Ryookyung Kim sempre foi fascinado por casamentos. Quando criança, Kim, que se identifica como gênero fluido e usa os pronomes neutros, se interessava mais pela estrutura dos casamentos do que pelo romance. “Era menos sobre encontrar uma pessoa para casar e mais sobre os detalhes e o fluxo de um evento”, diz.
No entanto, tinha dificuldades com os estímulos de grandes eventos. Quando criança, flashes de câmera faziam Kim chorar, e o som de balões estourando era uma fonte de extremo desconforto. Era considerado “apenas muito sensível”, lembrou Kim.
Anos depois, Kim, agora com 33 anos, foi diagnosticado com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, o que, segundo ele, combinava com “a forma como eu vivi minha vida”.
Quando conheceu seu parceiro, Philip Chan, 33, que também é neurodivergente, recebeu o diagnóstico de TOC (transtorno obsessivo compulsivo e TDAH, sabia que uma celebração de casamento convencional —longa, barulhenta e lotada— seria desconfortável. Então fizeram do jeito deles.
Kim e Chan, que moram em um subúrbio perto de Toronto, no Canadá, dividiram o casamento de junho de 2022 em várias partes para reduzir a superestimulação. Primeiro, optaram por fazer uma cerimônia íntima apenas com a fotógrafa, Aisha Keita, e o marido dela, Maxwell Step, “sem a pressão de performar”, diz Kim, sobre a celebração realizada no Good Northern, uma casa de campo à beira-mar em Ontário. Assinaram os documentos legais em outubro de 2022 com cerca de uma dúzia de familiares imediatos, o que pareceu íntimo.
Em dezembro de 2022, organizaram uma recepção em um espaço de fotos e eventos administrado por pessoas queer em Toronto para cerca de 50 pessoas —o número máximo com o qual se sentiam confortáveis. Na recepção, adicionaram uma sala silenciosa para descompressão, optaram por não ter DJ em favor de um sistema de som que pudessem controlar e pularam a tradicional primeira dança. “Não queríamos ser o centro das atenções”, afirma Kim.
As escolhas deles refletem uma crescente conscientização sobre neurodivergência (como autismo, TDAH e dislexia) na última década, incluindo como ela se relaciona com o amor (veja a série de sucesso da Netflix “Amor no Espectro”) e experiências como casamentos. Agora, mais fornecedores estão acomodando essas necessidades no processo de planejamento.
“Já existe tanto estigma em ser neurodivergente”, diz Mona Kay, assistente social e apresentadora do podcast “Neurodiverse Love”. “Este é o seu dia especial. Você quer torná-lo o mais feliz, divertido e tranquilo possível”.
Quando os casamentos se tornam mais humanos
Ariel Meadow Stallings acompanhou essa mudança se desenrolar por mais de 20 anos.
Ela fundou o Offbeat Wed, anteriormente Offbeat Bride, uma plataforma digital voltada ao mercado de casamentos, em 2007 e acompanhou como cada geração usa casamentos para expressar identidade e individualidade. Enquanto no início dos anos 2000 os casamentos tinham temas de subculturas, em meados dos anos 2010 eram mais sobre fandoms e referências culturais.
Agora, ela disse, nos anos 2020, essa expressão de identidade se voltou para dentro. “Passamos de ‘Vou ter um casamento punk’ para ‘Vou ter um casamento de Harry Potter’ para ‘Quero ter um casamento que honre que estou no espectro, e meu parceiro tem TDAH e ansiedade social'”.
Para Stallings, casamentos sensorialmente amigáveis representam mais do que apenas uma mudança de estilo. “Tantos casais e convidados aprendem que exaustão, sobrecarga e ansiedade são apenas parte do que é um casamento”, diz.
Os casais estão questionando essa lógica. Estão perguntando quanto tempo uma cerimônia precisa durar, quão alta uma festa precisa ser e quanta demanda social os convidados podem realisticamente suportar. Stallings disse que quando os casamentos se tornam mais sobre sentimento do que aparência, “é quando os casamentos se tornam mais humanos”.
Em julho de 2025, em Salem, Massachusetts, Amanda Paterson, 38, renovou seus votos com James Paterson, 41, em um pequeno local com tema satânico com seis convidados. O casal havia se casado pela primeira vez em uma cerimônia simples no Dia dos Namorados de 2023. Amanda Paterson tem TDAH e uma forte sensibilidade a texturas. Seu vestido incluía uma estrutura de armação por baixo para manter o tecido longe de sua pele.
Ela carregava um buquê pesado com uma pedra de sangue. A pedra a ancorava e dava algo para focar. “Em vez de andar de um lado para o outro, eu brincava com a pedra, mantinha minhas mãos ocupadas”, diz ela. James Paterson não compartilha suas sensibilidades sensoriais, mas ficou feliz em planejar o dia em torno das dela. “A última coisa que alguém quer no próprio casamento é ficar desconfortável”, afirma Peterson.
Precisamos mesmo?
Jake Taylor, 36, fundou a empresa de planejamento Functions and Gatherings em 2017 para ajudar casais queer a escapar de tradições rígidas. “Eu realmente comecei minha empresa para empoderar pessoas, especialmente pessoas queer, a terem o casamento que querem e não o casamento que é esperado delas”, diz. Com o tempo, percebeu que muitos de seus clientes eram neurodivergentes (e disse que recebeu o diagnóstico de TDAH).
A pergunta que ele ouve com mais frequência não é sobre orçamentos ou flores, mas permissão. “A maior pergunta que me fazem é: ‘Precisamos mesmo?'”, diz ele.
“Para algumas pessoas, a pior parte do dia é o momento em que são o centro das atenções”, acrescenta Taylor. Ele sugeriu mudanças estruturais como entrar juntos em vez de serem apresentados, aparecer pelo lado em vez de caminhar pelo corredor, fazer votos privados antes de uma cerimônia pública ou pular as danças completamente.
Maya Lovro, fotógrafa com autismo e TDAH que se identifica como não-binário e usa pronomes neutros, trata os dias de casamento como longos exercícios de flexibilidade. “Dias de casamento são difíceis, e cronogramas são brutais”, diz. Estando com o casal o dia todo, frequentemente vê a sobrecarga antes dos outros. “Consigo ver quando as pessoas estão começando a se desligar”, diz Lovro.
Quando isso acontece, intervém sutilmente. “Posso mentir por eles e dizer que preciso deles por 10 minutos”, afirma Lovro. Também evita poses rígidas para deixar o casal mais confortável. Mais importante, prioriza as necessidades neurodiversas. “Sempre pergunto antes dos dias de casamento: do que vocês precisam em termos de suporte de acessibilidade?”, acrescenta.
Este artigo foi publicado originalmente no The New York Times.
Autor: Folha








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