A carne vermelha se tornou uma das questões mais disputadas na alimentação. É tão polarizadora que algumas pessoas decidem não comer carne alguma, enquanto outras decidem comer apenas carne. É veneno ou é o único combustível verdadeiro.
Um novo relatório delineia a dieta ideal tanto para as pessoas quanto para o planeta. O Relatório EAT-Lancet é severo com a carne vermelha: sua ingestão diária recomendada é de meros 14 gramas.
“Como a ingestão de carne vermelha não é essencial e parece estar linearmente relacionada a maior mortalidade total e riscos de outros problemas de saúde em populações que a consumiram por muitos anos, a ingestão ideal pode ser zero”, diz o relatório.
O relatório EAT-Lancet, elaborado por pesquisadores de 17 países, baseia sua recomendação exclusivamente em dados observacionais. Quando você faz isso, a carne parece bem ruim. Em estudo após estudo, pessoas que relatam comer muita carne têm piores resultados de saúde do que pessoas que comem pouco. O consumo de carne está correlacionado com aumento do risco de doenças cardíacas, alguns cânceres e mortalidade por todas as causas.
Um outro estudo, publicado no JAMA Internal Medicine e citado pelo relatório EAT-Lancet, mostra que pessoas no quinto superior de consumidores de carne são diferentes das pessoas no quinto inferior em muitos aspectos importantes. Elas pesam mais, são mais propensas a fumar, não são tão bem educadas, se exercitam menos e relatam menor ingestão de frutas, vegetais e fibras. Do lado positivo, relatam beber menos álcool.
Qualidade do sono, depressão e tempo de tela se correlacionam com algumas das mesmas doenças com as quais a carne se correlaciona, mas a maioria dos estudos não tem informações sobre isso.
O mesmo estudo de onde vieram os dados demográficos (analisado em um artigo de 2015) mostrou que as pessoas que comiam mais carne tinham maior probabilidade de morrer de câncer e doenças cardíacas, mas também tinham maior probabilidade de morrer em acidentes. E a maior diferença veio da categoria genérica “todos os outros”, que invariavelmente inclui causas de morte que não têm nada a ver com carne.
Basicamente, há um problema muito simples em confiar na pesquisa observacional: pessoas que comem muita carne são muito diferentes das pessoas que comem menos. A carne definitivamente não está causando as mortes acidentais (a menos que, talvez, sejam trágicos acidentes com churrasqueiras), e não está causando pelo menos algumas das mortes “todas as outras”.
Poderíamos resolver isso mantendo um grande grupo de pessoas em cativeiro por toda a vida, alimentando metade delas com carne e vendo o que acontece. Em vez disso, temos ensaios de curto prazo (devido à logística e custo) e que necessariamente dependem de marcadores para doenças, em vez da própria doença.
Para que isso seja útil, você precisa de um marcador que seja um indicador confiável. Para muitas doenças —incluindo câncer— esses são difíceis de encontrar. Para doenças cardíacas, temos um bom: colesterol lipoproteína de baixa densidade (LDL). Portanto, a maioria dos ensaios controlados sobre consumo de carne se concentra em doenças cardíacas.
Uma análise de 2025 de 44 ensaios controlados sobre carne descobriu que os únicos que mostravam resultados cardiovasculares positivos tinham ligações com a indústria da carne, e mesmo assim, apenas cerca de um em cada cinco apresentava resultados positivos. Dos estudos independentes, cerca de três quartos mostraram resultados negativos, e o quarto restante foi neutro.
Não temos muitas boas evidências sobre carne e saúde. As evidências observacionais são irremediavelmente confundidas, e as evidências de ensaios clínicos são lamentavelmente limitadas. Há muito que simplesmente não sabemos. Pode haver outras maneiras pelas quais a carne aumenta o risco, mas há poucas evidências definitivas para elas. E, claro, há a questão do que você come em vez disso. Se você está comendo carne vermelha em vez de, digamos, macarrão instantâneo, isso pode ser uma melhoria. Se, em vez disso, você está reduzindo suas lentilhas, nem tanto.
A carne é um alimento nutritivo. Na verdade, os alimentos de origem animal são as únicas fontes naturais de uma vitamina de que precisamos —B12— o que é uma indicação de que evoluímos com carne e laticínios como parte de nossa dieta.
Mas os alimentos vegetais também são nutritivos. E comer uma grande variedade deles também é uma boa proteção contra a incerteza. O que significa que a dieta carnívora —só carne, o tempo todo— é uma aposta bastante ruim.




