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Como anda a sua libido alimentar? – 19/02/2026 – Equilíbrio

Para muita gente, comer virou uma equação: gramas de proteína por refeição, calorias controladas, macronutrientes em planilha. Ou seja, a alimentação passou a ser encarada como algo puramente funcional.

Saber o que você come e por quê é importante, claro. Mas a comida também tem um papel social, cultural e afetivo. Em um momento no qual medicamentos para inibir o apetite estão em alta e rotinas alimentares seguem metas rígidas, o tesão pela comida ainda tem espaço?

Alta performance, pouco prazer

Uma das grandes tendências do pós-pandemia foi a busca por uma vida mais saudável. A questão é que, em vez de encontrar um equilíbrio, muita gente mergulhou em estilos de vida marcados por performance, disciplina e autocobrança.

Não basta se exercitar ou manter uma alimentação balanceada: é preciso superar objetivos, render mais, conquistar o shape ideal. Nesse cenário, vale tudo para bater as metas diárias de proteína, fibra ou macronutrientes, de dúzias de ovos cozidos a frango com aveia, passando por shakes com creatina. O sabor e o prazer? Detalhes.

O pão é “carboidrato” e, a picanha, “proteína com gordura”. Essa forma de classificar os alimentos, focando apenas em nutrientes isolados e seus supostos efeitos no corpo, tem nome: nutricionismo, termo criado pelo pesquisador Gyorgy Scrinis, da Universidade de Melbourne, na Austrália, e popularizado pelo jornalista norte-americano Michael Pollan.

Ambos são críticos dessa visão reducionista e “técnica” do comer que, nos últimos anos, foi incorporada e potencializada pela indústria dos ultraprocessados, que alardeia a presença de certos nutrientes na embalagem dos produtos —especialmente a proteína— como se isso fosse garantia de mais saúde ou mais performance.

Saudável até demais

Nesse clima de vigilância alimentar, ganha espaço também o movimento conhecido como “clean eating”, que se baseia na ideia de consumir apenas alimentos “puros”, naturais e supostamente saudáveis, deixando de lado ultraprocessados, aditivos, glúten e outros elementos considerados prejudiciais segundo essa ótica.

À primeira vista, pode parecer algo positivo. Mas é preciso tomar cuidado: esse padrão pode evoluir para um comportamento obsessivo conhecido como “ortorexia nervosa”. Nomeada pela primeira vez em 1997 pelo médico norte-americano Steven Bratman, a condição se caracteriza por uma fixação patológica em “comer certo”, marcada por regras rígidas, perfeccionismo e ansiedade.

Uma estimativa feita há dez anos indicava que 6,9% da população geral poderia apresentar sinais do distúrbio. Embora mais estudos ainda sejam necessários, uma revisão recente afirma que a ortorexia — que ainda não foi reconhecida oficialmente como um transtorno alimentar— está em ascensão. E, em um mundo onde comer virou sinônimo de controle, disciplina e culpa, não é difícil entender por quê.

De olho no corpo

Também não dá para falar sobre nossa relação com o corpo e a comida hoje sem mencionar os medicamentos injetáveis usados para emagrecer, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, um mercado que movimentou R$ 10 bilhões no Brasil em 2025, segundo uma estimativa da XP.

As chamadas canetas emagrecedoras imitam a ação dos hormônios GLP-1 e GIP, desacelerando o esvaziamento do estômago e diminuindo os sinais de fome enviados ao cérebro. Ou seja, embora seu uso possa ser útil para vários grupos de pessoas, elas também ajudam a reduzir o nosso interesse pela comida —e, consequentemente, nossa libido alimentar.

Comer porque é uma delícia

Em meio a tantos discursos restritivos, vale lembrar: a comida une as pessoas. Um almoço de família, um jantar entre amigos, um café da manhã compartilhado com quem se ama —todos esses momentos são uma forma de aprofundar a relação. Muitos alimentos também se transformam em memórias: o bolo da avó, a sopa da mãe, o chá com poderes curativos (e quase milagrosos) da infância. Sabores que carregam histórias e sentimentos.

Do ponto de vista biológico, a comida também libera neurotransmissores como a dopamina e a serotonina, que ativam os centros de recompensa no cérebro. É uma forma do corpo dizer: “você está cuidando de mim.” Por essas e outras, o prazer de se alimentar vai muito além da sobrevivência. Comer pode —e deve— ser uma experiência apenas gostosa, nem que seja de vez em quando.

Autor: Folha

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