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Como Bukele virou inspiração para a Segurança na América Latina

Mais do que alterar o destino de um pequeno país na América Central, a eleição de Nayib Bukele para a presidência de El Salvador, em 2019, inaugurou uma nova era na política de segurança pública do continente. O modelo salvadorenho de “mão de ferro” contra o crime organizado se tornou uma inspiração para líderes políticos que buscam soluções rápidas para a criminalidade. 

Os números de Bukele na segurança pública são, no mínimo, impressionantes. El Salvador, que já foi considerado o país mais perigoso do mundo (com 103 homicídios por 100 mil habitantes em 2015), registrou uma queda drástica nas mortes violentas desde que o atual presidente tomou posse. Em 2024, o país contabilizou, ao todo, 114 homicídios, o equivalente a menos de 2 mortes por 100 mil habitantes.

Não à toa, a estatística serve de combustível para políticos de diversos países que veem no modelo de Bukele um caminho para o sucesso em duas vias: uma solução real para a criminalidade, frequentemente apontada como um dos principais problemas dos países latino-americanos, que pode alavancar uma vitória nas urnas. 

O pilar central desse modelo é o Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT), uma mega prisão com capacidade para 40 mil detentos, inaugurada em 2023. Mais do que uma cadeia, o CECOT tornou-se um símbolo de poder e controle territorial, amplamente divulgado por meio de campanhas midiáticas que mostram presos em celas de isolamento rígido, sem direito a visitas ou programas de reabilitação. 

Gestão de Bukele vira modelo para a América Latina 

A Argentina de Javier Milei é, atualmente, um laboratório dessa inspiração internacional. A ministra da Segurança, Patricia Bullrich, implementou uma nova doutrina contra o crime organizado ao firmar um pacto de cooperação com El Salvador. 

O foco inicial foi a cidade de Rosario, que sofria com o domínio do narcotráfico e registrou uma queda de 78% nos homicídios após o endurecimento das medidas repressivas e o isolamento de líderes criminosos. 

O acordo entre Argentina e El Salvador estabelece princípios de controle territorial absoluto pelo Estado e o intercâmbio de informações de inteligência. Milei também avançou com um pacote legislativo que inclui a Lei Antimáfia e a criação de pavilhões de segurança máxima inspirados no CECOT, deixando claro que a “bukelização” tem caráter central em seu governo. 

No Equador, o presidente Daniel Noboa seguiu um roteiro semelhante para enfrentar a pior crise de segurança da história do país. Noboa declarou estado de “conflito armado interno” contra 22 gangues, agora classificadas como organizações terroristas, e inaugurou a “Prisão do Encontro”. Localizada em uma área isolada, a unidade tenta replicar o modelo de contenção salvadorenho para isolar criminosos de alta periculosidade.

Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT) criado por Bukele em El Salvador
No Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT) de Bukele, os presos não têm direito a visitas. (Foto: Rodrigo Sura / EFE)

A influência de Bukele também encontra apoio na Colômbia, especificamente em Medellín – cidade de origem de um dos mais famosos cartéis mundiais do narcotráfico. O prefeito Federico Gutierrez anunciou a construção de uma mega prisão custeada com recursos públicos e privados, seguindo à risca o modelo do CECOT. Gutierrez defende que os presos sejam privados de todos os privilégios e mantidos sob vigilância tecnológica para evitar a propagação de ordens de crimes de dentro das celas. 

Em Honduras, a ex-presidente Xiomara Castro, apesar de ser de um partido de esquerda, também anunciou planos para construir uma nova cadeia ao estilo salvadorenho. No Peru, o ex-prefeito da capital Lima e pré-candidato a presidente Rafael López Aliaga descreveu as medidas de Bukele como um “milagre”, enquanto o ministro peruano da Justiça, Eduardo Arana, recomendou que o país considere a implementação do modelo CECOT para conter a escalada de violência em locais onde a violência está descontrolada. 

Políticos brasileiros querem “bukelizar” o país 

No Brasil, figuras de destaque na direita, como os governadores Romeu Zema (Novo-MG), Ronaldo Caiado (União-GO) e Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), além do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e do líder do MBL e pré-candidato à Presidência, Renan Santos, tornaram-se alguns dos maiores entusiastas do modelo. Após visitar as prisões salvadorenhas, o deputado do PL sugeriu “bukelizar” o Brasil durante uma audiência com o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, na Câmara. 

Para Santos, é necessária a implementação urgente de leis mais duras, que sejam aplicadas com rigor e eliminem do Brasil a atuação do crime organizado. “Defendemos que o país declare guerra ao crime organizado, com a aplicação do direito penal ao inimigo e a eliminação total, inclusive física, dos traficantes de drogas. Eles precisam ser mortos ou presos para sempre”, disse o líder do MBL. 

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Zema, por sua vez, defendeu publicamente a importação da política salvadorenha, sugerindo a construção de centros de confinamento isolados em regiões remotas como a Amazônia. O governador mineiro também criticou a falta de interesse do governo federal em copiar táticas que comprovadamente inibiram facções em países com desafios semelhantes ao Brasil. 

Além da alegada falta de vontade do governo em replicar o CECOT, outros fatores associados podem atrapalhar a adoção do modelo de Bukele no Brasil. Um deles é a geografia do país. Se de um lado El Salvador tem um território pequeno, o que favorece ações centralizadas, do outro o Brasil é um país continental onde não é fácil coordenar o controle de operações do porte exigido pelo modelo salvadorenho. 

Outro ponto é o tipo de facção criminosa a ser enfrentada pelo Estado. El Salvador combateu as “maras”, gangues originadas por criminosos deportados dos Estados Unidos e marcadas pelo controle territorial e o cometimento de crimes como estupros, sequestros e extorsão de negócios locais. No Brasil, grupos como o PCC se tornaram verdadeiras “máfias das drogas”, com atuação transnacional no tráfico de entorpecentes e armas e lavagem de dinheiro, entre outros crimes. 

Modelo de Bukele é visto com ressalvas por críticos 

O modelo Bukele, apesar de todo o apoio interno e externo, opera sob um regime que é visto por seus críticos como sendo um estado permanente de exceção. Isto porque a forma de gestão do presidente de El Salvador suspende algumas garantias constitucionais e permite prisões sem ordem judicial. Como resultado, cerca de 84 mil pessoas foram presas pelo regime no qual o que deveria ser uma medida de emergência passou a ser política de Estado. 

Organizações internacionais de direitos humanos alertam para o alto custo institucional dessa política. A Anistia Internacional e a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) denunciaram padrões de prisões arbitrárias, tortura e centenas de mortes sob custódia do Estado. 

Mesmo assim, o apoio crescente ao modelo adotado por Bukele mostra que o sacrifício de certas liberdades civis parece ser um preço aceitável para poder transitar pelas ruas sem o medo constante da violência. O sucesso de El Salvador alterou as expectativas da população daquele país, o que acaba forçando outros governos a repensarem suas estratégias na segurança pública para não perderem relevância política. 

Por outro lado, à medida que a segurança se estabiliza começam a surgir pressões por melhorias na economia e no acesso a serviços básicos, áreas onde a gestão Bukele ainda enfrenta desafios. O número de domicílios em pobreza extrema, por exemplo, quase dobrou em El Salvador entre 2019 e 2022. Para os opositores locais, isso é um sinal de que a ordem pública sozinha não garante prosperidade.

Autor: Gazeta do Povo

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