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Cidades brasileiras ampliam monitoramento de calor e miram impacto na saúde – 01/04/2026 – Equilíbrio e Saúde

Ao menos três capitais —São Paulo, Fortaleza e Rio de Janeiro— estão desenvolvendo sistemas para monitorar, prever e mitigar os impactos das ondas de calor na saúde das pessoas. A experiência paulistana é a mais recente e adiciona uma camada inédita ao debate: medir o calor dentro das casas.

As experiências foram compartilhadas nesta terça-feira (31) durante a Cúpula da Parceria para Cidades Saudáveis, que acontece no Rio de Janeiro. A iniciativa é apoiada pela Bloomberg Philanthropies, em parceria com a OMS (Organização Mundial da Saúde) e a Vital Strategies.

Essa rede global, que apoia as três experiências brasileiras, trabalha de forma colaborativa em políticas públicas voltadas à prevenção de doenças crônicas não transmissíveis e lesões passíveis de prevenção, responsáveis por mais de oito em cada dez mortes no mundo.

Batizado de SampaAdapta, o projeto da Prefeitura de São Paulo, em parceria com a USP (Universidade de São Paulo), parte de uma constatação simples, mas pouco explorada: os dados oficiais de temperatura, captados por estações meteorológicas podem não refletir o que a população realmente enfrenta no dia a dia em ambientes fechados.

“A gente parte de uma hipótese de que as estações subestimam o que está acontecendo dentro das casas”, afirma Lígia Pinheiro de Jesus, diretora de estudos ambientais e planejamento territorial da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente.

Os primeiros resultados, ainda preliminares, já acenderam um alerta. Durante as ondas de calor registradas entre dezembro e janeiro, as temperaturas noturnas dentro das casas permaneceram acima do limite considerado adequado para o corpo humano: cerca de 26°C.

“A temperatura da noite, que é algo bastante importante para a saúde, está bastante alta nesses momentos de altas temperaturas”, diz Lígia. Segundo ela, esse dado é especialmente crítico porque o organismo precisa de resfriamento noturno para se recuperar do estresse térmico.

Para preencher essa lacuna, foram instalados 25 sensores distribuídos pelas cinco regiões da cidade. Em cada área, quatro equipamentos medem a temperatura dentro de residências e um monitora o ambiente externo em equipamentos públicos, como escolas e postos de saúde. A escolha dos locais levou em conta critérios de vulnerabilidade social, incidência de calor e engajamento comunitário.

Segundo Lígia, o projeto se organiza em três eixos. O primeiro é a produção de dados para entender como o calor se comporta em diferentes tipos de moradia e contextos urbanos. O segundo é o cruzamento dessas informações com indicadores de saúde, como morbidade e mortalidade.

O terceiro eixo é a criação de uma rede de conforto térmico, que inclui parques, escolas e unidades públicas como possíveis “refúgios climáticos”.

“Os equipamentos públicos podem ser os espaços mais confortáveis nesses momentos de calor extremo”, afirma. “A ideia é estruturar uma rede de conforto térmico, com parques e equipamentos funcionando como refúgios.”

Se São Paulo investe no microclima das residências, Fortaleza aposta na escala urbana e na integração de dados em tempo real. A cidade implementou, em 2025, o Observatório dos Riscos Climáticos, uma plataforma que reúne informações meteorológicas atualizadas a cada hora e acessíveis à população.

O sistema é alimentado por dez estações meteorológicas instaladas em pontos estratégicos, identificados a partir de dados de satélite que indicam a presença de ilhas de calor e áreas sujeitas a múltiplos riscos, como enchentes.

“Se um bairro tem uma diferença de cinco a seis graus em relação a outro, eu tenho que otimizar meus recursos e atuar onde mais precisa”, afirma Francisca Dalila Menezes Vasconcelos, diretora do Instituto de Pesquisa e Planejamento de Fortaleza.

A principal inovação está no uso desses dados para orientar decisões concretas. Foi o que ocorreu na comunidade do Gengibre, em Fortaleza, considerada altamente vulnerável.

“A gente conseguiu identificar essa área e fazer uma revitalização com saneamento, soluções baseadas na natureza e inclusão social”, diz.

O observatório também fortalece a transparência e o controle social. As informações são atualizadas em tempo real e podem ser acessadas pela população.

“A população sabe a cada hora o que está acontecendo, se pode se locomover, como pode se proteger. Isso dá poder de monitorar e cobrar o governo”, afirma a gestora.

Agora, Fortaleza avança para uma nova etapa: a criação de um protocolo integrado de calor e saúde, cruzando dados climáticos com indicadores sociais e de saúde.

“A gente vai fazer um protocolo específico por região, com ações diferentes para populações diferentes”, explica. “Queremos ser mais eficientes na resposta e reduzir o tempo de reação.”

O Rio de Janeiro foi a primeira cidade brasileira a estruturar um sistema de alerta de calor orientado por dados de saúde. O modelo, baseado na análise de mais de 200 mil óbitos em 12 anos, combina informações meteorológicas com indicadores epidemiológicos para antecipar riscos e acionar medidas de proteção à população.

“As variações de temperatura e de pressão têm sido cada vez mais intensas, e a gente observa também o aumento da temperatura média ao longo dos anos”, diz o secretário municipal de Saúde do Rio, Daniel Soranz.

O sistema estabeleceu cinco níveis que orientam as ações do poder público e da população. Segundo Soranz, as medidas se tornam mais restritivas conforme o nível de calor avança. “Nos níveis mais críticos, a gente recomenda a interrupção de atividades físicas na praia, suspende serviços expostos ao sol e orienta trabalhadores a pararem atividades sob altas temperaturas”, afirma.

Segundo Gislani Matheus, superintendente de Vigilância em Saúde da Secretaria Municipal do Rio, o sistema está sendo aprimorado para emitir alertas mais precocemente e prepare não só o sistema de saúde, mas também a população.

Hoje, o sistema prevê ondas de calor com cerca de três dias de antecedência, mas a meta é ampliar esse prazo. “A ideia é conseguir prever com pelo menos uma semana de antecedência”, diz.

Outra frente de aprimoramento é o aumento da resolução espacial dos dados, permitindo identificar variações de temperatura em um mesmo bairro. “A gente quer olhar não só grandes áreas, mas também o que acontece em determinadas ruas, que vivem situações diferentes de calor”, explica.

Com base nesses dados, a cidade já implementa ações como abertura de centros de resfriamento, distribuição de água e emissão de alertas públicos. Também estão em curso projetos de intervenções urbanas.

“Desde sombreamento até aumento de cobertura vegetal. Tudo isso para reduzir a sensação térmica e o impacto na saúde”, afirma.

O sistema carioca também avança na integração com outros fatores ambientais, como qualidade do ar e circulação de vetores de doenças.

A repórter viajou ao Rio de Janeiro a convite da PHC (Partnership for Healthy Cities).

Autor: Folha

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