A indústria ferroviária projeta crescimento no Brasil neste ano, impulsionada por novos contratos no setor. As empresas com operações no país devem fabricar 72 locomotivas, 1,9 mil vagões de carga e 193 carros de passageiros, quantidades que representam aumentos em cada categoria (de 9%, 12% e 59%, respectivamente), segundo a Associação Brasileira da Indústria Ferroviária (Abifer).
O avanço acompanha a estratégia nacional que tem a promessa de acelerar projetos de transporte ferroviário de cargas e de passageiros. E é nesse contexto que a China amplia presença no país, com a instalação de grandes indústrias e contratos de fornecimento ao setor ferroviário brasileiro.
No interior de São Paulo, a cidade de Araraquara recebeu em janeiro uma nova empresa chinesa do setor ferroviário, a Kangni. A companhia desenvolve sistemas de portas para trens e metrôs e produz componentes para veículos de energia limpa.
A empresa firmou parceria com a CRRC Corporation Limited, fabricante de trens, e passou a integrar a cadeia produtiva ferroviária instalada no município. Com presença internacional e forte atuação no mercado chinês, a Kangni fornece componentes para grandes fabricantes globais.
Setor ferroviário brasileiro amplia contratações com operações da CRRC
É também em Araraquara que a estatal chinesa CRRC iniciou o processo de contratação de trabalhadores para a fábrica que fornecerá trens ao Metrô de São Paulo. A companhia instalou a unidade no município paulista em julho do ano passado.
A nova planta ocupa o antigo prédio da Hyundai Rotem Brasil, às margens da Rodovia SP-255, próximo à Usina Maringá. O empreendimento conta com investimento inicial de cerca de R$ 50 milhões e projeta a geração de 100 empregos, com produção que atenderá as linhas 1-azul, 2-verde e 3-vermelha do metrô.
O contrato prevê que a CRRC produza 44 trens para o metrô paulista, além dos veículos para o Trem Intercidades (TIC), que ligará São Paulo a Campinas, e tem projeção de começar a operar em 2031. Se concretizado, será o primeiro trem do país a atingir 120 km/h. Cada composição será projetada para o transporte de até 1,8 mil passageiros, contará com motores de alta performance e modelo gangway, que possibilita passagem livre entre os carros.
Para o analista de negócios do Centro Universitário Moura Lacerda, Sérgio Torggler, que estuda o sistema ferroviário brasileiro há duas décadas, a chegada de grandes indústrias chinesas ao país integra uma estratégia de mercado mesclada com articulação política.
“A vinda de grandes indústrias chinesas ao Brasil trata-se de um mecanismo de conquistar apoio político para projetos ferroviários com material deles. Eles têm uma grande capacidade industrial com ociosidade. O boom de grandes projetos na China está passando. Eles têm duas opções: diminuir capacidade produtiva ou expandir exportações. O Brasil entra na segunda opção”, afirma o professor.
VEJA TAMBÉM:
-

Trem-bala acumula 18 anos de promessas, R$ 60 bilhões falados e zero kms construídos
Indústria ferroviária defende prioridade nacional e concorrência justa
A Associação Brasileira da Indústria Ferroviária (Abifer) concorda que a cooperação internacional cumpre papel relevante, mas defende que o Brasil priorize e valorize sua própria indústria ferroviária, que “mantém histórico sólido de qualidade, inovação e capacidade produtiva”.
A entidade ressalta que o setor reúne fabricantes consolidados de veículos ferroviários, trens de passageiros, locomotivas, vagões de carga e máquinas para construção e manutenção da via permanente. O presidente da Abifer, Vicente Abate, afirma que empresas estrangeiras podem atuar no Brasil, desde que concorram em condições equivalentes às nacionais.
“O mercado brasileiro tem condições de acolher fabricantes estrangeiros, desde que estejam efetivamente instalados no país, com produção local, geração de emprego e renda e atuação em condições de isonomia tributária, garantindo uma concorrência justa”, pontua ele.
A Abifer reconhece Araraquara como polo histórico de excelência da indústria ferroviária nacional. A entidade afirma que o município possui plena capacidade para receber novos fabricantes, desde que atendam às mesmas exigências aplicáveis à indústria brasileira no setor ferroviário.
Projeto paulista concentra R$ 190 bilhões e orienta a expansão de trilhos
A chegada da Kangni e da CRRC está contemplado em meio à estratégia do programa “SP nos Trilhos”, que estrutura a política de investimentos do governo de São Paulo para expansão e modernização da infraestrutura ferroviária. A iniciativa prevê aportes superiores a R$ 190 bilhões e reúne mais de 40 projetos voltados a trens metropolitanos e serviços intercidades.
O conjunto de ações abrange mais de 1 mil quilômetros de trilhos na Grande São Paulo, no interior e no litoral do estado. As obras e os serviços associados ao programa têm potencial para gerar cerca de 150 mil empregos.
O plano do governo paulista é modernizar a frota em operação, além de calcular a possibilidade de aquisição de aproximadamente 400 novos trens ao longo dos próximos dez anos. O programa contempla linhas em funcionamento e projetos futuros, com foco na ampliação do transporte sobre trilhos e na melhoria da mobilidade urbana.
Autor: Gazeta do Povo








.gif)












