Em dezembro, o imaginário do Natal retorna a Belém, a pequena cidade que os Evangelhos apresentam como cenário do nascimento de Jesus. Mas, além do símbolo religioso, Belém é um lugar real, situado hoje na Cisjordânia, a cerca de nove quilômetros ao sul de Jerusalém, em território administrado pela Autoridade Nacional Palestina. Suas ruas, igrejas e colinas guardam camadas sucessivas de história, muito anteriores ao cristianismo, que ajudam a explicar por que essa aldeia ganhou papel tão central na tradição natalina.
Antes de se tornar o palco do nascimento de Jesus, Belém já aparecia com destaque na Bíblia Hebraica. É ali que nasce Davi, o pastor que se tornaria rei e cuja trajetória moldaria a identidade política e religiosa de Israel. Na narrativa bíblica, Samuel o unge em Belém como futuro líder: “Levanta-te, unge-o, porque é este”, diz Yahweh. A cidade passa a integrar o imaginário de uma dinastia legítima, cuja autoridade se fundamenta na eleição divina e nas tradições tribais da Judeia.
Belém retorna à cena no livro do profeta Miqueias, que anuncia que dela surgirá aquele que governará Israel: “E tu, Belém de Efrata, pequena entre os clãs de Judá, de ti sairá aquele que há de reinar em Israel”. O texto descreve uma aldeia agrícola cujo prestígio vem da associação com Davi. Belém simbolizava uma origem humilde para uma realeza idealizada, vinculada a um passado pastoral e a uma promessa de futuro.
Séculos depois, ao compor os relatos do nascimento de Jesus, Mateus e Lucas recorreriam a esse repertório simbólico. Embora Jesus seja identificado como “Jesus de Nazaré”, ambos situam seu nascimento em Belém, cada um com finalidades literárias e teológicas distintas.
Mateus estabelece uma conexão direta com a profecia de Miqueias. Na resposta dos escribas a Herodes, a profecia é reformulada: “E tu, Belém, terra de Judá, de ti sairá o guia que apascentará meu povo”. É um esforço explícito para aproximar Jesus da linhagem davídica, elemento essencial para apresentá-lo como Messias segundo a expectativa judaica da época.
Lucas utiliza outro expediente narrativo: um recenseamento romano que obrigaria José, “da casa e linhagem de Davi”, a viajar até Belém. A função histórica desse recenseamento é discutível, mas sua utilidade literária é evidente —situar o nascimento de Jesus no centro simbólico da realeza de Israel. Para os evangelistas, Belém não é apenas um local; é o cenário que inscreve Jesus na genealogia esperada de um rei messiânico.
Nos últimos anos, a arqueologia tem contribuído para reconstruir a Belém histórica. Em 2012, houve uma descoberta importante: um pequeno selo de argila com o nome “Belém” inscrito em hebraico antigo. Datado de cerca de 2.700 anos, é a primeira menção extrabíblica conhecida da cidade e sugere que o vilarejo já funcionava como ponto de recolhimento de tributos enviados a Jerusalém.
Escavações recentes revelam o perfil típico de uma aldeia judaica do período romano: casas organizadas em torno de pátios internos, cisternas escavadas na rocha calcária, silos subterrâneos para armazenar grãos e uso de grutas naturais como áreas complementares às residências. É a estrutura de uma comunidade agrícola modesta, dedicada ao cultivo de trigo, cevada, vinhas e oliveiras, integrada ao cinturão rural que abastecia Jerusalém.
A tradição cristã que identifica uma gruta como local do nascimento de Jesus é atestada desde o século 2º pelo filósofo Justino. Sobre ela foi construída, no século 4º, a Basílica da Natividade, por iniciativa de Helena, mãe de Constantino. A arqueologia não pode confirmar se essa gruta é o lugar exato mencionado pelos Evangelhos, mas revela continuidade de memória local: já no período romano tardio, peregrinos reconheciam Belém como ligada ao nascimento de Jesus, associação preservada por quase 2.000 anos.
Mais do que cenário de uma tradição religiosa, Belém é um ponto de encontro entre memória, texto e história. A Bíblia Hebraica a apresenta como berço de Davi; os evangelistas a transformam no marco inicial da vida de Jesus; e a arqueologia revela uma aldeia pequena, mas plenamente integrada à Judeia antiga. É nesse cruzamento entre símbolo e evidência que Belém continua a despertar interesse, não apenas como ícone do Natal, mas como lugar onde mitos e história se entrelaçam.





