Foram necessários quase oito anos completos para a Justiça condenar os mandantes dos assassinatos da vereadora Marielle Franco (PSOL), do Rio de Janeiro, e do motorista Anderson Gomes.
O crime bárbaro ocorreu no dia 14 de março de 2018, no centro do Rio, e somente agora, em 25 de fevereiro de 2026, o Judiciário proferiu sua decisão em instância final de julgamento —embora ainda caiba recurso, são exíguas as chances de mudança no veredito.
Por unanimidade, a primeira turma do Supremo Tribunal Federal (STF) fixou pena de 76 anos e 3 meses de prisão para os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, apontados como mandantes, e de 18 anos para Rivaldo Barbosa, ex-chefe de Polícia Civil, por obstrução de Justiça e corrupção.
Reconheça-se que tamanha demora, infelizmente, está longe de ser exceção no sistema judicial brasileiro. Nesse caso em particular, contudo, ela é ainda mais inadmissível, dada a evidente carga simbólica envolvida na morte da vereadora de 38 anos.
Mulher, negra e nascida na favela da Maré, Marielle formou-se em sociologia e desenhou um futuro promissor na política. Em sua atuação na Câmara Municipal, combatia a discriminação racial e de gênero e denunciava ilegalidades tanto das milícias quanto de setores da polícia.
Desde o princípio, dois aspectos ficaram claros: houve motivação política para o crime; e os disparos que ceifaram duas vidas também feriram a democracia.
Diante da repercussão nacional e até no exterior, autoridades promoveram atos solenes e prometeram celeridade nas investigações —e o que se viu foi o oposto.
As primeiras prisões ocorreram um ano após os assassinatos: o sargento reformado Ronnie Lessa, acusado de ser o autor dos tiros, e o ex-policial militar Élcio de Queiroz, acusado de dirigir o carro usado no crime.
Desse ponto em diante, porém, a Polícia Civil do Rio de Janeiro não fez mais do que girar em falso. As apurações só voltaram a andar em 2023, quando a Polícia Federal entrou no caso e seguiu as pistas que levariam aos mandantes enfim condenados.
A complexidade da trama revela muito sobre o espraiamento do crime organizado no território fluminense. Domingos Brazão é conselheiro do Tribunal de Contas-RJ; Chiquinho Brazão era deputado federal pelo União Brasil, depois foi expulso do partido e cassado na Câmara; e Rivaldo Barbosa era chefe da Polícia Civil.
O assassinato de Marielle Franco conheceu o seu desfecho, mas os desmandos que ela denunciava ainda demandam resposta.
Autor: Folha








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