa Benchmark Mineral Intelligence.
O abandono dos incentivos fiscais para veículos elétricos pela administração Trump, o enfraquecimento pela UE da proibição de carros a gasolina que deveria entrar em vigor em 2035 e a desaceleração do ritmo acelerado de crescimento da China moldarão o destino da indústria este ano, dizem executivos e analistas.
A perspectiva mais moderada segue vários anos de demanda explosiva liderada pela China, que parecia anunciar o rápido fim dos carros a gasolina, que impulsionaram os lucros da indústria automobilística por mais de um século.
Mark Wakefield, diretor-gerente da consultoria AlixPartners, disse: “Temos ventos contrários na China, que tem sido o motor do crescimento, e provavelmente haverá mais por vir sobre o abrandamento das regulamentações europeias.”
As vendas nos EUA despencaram 29% para 1,1 milhão de veículos este ano após atingirem um recorde de 1,5 milhão em 2025, segundo a Benchmark. As vendas na Europa devem subir 14% para 4,9 milhões após um aumento estimado de 33% em 2025.
Na China, o maior mercado de veículos elétricos, as vendas devem atingir 15,5 milhões, acima dos 13,3 milhões em 2025, de acordo com as previsões da Benchmark, que incluem veículos totalmente elétricos e híbridos plug-in.
Embora ainda seja um ritmo de dois dígitos, o crescimento projetado na China está abaixo do registrado nos cinco anos até 2025, quando as vendas, incluindo as de híbridos plug-in, dispararam de cerca de 1,1 milhão para mais de 13 milhões.
Os fabricantes chineses, liderados pela BYD, ajudaram a estimular as vendas em casa e na Europa no ano passado, através do lançamento de modelos mais baratos que superaram as montadoras tradicionais europeias e americanas.
A BYD substituiu a Tesla como a maior fabricante mundial de carros elétricos em 2025, segundo números divulgados esta semana, à medida que o grupo chinês avançou na Europa e em outros mercados estrangeiros.
Este ano, os executivos esperam um aumento contínuo nas vendas de híbridos e híbridos plug-in, que se tornaram mais populares à medida que a infraestrutura de carregamento inadequada desestimula os consumidores a comprar veículos totalmente elétricos.
“Ambos os mercados (nos EUA e na Europa) estão aprendendo que a eletrificação parcial é tão interessante quanto a eletrificação total”, disse o CEO da Ford, Jim Farley.
Como sinal da agitação no mercado americano, a Ford revelou no mês passado uma baixa contábil de US$ 19,5 bilhões após abandonar uma série de modelos elétricos, incluindo sua picape totalmente elétrica F-150, para se concentrar em híbridos mais lucrativos e veículos baseados em motores a combustão.
Farley disse que a participação dos veículos elétricos no mercado de carros novos nos EUA pode cair de cerca de 10% no ano passado para 5% no curto prazo.
Em contraste com os EUA, a maioria dos executivos espera que o mercado chinês se expanda em 2026, mas mais lentamente do que nos últimos anos, quando Pequim apoiou a indústria de veículos elétricos com generosos subsídios e incentivos fiscais na tentativa de transformá-la em um campeão global.
O UBS prevê que as vendas na China —tanto de veículos totalmente elétricos quanto de híbridos plug-in— aumentarão 8% este ano.
Embora Pequim tenha reduzido o apoio à indústria, nesta semana o governo estendeu sua política de subsídio para troca de veículos, que inclui descontos para veículos elétricos.
As vendas chinesas ainda podem se beneficiar de medidas de estímulo mais amplas destinadas a ao consumo doméstico, bem como o investimento do governo local em infraestrutura de carregamento.
Os executivos dizem que a perspectiva de um ano mais difícil significa que as montadoras devem continuar a adaptar suas linhas durante a transição dos motores a gasolina.
Markus Haupt, CEO da Seat-Cupra, a marca espanhola de mercado de massa pertencente à Volkswagen, disse que o grupo precisava manter sua linha de produtos flexível durante a transição, mas acrescentou: “Estamos convencidos de que o futuro é elétrico. Precisamos descarbonizar a mobilidade.”





